Na faixa ‘BH Estado da Mente’, FBC apresenta Belo Horizonte como um lugar que transcende o espaço físico. O título sugere tanto a experiência concreta de viver na cidade quanto uma forma particular de enxergar o mundo, moldada pelas ruas, pelos encontros e pela dinâmica urbana da capital mineira.
Esse conceito ganha uma dimensão visual no curta de mesmo nome, protagonizado por Hugo Blender, que ilustra a relação do sujeito com a cidade, mais especificamente, do skatista com a arquitetura urbana. O estado da mente, nesse contexto, é a maneira como o indivíduo percebe e ressignifica os espaços ao seu redor. A forma como ele cria oportunidades para viver à sua maneira. No filme, Blender encerra com a afirmação que sintetiza sua filosofia de vida: “É isso [skate] que eu preciso para me manter vivo”.
Criado em uma família onde o skate sempre esteve no centro de tudo, Blender não conhece uma vida fora desse universo. Hoje, ele se define como um skatista “low impact”, termo que usa para questionar a ideia de que só é possível construir uma carreira a partir do alto rendimento técnico. Uma visão que valoriza diferentes formas de expressão que vão além da alta performance e reforça o espaço do skate criativo e artístico dentro da cultura.
Intrigados por essa forma de enxergar o skate e a cidade, conversamos com Hugo Blender. Nesta entrevista exclusiva à Rataria Skate Media, ele revisita a infância, o início de sua trajetória na Praça Sete, em Belo Horizonte, e o caminho que o levou da cena local para diversos países do mundo.

Waldir Anthony: Seja bem-vindo Blender, o espaço é nosso mano. Em primeiro lugar, gostaria de saber de você, como foi começar a andar de skate em uma família de skatistas?
Salve! Curto pra caralho o que vocês vêm fazendo. Então, é satisfação total poder somar. Nossa, é muito louco. Acho que, quando fui ficando mais velho, fui tendo mais responsabilidade de adulto. E eu paro pra ver a questão do meu pai, que é o início. Eu penso: “carai, mano, se fosse eu, nunca ia ter criado uma família assim, desse jeito”, tá ligado? É coisa de louco. Até hoje, pelas várias famílias de skate que eu vejo, acho que nunca vi uma igual à minha. Acho que pode ser questão da época. No começo dos anos 2000, pelo Coyote, pelo Bill, pela questão dos eventos que tinham no Brasil antigamente, como era a cena de skate no Brasil também… Acho que era mais forte. Não no caso de ter tantos skatistas igual tem hoje, mas a cena era mais consolidada, sacou? Tinha mais revistas impressas, a gente idolatrava mais o que vinha de fora. Seja de SP ou até mesmo internacionalmente. Então, no começo, acho que eu nunca tive essa perspectiva. Foi sempre uma brincadeira e, por ser o mais novo da família, acho que não foi uma escolha igual foi com meu irmão Bill ou com o Coyote, tá ligado? Porque eles são uma máquina, né? Não teria pessoas melhores pra serem meus irmãos. Aprendi muito com eles, vendo os dois juntos, cada um com sua personalidade. Foi uma parada muito louca porque, desde criança, eu sempre vivi isso. Já tentei muitas vezes sair fora. Nunca consegui, porque é um bagulho que corre no meu sangue. E ver como meu pai criou nossa família em cima do carrinho, passando perrengues, viajando, todo mundo junto, falta de renda, tá ligado? Todas essas paradas. Às vezes, ele pegava a renda inteira do Bill, que, na época, tinha patrocínio, pra viajar a família inteira, seis pessoas. Íamos pra Curitiba, Porto Alegre, Novo Hamburgo… Eu meio que vim dessa época, da Golden Era do skate. Sou de 97, mas me lembro que, em 2002, eu já tava em Novo Hamburgo, onde aconteciam os eventos da Qix. E ter vivido isso, pra mim, foi muito louco. Conheci a galera que eu via nas revistas. Em 2003, nos mudamos pra Curitiba pra tentar esse lado mais skate, porque lá tinha mais eventos e tal. Minha base foi em Curitiba. Foi lá que conheci as pessoas. E foi muito importante, pra mim, estar dentro dessa cultura, principalmente nessa época. Isso fez eu ser quem eu sou, sacou? Ter visto todas as pessoas que hoje são inspirações, tá ligado? Luan de Oliveira, Tiago Lemos, Carlos Iqui, Yuri Facchini, Jp Souza, Guilherme Trakinas, Ortiz… e toda a gang da Tropicalients também… Poder ter feito essas amizades e levado elas pra vida.
