A charmosa trema, abolida pelo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, ganha um novo significado em Internüs. Convidada a fazer parte do coletivo, ela chegou para trazer leveza e alegria, e funcionou muito bem.

O novo vídeo da Internüs é ACASÜ, e junto com ele vem aquele sorrisão desenhado pela trema sobre o Ü. Mais do que um título curioso, ACASÜ é resultado de uma soma de acasos, mas não se engane: não são banais. A série de acontecimentos que culminaram no projeto vai de acasos bons, como a descoberta de que o vídeo já estava praticamente pronto após o encerramento de um longo trabalho (Santa Diversão), até acasos trágicos, como quebrar o computador onde o material estava e se machucar feio.

Produzir em excesso pode parecer uma virtude no mundo atual, em que o esforço é constantemente celebrado. No entanto, esse ritmo acelerado pode banalizar as criações, condená-las ao esquecimento e deixar todos exaustos, sem grandes resultados concretos. Os acasos que antecederam ACASÜ serviram para amadurecer a ideia e ensinar que certas coisas precisam de tempo antes de chegarem ao mundo. É como um bom vinho: só atinge seu sabor pleno depois de passar por um processo de cura. Nesse sentido, o acaso se torna um guardião do projeto, da mesma forma que em Epitáfio, dos Titãs, na qual fica claro que é preciso existir acaso para que exista vida.

No universo dos vídeos de skate, geralmente há dois caminhos: o da substância, que trabalha conceitos, e o do “trick trick”, que aposta apenas nas manobras como conteúdo. Nem precisamos dizer de qual lado estamos, certo? Afinal, vídeos baseados apenas em manobras já nascem com prazo de validade curto. Você até pode se lembrar de alguns, mas são tão efêmeros que o único comentário possível gira em torno das manobras. E o skate é muito mais que isso. ACASÜ prova que a cultura dos vídeos de skate no Brasil continua mais viva do que nunca.

Em ACASÜ, a família Internüs reúne skatistas de diferentes regiões, personalidades e estilos. Para compreender essa atmosfera, conversamos com João Vitor Galvão (Gal), skatista e comunicador da Internüs, e com Enrico Napoli, editor, skatista, videomaker e empresário do coletivo. Eles falaram sobre o novo vídeo, suas intenções, o cenário atual do skate brasileiro, o equilíbrio entre marca e crew, profissionalismo e diversão, e muito mais.

Leia a entrevista completa para descobrir por que o Gal não queria que sua linha que começa com crooket fosse usada.

Kickflip, Gal. Foto por Matheus Pereira

Brenndel Ferreira: Salve, rapaziada! Vamos lá: o lema da Internüs “Do nosso interior para o interior de vocês” sugere que vocês estão entregando algo pessoal, mais sentimental, e até mesmo regional, de Porto Feliz/SP. Explica pra nós, o que é a Internüs?

Enrico Napoli: Esse bordão é justamente pela ambiguidade do nome. A palavra Internus, na etimologia, é a origem da palavra “interior”. Do latim: “voltado para o interior”, “de dentro”. E daí vem essa ambiguidade do localismo: a gente ser do interior mesmo, com orgulho, fazendo as coisas do nosso jeito; e essa parte do interior também remete à individualidade de cada um. É um conceito muito presente no skate enquanto arte — a individualidade, a interpretação própria de cada pessoa. Daí tem o nosso pronome “collective”, que é a definição do skate pra nós: individualidade coletiva. Por mais que cada um tenha seu jeito, sua personalidade, sua identidade, sua interpretação, todo mundo está ali construindo no mesmo ambiente, na mesma comunidade, e querendo chegar no mesmo lugar. 

Brenndel Ferreira: E, por falar sobre o coletivo… Vocês são uma crew, um coletivo, mas também são uma marca comercial. Como vocês equilibram a Internüs marca e a Internüs crew?

