Mesmo que seja difícil imaginar uma cena local de skate sem uma pista, todos os holofotes voltados para o carrinho, somados à lógica do capitalismo sempre pronta para explorar novas oportunidades, ainda não foram suficientes para que um skatepark seja tratado como uma quadra de futebol – e, como tal, esteja espalhado em abundância por todos os cantos do planeta.

Ainda assim, o skate, como estilo de vida, mostra uma impressionante capacidade de se reinventar e existir mesmo nos cenários menos convidativos. É isso que torna o skate tão mágico. Em San Fernando, na VI Região do Chile, nenhum desses obstáculos foi suficiente para que a cena local abandonasse o carrinho. Pelo contrário: Nicolás Abarca, juntamente com a Gypsy, reuniu os percalços que surgiram no caminho e construiu algo relevante, uma iniciativa capaz de superar a brevidade do tempo e se mostrar maior que o descaso governamental.

Obertura é o nome dessa obra do audiovisual chileno, agora eternizada como um marco para a cena de San Fernando. A região não conta com uma pista de skate nem com uma skate shop, mas agora possui um full video produzido pelos skatistas locais, um feito que mostra a força surpreendente dessa cultura. Curiosos para entender melhor como funciona a cena de nossos vizinhos hermanos, fomos até eles – virtualmente – para trocar essa ideia.

Para isso, contamos com a ajuda do brasileiro João Cordeiro, que vive por lá e colaborou tanto na realização da entrevista quanto em sua tradução. Somos imensamente gratos por essa parceria. Se você também ficou curioso para saber mais, acompanhe abaixo como foi essa conversa.

Salve! Antes de falarmos especificamente sobre o vídeo Obertura, conte-nos como é a cena do skate em San Fernando. Sabemos que a cidade não tem skatepark. Como vocês se organizam para se reunir, ocupar os espaços urbanos e manter o skate vivo na região?

Nicolás Abarca: Bom, antes de tudo estou muito agradecido por nos considerarem nesta entrevista. A cena do skate local em geral sempre foi e continua sendo pequena. Faz mais de 20 anos que surgiu o movimento para que as autoridades providenciassem de uma vez por todas o tão desejado skatepark, que até hoje está em dúvida. Urbanamente, a cidade está perdida no tempo, com pouquíssimos spots de rua, tendo que viajar a outros lugares da região para filmar e poder andar. Quando comecei a andar há 20 anos, a gente andava na praça local, em um lugar chamado gobernación, que tinha um piso bom e umas escadas que usávamos para deslizar, era um material tipo mármore que corria bastante bem. Também juntamos dinheiro entre todos para a construção de módulos: tínhamos caixotes, corrimãos e rampas. Às vezes, tomávamos a rua quando havia algum evento musical, montando um circuito com todos os obstáculos. Atualmente, os meninos andam em um ginásio coberto onde também montam seus módulos. É algo temporário, só alguns dias por semana, nos outros dias andam em praças e spots na rua.

Outra questão importante tem a ver com os equipamentos. Existe alguma skate shop em San Fernando? Se sim, ela apoia os skaters locais? De que forma esse apoio se manifesta? Caso não exista, como vocês fazem para conseguir peças e equipamentos? Quais são os principais desafios nesse processo?

Se bem me lembro, duas skate shops locais já se estabeleceram, mas não sobreviveram no tempo. Pelo próprio fato de não ter um skatepark e pelo baixo número de skatistas na área, não é rentável. O restante são lojas online do Instagram onde se podem encontrar certos produtos. Eu mesmo impulsionei uma com a ideia de sustentar a cena e para que os meninos pudessem ter os produtos mais à mão e reduzir os custos de envio desde Santiago.

Entrando no vídeo, qual é a ideia por trás de Obertura? Você pode nos explicar o conceito do projeto e o motivo da escolha do nome?

Em geral, me fascina a música, tenho uma coleção de vinis, e daí vem o conceito. É algo mais teatral. Diretamente numa ópera, o nome faz alusão à introdução ou primeira parte. Pensando em uma peça musical e levando isso ao audiovisual, seria como o começo, deixando as portas abertas para uma segunda parte.

Produzir um vídeo de skate (especialmente com partes individuais) exige planejamento, tempo e dedicação. Mesmo diante das dificuldades, entregaram um trabalho consistente, com diversidade de estilos e um bom aproveitamento da arquitetura da cidade. O que motivou a equipe a tirar esse projeto do papel e realizar o Obertura?