Waldir Anthony: Em que momento você percebeu que o skate poderia ser seu passaporte para acessar diferentes cenas e lugares ao redor do mundo?
Mano, é meio complexo pra mim porque, desde sempre, eu me vejo sendo essa pessoa. Até na escola. Venho de escola pública de quebrada… do meu bairro que eu voltei pra BH e cresci que é o Santa Maria, então os moleques querem jogar bola, pixar, fazer outros bagulho, e eu lá, skatista. Não tinha ninguém que andava de skate na escola. Só eu, sacou? Só que, em um ponto da minha vida, também conheci outras coisas, como música, cultura de rua, pixação e grafite. Eu amo pra caralho tudo isso, tá ligado? Mas acho que uma coisa que me colocou na cena do skate foi estar mais em casa. Posso falar, realmente, que o videogame meio que foi um terceiro mundo pra mim. Eu lembro do Tony Hawk’s Underground, que foi quando mudou tudo. A gente criava uma carreira no jogo, o personagem vai pro Tampa, faz tour, vai pro Slam City Jam, que tinha na época. E isso fazia com que as crianças daquela época, igual eu, pensassem: “caralho, tem esse mundo, tem essa cultura, que bagulho louco”. Pra mim, foi muito importante ter o skate na minha vida. Sei lá, meio que cruzei o mundo do skate do game com o da vida normal por causa da minha familia. E meio que fui vivendo isso, teve certos momentos que também você deixa certas coisas de lado pra fazer outras, mas desde de que voltei a andar meio que não parei mais e fiquei vivendo isso desde de 2014 mais ou menos viajando e conhecendo as pessoas sem meus pais e meus irmãos. Não sou muito de falar, mas acho legal ter uma voz ativa das experiências e bagagens que carregamos, né? Tenho 28 anos e, quando alguém me pergunta: “desde quando você entrou no skate?”, eu respondo: “desde que eu nasci”. É engraçado. Mas é meio que isso. Não me vejo fora. É um bagulho muito doido.
Brenndel Ferreira: E falando do presente, como aconteceu seu contato com a Victoria HK? É muito louco pensar que você saiu de BH e, hoje, faz parte de uma grife de Hong Kong.
A história da “Victoria” é muito louca. Aconteceu no pós-Covid, numa época de Instagram e internet em que começamos a brisar mais também no skate, né? De querer saber mais. E nisso veio muita coisa nova, sabe? E, no Brasil, consumimos muita informação americana, sempre vamos brisar mais na América. Só que, por outros lados, por conhecer mais o skate de rua, isso me levou pra Europa. E, vendo outras coisas ali, meio que na época da Polar, Supreme com certos vídeos e galera que eu conhecia foi se mudando pra Barcelona ou Lisboa, fui brisando mais nisso e meio que abrindo minha mente pra caralho. E eu sempre acompanhei o Anthony Claravall também. O Anthony é uma pessoa muito importante na minha vida, me ajudou muito em muitas coisas. E fez essa conexão com a Victoria, lá em Hong Kong. Hoje ela tem 10 anos, não é muito antiga. Só que é feita por skatistas. E é só um mano que cuida da marca, o Artur Leung. Ele faz tudo sozinho; eu fico de cara com isso. Como ele faz essas paradas sozinho? Não sei se dá pra dizer que eles não têm concorrência, porque Hong Kong, apesar de ser um lugar muito pequeno, é muito visado, tá ligado? Muito visado mesmo. Muitas marcas vão pra