Enrico Napoli: Foi um processo muito natural. No começo, era literalmente uma crew mesmo. Uma crew de amigos aqui da minha cidade, Porto Feliz. Todos ainda fazem parte do coletivo: alguns presentes até hoje, outros nos bastidores, apoiando, saca? A gente era uma união de oito amigos, rachamos uma handcam e começamos a fazer o primeiro vídeo. O nome Internüs era pra ser só desse primeiro vídeo, mas eu comecei a brisar no conceito, em todas essas ideias, e falei com eles: “Putz, mano, vamos usar isso como o nome da nossa crew mesmo, e não só do vídeo”. Tanto que o nosso primeiro vídeo tem outro nome, nada a ver com Internüs, chamado Gênese, que marca a criação do coletivo. Esse vídeo foi o ponto de partida de tudo. Por termos esse ponto de partida, esse carinho, esse apreço, saber o valor de fazer um vídeo de skate enquanto crew, foi muito difícil separar uma coisa da outra. Até quando começamos a dar passos como marca, os problemas que tínhamos enquanto crew ainda eram os mesmos. O objetivo de se tornar uma marca era justamente sustentar as atividades da crew no audiovisual, tá ligado? Seguimos nessa luta até hoje. Se fosse algo forçado, tipo: “a gente era uma crew, agora vamos virar uma marca, temos que fazer outra coisa”, não teria o mesmo apreço que tem hoje. É um processo de evolução, e eu ainda me vejo nele. Vejo a Internüs dentro desse processo, de crew e marca. E a gente tá caminhando pra terminar esse processo, porque o sonho é virar a marca e sustentar de verdade o que acreditamos e em quem acreditamos. E isso não é só um sonho meu. Tem o Bom também, que faz parte da formação original da Internüs. Ele e eu pegamos pra fazer esse corre de tentar engrenar a marca pra abastecer a crew. Ele tá nos bastidores, não é de botar a cara, mas trabalhamos juntos nisso. Hoje em dia, tem também o Gal, que tá ajudando a gente a trabalhar enquanto marca.

João Galvão: A partir dessa pretensão do Enrico e do Bom, de dar um passo maior, começa a ideia da formação do time. Um time que dimensiona a Internüs enquanto marca. Porque a crew é super necessária. O Enrico, por exemplo, além de ser nosso videomaker, é skatista da marca, assim como o Nato. A ideia é conservar essa essência. O Ruan, que já vem mais presente nesse vídeo, é de Porto Feliz. Então, tem essa ideia de manter a base, com certeza, mas também de chamar uma galera que consiga dimensionar a Internüs enquanto marca.

Ivan Lopes: Essa relação de equilíbrio que vocês têm, entre crew e marca, transparece bem nos vídeos. Transmite a imagem de uma família mesmo para quem assiste, mesmo tendo skatistas de vários lugares. Como acontece essa conexão? Tipo, o Gal vem de Juiz de Fora, vocês são do interior de São Paulo…

Enrico Napoli: É até emocionante falar sobre isso. Nas conversas entre o Bom e eu, chegamos à conclusão de que precisávamos de skatistas que representassem essa essência, essa nossa identidade. Por isso falei que não foi forçado, essa galera meio que foi escolhida a dedo, por critérios que, hoje em dia, talvez não sejam os critérios usados pra construir uma marca. Não estou falando do talento de cada um, mas hoje, o primeiro fator que muita gente olha pra construir uma marca são os números no Instagram. 

O primeiro skatista de fora que a gente chamou pra Internüs, que a gente acolheu e que quis fazer parte, foi o Bebel. Ele é do RJ, tralhinha, skatista nato, vagabundo, fantasma. Quem conhece o Bebel vê o que ele faz; quem tem uma boa pesquisa de skate percebe o que ele pensa em fazer, onde ele faz. É indescritível a variedade do que ele pode fazer e pensar. E daí foi uma das paradas que falamos: “caralho, mano, skate é isso mesmo!”. Tipo, geral pensando em manobras, tentando se encaixar em alguma coisa e esse cara não tá querendo se encaixar em lugar nenhum, não! Ele só quer andar de skate mesmo. Então, esse foi um dos pontos que nos aproximou do Bebel. Mas isso aconteceu depois de já termos nos conhecido, tido uma vivência juntos. Porque ninguém entra na Internüs sem a gente se conhecer antes. Precisamos conhecer pelo menos um pouco da pessoa.