Bom, pessoalmente tive algumas lesões que me deixaram fora do skate da forma que eu gostaria de praticá-lo. Com o tempo, as dores são mais fortes e as recuperações mais lentas. Assim nasce a ideia de comprar a câmera e me manter ligado de alguma forma ao skate. Fiquei em dúvida entre uma VX e uma P2, mas acabei me decidindo pelo HD. Entender como funciona a câmera também requer um tempo de testes. Acrescentar também que me custou muito encontrar o fisheye com o adaptador adequado. No que diz respeito à montagem, tentei organizar o vídeo em partes com uma estrutura de acordo com os diferentes estilos, além de dar a ele uma intro e um encerramento para gerar um fechamento. Também podemos apreciar algumas sessões na cordilheira da nossa região, com dois spots muito interessantes: um full pipe gigante abandonado por uma empresa hidrelétrica e um dique que contém as águas das chuvas no inverno.

O vídeo também funciona como uma espécie de cartão de visita dos spots locais. Na opinião de vocês, qual é a importância de continuar produzendo vídeos (full videos) em uma era dominada por conteúdos curtos nas redes sociais?

Na era da dopamina imediata, o cérebro se acostumou a ver cortes e transições rápidas. Nas redes sociais, podemos ver marretas que perfeitamente poderiam fazer parte de um full video, mas essa ansiedade de publicá-las de forma imediata está retirando valor dos vídeos de longa duração. Sempre que terminávamos alguma sessão, os meninos me pediam os clipes imediatamente (risos)… Acho que alguns não entendiam o conceito de vídeo de longa duração. É só ver a intro do Obertura, onde tudo é lento, muito slow motion, muitas influências de filmers e vídeos antigos, citando ‘Jon Miner’ como um dos meus filmers favoritos em termos de edição e transmissão de emoções em cada plano ou cena. É muito importante manter a essência inicial. Se reunir para compartilhar uma estreia de vídeo, aí está a magia. E claro, o vídeo funciona como um cartaz de spots que até então estavam ocultos ou desconhecidos, para continuar abrindo as portas das sessões de domingo.

A Rataria Skate Media valoriza muito as premieres de vídeos de skate. Achamos muito significativa a premiere do Obertura que organizaram. O que os motivou a realizar um evento para celebrar o lançamento, em vez de simplesmente publicar o vídeo no YouTube?

Como mencionei anteriormente, aí está a magia, após um processo longo de mais de dois anos de filmagens e um extenso trabalho de edição, o que pode ser melhor do que celebrar em uma première onde todos estão felizes e aproveitando um dia cheio de skate? Nesse caso, agradecer a Nicolás Lorca por nos emprestar sua casa, que conta com uma miniramp e um espaço muito acolhedor onde compartilhamos pizzas e cervejas. Por ser uma casa, tivemos que priorizar vagas limitadas, a princípio tínhamos combinado 35 pessoas, mas acho que no final compareceram 50, tendo que deixar muita gente de fora por questões de capacidade.

Em comparação com os campeonatos locais, um vídeo produzido pela própria cena costuma exercer um tipo diferente de influência, mais voltado ao coletivo e ao fortalecimento da comunidade, enquanto as competições tendem a enfatizar o desempenho técnico e os resultados individuais. Como foi a recepção do público ao ver um vídeo feito por skaters da própria região? Vocês notaram que isso impactou ou inspirou mais pessoas a andar de skate pelas ruas?

A recepção do vídeo em geral foi muito positiva. No dia da premiére, vieram de todas as cidades da região, confirmando que os laços coletivos são fortes e são muito mais significativos do que uma competição, onde a amizade prevalece sobre o ego.

Do ponto de vista da produção, qual foi o maior desafio no Obertura?

Acho que a edição. Tive que pedir férias no trabalho para poder me dedicar em tempo integral ao projeto, o qual me tomou aproximadamente um mês e duas semanas, junto com a organização da premiere e outros detalhes.

Algum dos skaters que participou do vídeo vive exclusivamente do skate? Para quem concilia o skate com o trabalho ou os estudos, como fizeram para encontrar tempo para filmar e se dedicar ao projeto?

Não, todos são amadores. Acho que Tomás Benavides teve alguns patrocínios de marcas nacionais, junto com Bruno Zuñiga. A maioria dos skaters, incluindo eu, somos profissionais em termos de formação. Definitivamente, conciliar os horários, o trabalho e a vida adulta são as maiores dificuldades. A maior parte das filmagens foi nos fins de semana, quando tivemos que voltar a alguns spots por não conseguir concluir no mesmo dia. Estamos na região sul do Chile, onde o inverno é muito frio e chuvoso, o que torna mais difícil sair para filmar na rua.

Para finalizar, agradecemos a disponibilidade e parabenizamos a todos pelo fortalecimento da cena local. Se quiserem acrescentar algo que não tenhamos abordado, o espaço é de vocês.

Obrigado a vocês por nos considerarem nesta entrevista, especialmente pelo interesse no nosso trabalho. Agradecemos a boa energia e a vibração. Parabéns pelo trabalho que fazem e por manter o skate vivo de alguma forma. Mencionar João Pedro por fazer a conexão com vocês — estaremos eternamente agradecidos. Um abraço fraterno à distância.

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