Ásia… China, Taiwan, Japão… Mas a China é mais fechada. O Sistema do país é diferente, precisa de VPN pra acessar tudo, é outra coisa. Hong Kong é como se fosse uma região de uma cidade tipo, é uma colônia britânica, é bem pequena. E a Victoria faz uma cena muito grande, mano. Então, desde 2023, eu tenho viajado com eles. A gente já foi pra Taiwan, Mainland, que é a China mesmo. E colamos pro Japão junto também. E agora em Julho vamos fazer uma trip pra América e ano que vem também com uma collab com uma marca bem grande na cena do skate e é muito style, velho. Agora estamos consolidando mais a qualidade das roupas, dos vídeos e do time também. Estamos montando um time de skate bem da hora, bem interessante. Uma galera do mundo inteiro, o Jasper Dohrs da Tailandia, Patrick Riberg e o Ruben Soon da Noruega e o Jordan Queijo da Suíça… tem o Mikey Silva também de São Francisco e mais uma galera da Ásia ali… todos com personalidades próprias. É mais uma família mesmo. Na primeira viagem que tive com eles, rolou, sei lá, um bagulho muito louco. No último dia em Taichung, saímos pra beber, pra se conhecer e tals, e ficou todo mundo bebado de Sakê Golden Flakes. Nesse dia saímos pra fazer grafite lá em Taiwan e quase fomos presos, uma câmera do CCTV pegou a gente do pico até no Hotel, nossa sorte que estávamos indo pra Taipei City que é outra cidade e quando nosso guia voltou pra Taichung ele teve que pagar uma multa por isso também, Foi loucura! Mas na outra viagem que fizemos pra Shenzhen eu falei com ele sobre a multa e ele falou que tava tranquilo, Welcome to Taichill! (risos). Eu acho isso muito style da Victoria: a gente tá junto mesmo, como uma família.
Brenndel Ferreira: Da hora. E você fala mandarim ou cantonese?
Não, não falo nada. Eu só entendo duas palavras: haiyaa, sim, haiyaa, tá ligado? que é cantonese, eu acho. Mas geral ali fala inglês. Tem a galera da Asia que não fala inglês, mas às vezes faz o possível. Eu também, quando os caras estão falando mandarim ali, pergunto: “e aí, o que vocês estão falando?”. Só que eu acho que o skate é uma linguagem só. Por isso que conectou a gente. Sei lá, nas primeiras viagens da Victoria eu fui meio quebrado, sem grana. Às vezes ficava meio com vergonha. Geral comprando uma cerveja ou um rango. E eu ficava andando de skate mais mocado, os caras não entendiam muito, porque é outra cultura também. Mais individual, as vezes a galera não percebe que você tá numa roubada. É mais nós, do Brasa, que vai colar lá no outro lado do mundo sem dinheiro. E foi meio diferente pros caras entenderem isso. Quando entenderam abriu a mente pesado. É muito mais style hoje em dia até pra eles mesmo, nessa ultima trip cada um pagava um jantar, ou do nada um chegava com uma caixa de cerveja pra todo mundo. A nossa cultura abriu a mente de outras pessoas. Os caras entenderem mais. Então, foi bem especial. É muito especial estar com eles, na real. É uma família que, sei lá, criamos ali depois da pandemia. E eu não vejo um final tão cedo.

Ivan Lopes: De que forma andar de skate na Praça Sete e no Brasil te preparou para as ruas de Barcelona? Você acredita que morar em Barcelona contribuiu para o desenvolvimento das suas skills como skatista, hoje?