Também tem o Leleta, de Ourinhos, interior de São Paulo. Conheci ele quando estávamos jogados em São Paulo. Ele sempre foi muito educado, bem pessoa do interior mesmo, sabe? Educadinho, simpático. Só que daí você olha ele andar de skate e o cara é agressivo, super clássico. Aí, tipo, salvamos ele, demos teto por uns dias, e com isso fomos criando amizade e convivência. O Leleta tinha alguns apoios nessa época, mas machucou o pé feio. Não chegou a romper o ligamento, de fato, mas quase. Ele ficou vários meses sem colocar o pé no chão. Foi levado pra casa na cadeira do hospital, levado de cadeira de rodas até o busão de volta pra Ourinhos. Lá, ficou de molho um tempo e, por causa disso, perdeu todos os apoios. Ficou ao relento. Quando ele voltou a andar, ligou pra nós e disse: “Porra, mano, fiquei aí e vi que vocês estão construindo um bagulho, e é isso que eu quero também! Será que dá pra gente fazer um negócio?” Daí nós dissemos: “Cê é doido, Leleta, cola pra São Paulo, pai!”.

Depois veio a Zee. São Paulo é palco pra essas coisas, porque todo mundo, querendo ou não, acaba parando aqui. E a gente, que é de fora, meio que naturalmente simpatiza com quem também tá vindo de fora, entende um pouco das dores e tal. A Zee nasceu no Brasil, mas cresceu nos Estados Unidos. Ela não aguentava mais ficar lá e voltou pro Brasil, dizendo: “Do Brasil não saio mais!”. A gente conheceu ela nessas vivências, fizemos várias sessões e vimos que ela é muito alto-astral, e a nossa banca é assim também. Além disso, a identidade única dela no skate, meio “doidinho”, tá ligado? Isso é muito a nossa vibe! Vários do nosso coletivo têm esse skate “doidinho”. Convidamos ela pra Internüs; ela ficou felizona e aceitou.

E, por último, a compor o time veio o Gal. Eu lembro que o nome dele já surgia nas nossas ideias há um tempo, só que era um assunto sensível pra nós. Porque o Gal é assim: “Ele é bocudo!”, ele fala mesmo. Sabíamos que, com ele, precisávamos estar com tudo certinho, não dava pra dar milho. Eu já tinha conhecido ele em São Paulo, junto com o Nem. Eu morei com o Nem uns dois ou três anos, e ele e o Gal se conhecem desde criança. Fomos apresentados por essa pessoa em comum, muito querida, e já era! Lembro que tínhamos a necessidade, pensando enquanto marca, de comunicação. Porque nem eu nem o Bom somos desbloqueados nessas coisas de comunicar. Sempre fizemos as coisas pra nós e por nós, e tava tudo bem. E eu sempre via isso no Gal: o cara é um comunicador. E não à toa que hoje ele trabalha com a gente nesse sentido. Em relação ao skate, sempre foi indiscutível. Eu já conhecia o skate dele, característico, bem da localidade dele mesmo. Então me corrija se eu estiver errado, Gal, mas os picos da sua cidade moldaram seu skate, certo?

João Galvão: Claro! Com certeza.

Enrico Napoli: Isso é muito coisa de interior: você vai se moldar a partir do que vê na rua. Sempre teve algo além do quesito manobra. E com todas as pessoas a gente teve pelo menos duas ou três vivências antes de chegar nesse assunto. Sempre pensamos bastante até chegar a esse ponto da conversa. Então, todas são pessoas que querem o mesmo que a gente, e vamos buscar juntos. Acho que por isso passa essa sensação que você comentou da boa convivência; de alegria nos vídeos, essa sensação de conjunto, de coletivo. Porque o bagulho é real mesmo. Transparece isso porque é isso mesmo: todo mundo ali tem muito carinho uns pelos outros. Agimos como uma família, e sabemos que precisa ter trabalho pra essa família continuar andando. E problemas de família todo mundo tem. Implicância aqui, um negocinho ali, mas, graças a Deus, todo mundo está sempre aberto a resolver na conversa. Aqui é assim: a gente sempre se escuta. Nunca aconteceu de alguém falar: “Vou ter que sair da Internüs”. Brigas e pequenas coisinhas acontecem, mas são irrelevantes. É isso, nós lidamos bem. É uma família mesmo.

João Galvão: Eu me senti pertencido à Internüs. Hoje, o meu irmão é o Leleta. Se vocês andarem de skate com ele, vão ficar chocados. Eu até me emociono, sério mesmo. Esses caras são vagabundos, mas são meus irmãos. Pra mim, é como fazer parte de uma família.

Enrico Napoli: Acaba sendo um lugar de rede de apoio. Pensa: cada cabeça é um mundo, e cada mundo está distante do seu lugar de origem, buscando um sonho, um objetivo, uma meta. A realidade não é lúdica assim. Então, nós também servimos como essa rede de apoio. Se alguém estiver passando por uma dificuldade, vamos estar ali pra acolher, pra conversar. O que estiver ao nosso alcance, vamos estar ali pra dar atenção. Essa é a parada!

Backside Boardslide, Gabriel Leandro. Foto por Leonardo Duarte

Ivan Lopes: Essa união transparece bem nos vídeos. O que você falou também, de não escolher os skatistas pelas manobras, olhando de fora, dá pra ver que cada um se complementa. São skatistas diferentes: o Bebel é um skate mais criativo, mais técnico; tem uma visão diferente. Isso aí, no final, vira um bagulho muito foda. Um vai sempre complementar o outro.

Enrico Napoli: É isso. A intenção era essa mesmo, ir complementando os pontos fortes de cada um. Pra gente somar um super time.

Ivan Lopes: E falando do vídeo ACASÜ, que é uma homenagem a Eron Fernandez, queria entender como ela influenciou esse projeto e que vocês falassem um pouco sobre a frase que vocês deixaram lá também: “Obrigado, tia, por acreditar e sonhar com a gente”.

Enrico Napoli: A tia Eron era mãe do nosso amigo e irmão Bruno Roque, que faz parte do coletivo e mora com a gente. Sempre ativo nas atividades, nos corres que a gente precisa, braço direito nosso. E, por um maldito acaso da vida — uma situação difícil até de explicar — a mãe dele veio a falecer durante o processo de gravação do vídeo. Porra! Foi uma parada que abalou todo mundo. A gente sempre fala que trata todo mundo como família, né? E a dor, nesse caso, não é diferente. Foram vários dias de agonia e tristeza. No meio disso tudo, encontramos uma forma de homenagear, simbolicamente, ela. Porque a Eron era uma pessoa maravilhosa. E mãe de skatista! Sempre acolhia a gente. Ia ao mercado e falava: “almoço e janta pros meus meninos”, tá ligado? “Eles vão andar de skate e precisam estar alimentados.” Essas coisas que vêm de pessoas que você pensa: “porra, tia, você nem precisava se preocupar desse jeito com a gente”… mas ela fazia questão. Dizia: “vocês vão fazer seus vídeos, têm que estar de barriga cheia”, ou “come aí e vai filmar seus vídeos”. Ela deixava o caminho arrumado. Coisinhas simples, mas que faziam a gente se sentir super apoiado. Às vezes era missão difícil, a gente sem dinheiro… mas quando chegava na casa do Bruno, ela fazia questão de deixar o clima o mais leve possível. Ligava de vídeo pro filho e dizia: “olha, tô vendo um vídeo de vocês”, até cantava as músicas dos vídeos, tá ligado? Não entendia de manobra, não sabia que o Gal descia ladeira, não sabia dessas coisas técnicas, mas fazia questão de compartilhar do bagulho. Então, esse vídeo também foi um jeito que encontramos de jogar essa energia de amor e acolhimento pra cima de uma situação tão pesada. Foi uma forma de amenizar a dor. Ela fez parte disso, e muito. Não foram poucas as vezes que a gente colou na casa dela e foi recebido desse jeito. Era sempre, era constante. Um salve a todas as mães de skatistas que compreendem e apoiam os nossos sonhos.

João Galvão: Mano, esse vídeo é uma homenagem simbólica ao que a tia Eron representava pra nós. Um sentimento que faz parte da nossa rede de apoio também: acreditar. Pequenas coisas mesmo, como curtir uma postagem, compartilhar, sei lá… compradores, skateshops, vocês, que super acreditam. Quando eu cheguei e fui dar um papo com vocês, é do fundo do coração. Porque vocês, pra mim, sabem respeitar o que a gente é. Quando vão falar com a gente, vão falar com respeito. Do mesmo jeito que a gente fala com vocês. Todos que acreditam. Nesse e nos próximos vídeos. E tudo isso é o que a Eron, que é homenageada nesse vídeo, carregava.

Ivan Lopes: Um salve às mães de skatistas! Vocês mencionaram que se depararam com o vídeo praticamente pronto na timeline. Como isso aconteceu? Vinte minutos de imagem! Só bomba!