Mano, pergunta muito doida também. Meu pai é da geração antiga no skate, então a brisa dele, querendo ou não, sempre foram os eventos para estar em evidência. Até porque isso traz um dinheiro pra dentro de casa. Só que teve uma época da minha vida em que nós moravamos em Curitiba, minha avó faleceu e voltamos pra Belo Horizonte. Em 2009, eu fiquei estudando no bairro e desencanado do skate, conhecendo outras coisas, vivendo outras paradas, mas sempre ia pra Blunt e tals que era onde eu podia ir na época ou se alguem me buscasse e levasse em casa hahaha. Mas teve algo que eu nunca vou esquecer: teve um domingo, acho que foi em 2012, em que eu tinha acabado de fazer um graffiti e os moleques estavam andando na Praça 7. Eu passei lá e o Droca tava andando. Eu tava com fome, te juro! Haha. Tinha pedido pros moleques comprarem um pedaço de pizza pra mim, lembro direitinho do sabor, salsicha com cheddar da Pizza Pezzi essa quem é OG Centro tá ligado, O Pedro Droca falou: “se você der um tail de back eu pago uma pizza e uma coca pra você”. E eu dei o tail de back de prima. A Praça 7 é bem suave, né? Só que, depois daquilo ali, eu falei: “caralho, mano, os moleques estão aqui, todo mundo se divertindo, andando de skate, vou voltar a andar!”. Eu tava sem skate na época, então comecei a pegar o skate do meu pai. O skate dele é um pouco maior, shape 9, rodas grandes. Pegava escondido. Meu pai só anda de dia, então dava umas 3, 4 horas da tarde, eu pegava o skate e ia pro centro. E fiquei assim durante um ano. Sou da segunda,terceira geração eu acho da Praça 7. Uma geração que não passou tanto a madrugada, mas sim os finais de tarde e os fins de semana. Vi muita coisa, questão de estar na rua mesmo, aprender muita coisa, saber falar com as pessoas. Acho que o olhar de skatista tem muito isso: saber quem quer fazer por onde, saber quem quer subtrair, quem não quer ajudar mesmo. Então, a gente se fechou muito com a galera ali. Foi muito style mesmo. E foi na Praça 7 que aprendi a maior parte das minhas manobras. E também tenho maximo respeito ao Philippe Nobre, Arthur Dias, João Gabriel, Alexandre Alvarenga, João Miguel, João Lorim, Thiago Lima, Léo Bicalho, Droca, Zé Finin, Luis Black, Pelão, Brasinha, Gabó, entre outros porque essa é a G7 que eu me inspirei e vi ao vivo. Na época, fui muito influenciado pela Polar, Kevin Rodrigues, tá ligado? Dos wallrides, no-complys… Foi muito engraçado porque, nessa época, aqui em BH, o skate era bem mais técnico, com mais pop. Influência do Bill, João Miguel, Alexandre Alvarenga, Thiago Lima… Então, nós meio que brisamos em um outro skate, eu, Raphael Alves (Kin), Johann Matheus (Fun)… Eu tava até zoando com o Arroiz e o Thaynan em São Paulo esses dias, quando a gente tava junto, que nós somos low impact: low impact skateboard. Que é brisar mais no estilo, sacou? Os caras me zoavam, diziam pra eu bater o tail, dar umas manobras com pop, e eu respondia que skate é outra coisa pra mim. Ao meu ver, tem vários modos de você se expressar no skate. Então, andar na Praça 7, no Brasa, foi muito importante pra eu conseguir encontrar a base do meu skate. Mas, na Europa, consegui consolidar. Eu gosto muito de andar em mármore. Só que eu dou o máximo pra poder andar all terrain. A Europa lapidou mais o meu estilo de skate, por estar ali mais perto das pessoas que eu via nos vídeos e conhecer outras pessoas internacionalmente, aprender mais manobras e ver mesmo as manobras na sua frente, caralho, você vê que é possível.
Ivan Lopes: E o que mudou na sua visão depois que você voltou pra BH, com o repertório de ter todo esse tempo na gringa?