Enrico Napoli: A gente lançou o full video Santa Diversão em dezembro do ano passado. Só que o projeto já tinha sido encerrado em setembro, se não me engano. Desde então, não entrou mais nada nesse vídeo, tá ligado? Mas, de setembro a dezembro, continuamos filmando e lotando o HD de imagens. Depois que terminamos o projeto Santa Diversão, eu estava mexendo no PC e, só por curiosidade, comecei a jogar o que a gente tinha de imagem na timeline. E era bastante coisa. Ainda não estava pronto, mas continuamos filmando depois disso. Só que, ao fazer isso, percebemos que faltava pouco para terminar. Então corremos atrás do que restava. A última sessão foi em Santos, no Guarujá, em março. Depois que tínhamos tudo, era só finalizar. Mas aí começaram os acasos.

João Galvão: E aí vieram esses inúmeros acasos que adiaram o lançamento do vídeo. Por exemplo: o Nato se machucou. Ele é um super skatista nosso que acabou não conseguindo ter imagem nesse vídeo. O Nem é outro caso. Eu queria muito que ele tivesse mais imagens, mas acabou precisando viajar, ficou atolado de trabalho… Enfim, é difícil ter acesso ao Nem. É difícil ter acesso a super skatistas, né? E o Nem é um super skatista. Inúmeros acasos que também fizeram o bagulho não ser, mas que deu certo. No tempo certo a gente lançou, independente das dificuldades. 

Enrico Napoli: O Nato machucou o pé e, por isso, não conseguiu ter mais imagens, já que ficou um tempo sem andar. Para piorar, meu PC quebrou com o vídeo dentro. Eu tinha salvo um arquivo, mas era só 75%; os outros 25% estavam dentro da Adobe. Foi um desespero, uma agonia, uma dinheirada… Mas, depois de alguns meses, conseguimos recuperar. Estávamos com o vídeo de novo em outro PC, na mesma Adobe, tudo igual, não mudou nada. No começo do ano também recebi uma notícia aqui em casa: minha avó e minha mãe estavam com problemas de saúde. Precisei me ausentar de São Paulo e, neste ano, praticamente estou morando em Porto Feliz para dar apoio, cuidados e tudo mais. Esse também foi um dos motivos de eu não ter conseguido trombar o NemdaBel para filmar antes de ele se jogar pra Europa. O último acaso foi o acontecimento da tia Eron. Então, foram vários acasos, dos menores aos maiores.

Brenndel Ferreira: Qual é a participação dos skatistas na construção do vídeo? Eles também opinam na escolha da trilha ou sobre quais imagens entram ou não? Pergunto porque parece que o editor não levou muito a sério o pedido do João Galvão para remover a linha que começa com crooket (rs). E que bom que não!

Enrico Napoli: Eu que faço os vídeos da Internüs. E, por exemplo, uma das paradas que eu boto em primeiro lugar é que a trilha da parte tem que fazer sentido pro protagonista. Como eu sei que é um assunto muito sensível, considero de verdade um trabalho sério produzir uma videopart, tá ligado? Não é só pegar e falar: “pô, mano, não vou ouvir tua opinião, deixa comigo”. Isso seria uma posição de diretor cabreiro. Eu gosto de mostrar, de construir junto por conta disso. Gosto de ver a pessoa assistindo e falando: “putz, gostei dessa parte”, “caralho, mano, o bagulho combinou comigo”. Só que também não posso ignorar o conceito, a identidade da marca, da crew. Então eu busco sempre um equilíbrio. Já rolou de alguém falar: “mano, coloca essa música”. Eu coloco, a gente encaixa, e se eu não gostar, nós vamos procurar outra. Mas é isso: os dois têm que gostar. Eu não me sinto à vontade de mexer nas imagens dos outros a ponto de fazer uma parada que depois o cara olhe e pense: “nossa, mano, olha o que ele fez com as minhas imagens”. O que eu quero é que olhem pro projeto e pensem: “fiz desse jeito aí e gosto até hoje, independente se eu tô lá ainda ou não”. Essa é a fita. A gente sabe o valor de todo o esforço, de todo o trabalho. É um valor sentimental absurdo. Só o skatista e o videomaker sabem o que significa estar ali filmando, tentando a trick. E acho que, até por eu também ser skatista, estar filmando e tentando render, isso faz com que eu não deixe essas coisas de lado.

João Galvão: A imagem que eu pedi pra tirar não era pra usar! Eu briso nessas paradas, saca? Pesquiso linhas de skate e fico reparando em coisas que, às vezes, outras pessoas nem notam. Mas ali é nítido: começar com crooked já tá errado. Era outra manobra, era pra ser overcrooked de back, nada a ver com crooked. E vocês viram o flip depois? Sem condições! Aquilo lá não era pra usar. Mas, no fim, foi muito bom ele ter colocado porque o Enrico quis mostrar quem eu sou. E eu sou isso mesmo. Tem também uma outra imagem lá, de um nollie de front e um fake heel. Eu tava brisando no jeito que minha mão ficava, todo desengonçado. Falei várias vezes com ele: “mano, fecha essa porra desse nollie de front na minha perna!”. Mas o Enrico não filma os bagulhos fechados. O estilo dele é filmar em plano aberto. Ele me pedia pra ficar tranquilo, e eu ali: “porra, que merda, que merda, tá ruim”. Aí o Enrico soltou: “mano, não vou filmar sua mão, vou filmar sua perna”. Voltei o bagulho e ele filmou em plano aberto. Só mexeu com a minha cabeça (risos).

Enrico Napoli: Esse é um ponto da hora, até falei com o Gal sobre isso. Ele é o cara que mais dá trabalho na hora de construir o vídeo. Mas é no sentido de: “vamos trabalhar”, “quero fazer o bagulho, mano, só que eu tenho minhas brisas, minha imaginação também, e quero que fique perto do que eu tô pensando”. E aí a gente constrói junto pra chegar perto da expectativa e, até então, tem dado certo.

João Galvão: Que bom que eu recebo essa autonomia. Por isso me sinto pertencente a esse lugar. Eu sinto que tenho a liberdade de trazer minha ideia junto com a da Internüs, e isso, naturalmente, coincide. Ainda mais agora que tô trabalhando em outras frentes, não só como skatista. Hoje tenho mais autonomia pra contribuir em toda a criação da Internüs, e isso me deixa muito feliz. 

Enrico Napoli: Nós tratamos tudo o que remete a essa parte de trabalho com muito compromisso. 

Heelflip, Gal. Foto por Martin Justo

Brenndel Ferreira: Por falar em compromisso, tenho uma pergunta sobre isso. Por mais que o projeto “ACASÜ” tenha um apelo à diversão, não dá para negar que a produção carrega um olhar profissional, digno de quem leva muito a sério o que faz. Até onde vai o “por pura diversão” e onde começa o “profissionalismo”?

João Galvão: Na minha perspectiva de skatista, o que eu tento sempre é ser profissional. Porque esse é o meu desafio. Ser skatista por amor eu já sou naturalmente; isso sempre vai transparecer em tudo que eu faço. Eu sou muito mais por amor do que por profissionalismo. Mas o profissional é o que eu busco ser em qualquer frente da Internüs que você imaginar. Nós nos mudamos para um lugar onde pudéssemos acolher melhor o time, onde temos um escritório. Isso é trabalhar pra eles, sempre pensando: “mano, a gente precisa chegar num lugar que é difícil de chegar, mas que a gente acredita”. Por isso, temos que ser profissionais em todas as áreas em que a gente for atuar. Consolidar um trabalho é muito difícil, mas vamos conseguir. Nosso trampo sempre remete a essa parada lúdica, de parecer só diversão. Mas isso é porque, naturalmente, somos assim. 

Enrico Napoli: Eu achei da hora essa pergunta porque, sem querer, ela é o conceito do último vídeo que lançamos: Santa Diversão. É justamente essa ideia de que, pra todo mundo aqui, o primeiro contato com o skate foi uma brincadeira. Ninguém pisou no skate na primeira vez querendo chegar em algum lugar; só queríamos que ele nos levasse até a próxima esquina. Todo mundo começou assim. Por isso transparece isso no vídeo. Porque é isso mesmo! Nós nos divertimos de verdade e não temos culpa. Queremos trabalhar com o que amamos, com o que nos diverte. A ideia do Santa Diversão é passar pelos níveis de consciência. Começa sendo uma brincadeira, você vai se aprofundando, pesquisando, se aventurando, se dispondo a aprender a cair. Depois, não é mais só uma brincadeira; você já quer aprender de verdade. Vai pegando um negócio aqui, outro ali, e percebe: “caralho, consigo as coisas assim, mano”. E, como somos nós que fazemos tudo que é nosso, temos que ser profissionais. Chega uma hora que, pra alcançar o que nós queremos, é preciso profissionalismo. Se não formos profissionais, vai ser só manobras soltas. Se não lidar com isso com compromisso, conhecimento e estratégia, agimos sem pensar. Essa parada que o Gal falou do QG é uma ideia que tivemos desde o começo: “caralho, um dia a meta vai ser ter o nosso próprio QG aqui em Sampa, pra abrigar os skatistas, ser o escritório”. Conseguimos realizar isso este ano. É simples, mas é o nosso lugar pra exercitar esse profissionalismo que buscamos. Seguimos trabalhando e nos divertindo. Pode parecer só diversão, mas é muito mais trabalho do que diversão. A parte do trabalho, só quem tá aqui consegue entender.