Muita coisa. É engraçado, porque não era pra eu ter voltado. Eu voltei por causa de trampo; estava fazendo a direção criativa do Djonga. Fiz a direção criativa do show de lançamento do álbum novo dele em BH no ano passado. Era pra eu ter ficado só um mês, mas, sei lá, tava muito tempo longe da família, dos meus amigos e do Brasil também. Foi importante porque, depois de quase 10 anos na Europa e de muito aprendizado, percebo que grande parte da minha maturidade como pessoa, dos 18 anos até hoje, foi construída lá. Então, foi necessário pra mim ter passado o que passei lá fora, junto com meus amigos de la. Vendo como é o mundo do skate lá e como a galera consegue conciliar trabalho, skate e uma vida normal. Tem uma galera que é pai de família e consegue conciliar com o skate, ou faz outras coisas da vida, participa de outros esportes, enfim. Tendemos a achar que skate é só um caminho, mas o skate tem vários nichos. A Europa abriu muito minha mente pra fotografia, produção visual e marketing. Vejo que também nada é pra sempre; tudo é uma experiência. Hoje, aqui em Belo Horizonte, acho que é uma oportunidade muito grande carregar essa bagagem que tive lá fora e trazer pra cá, sacou? Pra molecada mais nova que não me conhece, até pros manos mais antigos, darem uma reforçada na visão, abrirem mais a mente, verem que as paradas não têm apenas um caminho só, mas ter três escolhas ou até mais. Ser mais maduro. Se eu tivesse ficado no Brasa, acho que poderia ter me tornado um moleque de evento, um moleque tirado ou, sei lá, seguido um caminho ali com o Djonga ou FBC e o Coyote, os moleques da música. Não sei mesmo o que ia acontecer. Mas que bom que aconteceu assim de ir pra Europa e ficar esse tempo todo, voltar sendo a pessoa que sou hoje. Mas também hoje em dia eu posso tá viajando e conhecendo vários lugares e ano que vem quero passar uma temporada em alguns lugares diferentes também.

Waldir Anthony: Isso é uma questão que a gente conversa muito aqui na rataria: do skatista saber fazer outras coisas além de andar de skate. Uma vivência que você teve na Europa e que você poderia falar como foi essa experiência de trabalhar com outras coisas.
É muito loco mano, quando a gente vai pra Europa somos imigrantes, não tem tantas oportunidades e Barcelona é um pouco mais fechado por causa disso. Se você não tem uma residência ou um contrato de trabalho, as vezes você acaba caindo no submundo. Ainda tem algumas maneiras de fazer dinheiro honesto, só que nós vamos ser sempre o fundo do saco. Já passei por várias, até mesmo tendo a residência da Espanha, de não ser selecionado por ter um concorrente com o passaporte Europeu ou uma faculdade de lá vai ser mais fácil. Em Barcelona assim que eu tirei meu documento eu trabalhei como Customer Service pra New Balance, respondendo email e ligações, isso ajudou bastante no inglês, o espanhol e o português de Portugal. Depois trabalhei no Google Cloud, como Business Development, que agregou muito em lidar com um meio mais corporativo. Uma coisa que conversei muito com o Anthony (Rataria), às vezes, nos fechamos muito no sonho de fazer a parada acontecer, mas não ter um lugar pra dormir, o que comer, gerando tristeza, psicoses, depressão. Dai acaba descontando na bebida , drogas, festas… então é muito delicado isso aí também, mas não vou negar que as melhores vivências e aprendizados foram lá.
Brendel Ferreira: Muita gente associa viagens internacionais apenas aos patrocínios, mas sabemos que existe uma cena alternativa no corre das ruas. Como foi pra você se manter na gringa sem contar com grandes investimentos e patrocínios?