Ivan Lopes: É muito foda ver que o vídeo conta com participações de skatistas ligados a outras marcas como o Vinícius Costa, por exemplo. Isso não é comum em produções de marcas, já que geralmente só aparece quem é patrocinado. Já aconteceu de algum skatista pedir para não usar sua imagem por questões desse relacionamento com outras marcas?

Enrico Napoli: É difícil de acontecer porque, por exemplo, a gente coloca no vídeo os amigos próximos, a galera do próprio coletivo, ou um super amigo de alguém que tem uma parte. Não tem ninguém ali sem querer, saca? O Vini, por exemplo, eu conheci aqui, no interior de SP, quando ele se jogou e ficou morando aqui uma cota, desde uns 15 anos. Conheci ele pequenininho. O corre dele era ir pros campeonatos e depois se jogar pra Sampa. A gente se trombou de novo em Sampa, apresentou o nosso QG pra ele, e ele ficou: “que naipe, mano”, chegou a comprar umas bermas nossas. Ajudou, fortaleceu a gente. As vezes que a gente sai pra filmar, os caras mesmo dão a ideia: “pô, vou dar uma aí pra você pôr no vídeo”. Não temos a intenção de tipo: “vou usar a manobra do Vini porque ele tá estourado”. Longe disso. É mais porque somos amigos, estamos na sessão juntos, e ele rendeu uma.

Ivan Lopes: Ultrapassa o relacionamento entre skatistas e marcas, né? 

João Galvão: Todas essas pessoas que estão no vídeo são nossos amigos. Além dos negócios, muitos deles precisam passar pelo nosso QG, às vezes até pra prestar serviço pras outras marcas. Não olhamos esses skatistas como rivais; vemos nossos amigos. Queremos ver eles se desenvolvendo como skatistas. É como se fosse uma contribuição pra cultura. Independentemente do mercado, saca? Acreditamos no skate. E eu vejo que a Internüs funciona como um respiro no meio desse mercado colapsado, com seus valores invertidos. A Internüs é uma plataforma de apoio pros nossos skatistas e pra nossa família. Uma plataforma de desenvolvimento. Não estamos falando mercadologicamente; queremos nos unir com as marcas do Brasil. Queremos que o skate do Brasil tenha mais valor interno, mais orgulho. O orgulho de uma marca brasileira! Esses são nossos valores. E quando um skatista pede: “Pô, quero filmar uma nova com você, pra sair no vídeo da Internüs”, eu tenho certeza que ele é grato. Tipo: “Mano, eu tô colaborando pro sonho de quem acredita no skate.”

Enrico Napoli: Quantos amigos de diferentes marcas nos dão um salve: “Mano, vou ter um corre e preciso filmar, tem como ficar aí no QG da Internüs?”. É isso: queremos ver tua parte, queremos ver tua bomba feita, vambora! Esse papel aí, nós fazemos. Isso acontece. E, como o Gal falou, não é esperando nada em troca. É porque a gente quer ver o projeto dos amigos concluído, realizado.

João Galvão: Algumas dessas coisas também são pra cutucar um pouco o mercado. É como se nós fôssemos crianças dentro dele, mas tivéssemos um conhecimento maior do que os “adultos” que estão há mó tempão nesse meio. Que porra é essa?

Interior da Internüs

Brenndel Ferreira: Pra finalizar: “Quanta inocência, achar que a produtividade fosse ser o motivo que carregaria o sentido desse nome”. Entendemos que vocês não querem deixar a pressão pela produtividade definir essa obra. Mas, com o skate cada vez mais mercantilizado, essa pressão por produzir só aumenta e isso acaba afetando os vídeos. Como vocês enxergam o impacto que isso pode ter nos vídeos de skate?

Enrico Napoli: Essa reflexão é brava. O primeiro motivo do nome “ACASÜ” foi porque achamos que, por acaso, depois de pouco tempo, tínhamos lançado outro vídeo. Tipo: uau! Estávamos lançando vários vídeos. E começamos a pensar sobre isso. O PC quebrou antes de finalizar, e aí compreendemos: “Ah! Tá, entendi. Então não é por isso que vai se chamar ACASÜ, é por causa de outras coisas”. Isso foi se formando ao longo desses meses, até a gente ter essa sanidade, esse tempo pra finalizar e discutir sobre lançamento: onde, quando, como. Porque, se fosse só pra lançar mais um vídeo rápido, seria só mais um. Tem várias pessoas lançando vídeo todo dia, toda semana. A gente seria só mais um a lançar, tá ligado? Mas a causa, no final das contas, era muito maior. Então, eu acho que vale mais amadurecer a ideia do que achar que está se destacando só por conta da produtividade. Não é da nossa essência o excesso de produtividade. Falando aqui do interior de SP, de como comecei, dos acessos que tivemos e das informações que chegavam… sempre tivemos que pensar muito pra fazer as coisas. Não foi dessa vez que fizemos algo sem pensar.

Brenndel Ferreira: Não é a quantidade, né? É a substância.

Enrico Napoli: Sim. Que porra de significado é esse de produzir, produzir, produzir? O que eu quero? Um prêmio por isso? Um troféu? É muito superficial pra tudo isso que lutamos e construímos, com tanta pesquisa e sentimento envolvido, tá ligado? Só pra dizer: “Porque nós rende muito, toma aí”? Não, mano! Tem que fazer sentido. Eu gosto que as coisas façam sentido. Acho que, por exemplo, tem que fazer sentido pra nós, enquanto Internüs, e só depois a gente mostra, pra que também faça sentido pras outras pessoas, pra nossa comunidade, pra quem tá assistindo. Porque, se eu, que tô fazendo o vídeo, achar superficial, o que eu espero que as outras pessoas achem? Então, estamos longe de querer ficar nessa superfície. Não adianta tentar se igualar, querer produzir muito como se fosse uma produtora braba, cheia de recursos.

João Galvão: Me lembro muito de quando saíam os novos vídeos, sei lá, TransWorld, Digital… Nessa época, saiu o Mindfield. Eu reunia vários dos meus amigos mais íntimos pra irem na minha casa fazer a nossa própria première. A gente ficava junto, na comunhão, vendo a parada. Era o motivo pra gente se reunir, saca? É engraçado, porque esse sentimento meio que ficou fixado em mim. Se internalizou ao ponto de me comprometer de verdade com isso. Falei: “Mano, eu tenho que contribuir com o que eu posso”. E, sei lá, ninguém fica vendo um vídeo de 20 minutos no Instagram. Muito menos junto, tá ligado? Então, independentemente da dificuldade que seja produzir um vídeo de skate, a Internüs se propõe a preservar essa cultura: da comunhão, desse sentimento fraterno de produzir um vídeo, um filme, pra que a gente possa reunir as pessoas e ver a parada em comunhão. Como se todos ali fossem meus melhores amigos de 15 anos atrás. Estar numa première lotada de gente, apagar a luz e ver as manobras… é um sentimento nostálgico, como se eu estivesse assistindo ao vídeo com meus amigos há 15 anos, quando vimos o Mindfield. Só que agora sou eu que tô ali, dando a minha contribuição para a cultura.

Enrico Napoli: É fazer a manutenção! Um dos objetivos é esse: preservar e fazer a manutenção da cultura onde pudermos. 

3 respostas a “ACASÜ: a simbiose de acasos da Internüs”

  1. Avatar de Ávelyn Rocha

    Caramba, muito bom!!!!

  2. Avatar de Alessandra Moreau

    Parabéns pela matéria! A essência da Internüs está em cada palavra que li.

  3. […] imprevistos o levasse a reformular completamente o projeto inicial? Foi assim que Acasu nasceu – história que contamos aqui. A Internus surgiu como uma crew e, com o tempo, se expandiu para uma marca de skate que vem […]

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