Então, foi muito doido, porque minha primeira viagem mesmo depois de 3 anos em Barcelona foi em 2021, com o Anthony Claravall. Lembro que estava sem documento na época. E estava todo mundo indo pro CPH Open, em 2021. Tinha uma galera sem documento. Aí eu falei: “já estou aqui tem 4 anos, que se foda, vou ir”. Fiz um teste de Covid falso. Tomei a vacina depois, mas, na época, nós estávamos com um teste fake de Portugal. E eu colei. As passagens dentro da Europa são muito baratas. Querendo ou não, dentro da Europa é 60, 70 euros ida e volta. Fiz o corre pra comprar a passagem antes e fui pra Copenhagen sem lugar pra ficar. Mas lá consegui ficar no hotel do Thaynan. O Anthony viu que eu estava lá e falou: “mano, como assim você está em Copenhagen?”. Aí perguntou se eu queria ir pra Lisboa. Eu falei: “nossa, eu queria, mas tô sem dinheiro”. E ele disse que pagava minha passagem. E rolou: fomos Bodelazzi e eu. O Anthony alugou um Airbnb ali em Lisboa mesmo, no Bairro Alto. E ficamos lá uma semana filmando: eu, Leo Bodelazzi, Anthony, Rodrigo Tx e o German Nieves. Pra mim, foi muito especial estar com o Tx também nessa trip. Porque o primeiro vídeo que assisti foi “The Firm – Can’t Stop”. E o Anthony filmou grande parte desse vídeo e também filmou a parte inteira do Tx. Então, foi um sonho estar envolvido com eles. Foi muito especial porque eu ainda não tinha minha residência e tava viajando ilegal mas logo depois dessa viagem, saiu minha residência, o documento que eu precisava pra ficar legal. Daí comecei a viajar bastante. Vim pro Brasil pra ver minha família e filmar por dois meses e, depois disso, saiu o vídeo do Anthony na PocketSkateMag que é o Usual Suspects, depois disso comecei ir em tour por causa da New Balance e da Victoria também. O manager da New Balance da Europa, Mark Baines, me ajudou muito mesmo, tenho um respeito máximo por ele. Deu acesso a ter um travel budget pras viagens planejadas. Mas também se não fossem meus amigos, cada viagem dessa aí não teria acontecido. Thiago Ferreira (Paul), Tiago Lemos, Ricardo Lisboa (Odracir), faço questão de mencionar também o Lucas Marques (Dutinha) e o Leo Bodelazzi. Estamos sempre se ajudando. Às vezes eu não fazia o corre da passagem com a marca, mas meus amigos me chamavam: “vamos pra Paris”. E eu ia. Ficava lá sem nada, só na cara e na coragem, e mete marcha. São vários os amigos tambem que tem um suporte da hora, que as vezes ta em um quarto de hotel, igual o Thaynan Costa e o Didrik Galasso que me salvaram diversas vezes. A primeira vez que fui pra Europa, em 2017, eu tava sem lugar pra ficar e nem conhecia o Deedz direito, Eu saí com o Thaynan pra um bar e conheci ele uma vez e ficamos andando de skate o resto dos dias. Falei com ele que tava sem lugar pra ficar. Ele me levou pro hotel dele e deixou eu ficar lá, me deu um monte de produtos, e a gente tinha duas semanas de amizade e o Thaynan é uma pessoa que eu conheço desde de que eu tenho 6,7 anos de idade, ele é família pra mim. Então, isso é uma parada que, pra mim, marcou muito. Meus grandes ídolos são meus melhores amigos, tá ligado? Se não fossem meus amigos mesmo, nada disso seria possível. Mais que companhias e indústrias, é a amizade. Você pode contar de verdade com as pessoas que estão na mesma situação que você. Tallys Junior e o Tallys Marcos, Felipe Munhoz, toda a CPTMAFIA, Daniel Galli, Lui Appratto, Gusta Paiva, Vinicius Santos, Filipe Mattos, Rodrigo Grilo, vish… vários ali que já me ajudaram. Sem palavras mesmo, só tenho a agradecer.
Brendel Ferreira: Vimos na Pocket Skatemag um campeonato de vídeo do qual você participou, o Midnight Sun Skate, em Tromsø. Como foi andar de skate em um lugar onde o sol brilha 24 horas por dia durante os meses de junho e julho?
Esse evento foi muito style. A Hanna Worum, começou a fazer ali na Noruega. Ela vem de uma cena muito style do snowboard. E a primeira edição foi na terra natal dela, Tromsø. Eu, particularmente, nunca nem tinha ouvido falar nessa cidade. Pra mim era só Oslo e já era. Pegamos o voo de Oslo pra Tromsø. A New Balance estava meio que patrocinando esse evento também. Tivemos sorte de fazer uma equipe em que todo mundo tinha suporte da marca, e ficamos junto, era eu, Lucas Marques, Leo Bodelazzi, Tiago Lemos e o Bruno Dox filmando. Nos três primeiros dias, acho que ninguém conseguia fazer nada de tanta emoção. Sei lá, duas horas da manhã e vendo o sol. Foi tão engraçado que começamos a pegar lençol e colocar na parede, pregar adesivo, pra casa ficar escura. “Que porra é essa?” É um evento que junta times e crews. A gente precisava filmar na cidade de Tromsø, que é bem pequena. Tava sem carro, então saíamos remando ou pegávamos carona no carro de outras crews. Ficamos lá 6,7 Dias eu acho e o vídeo tinha que ficar pronto na mesma semana. Lembro que o Dox tava no maior corre pra editar o vídeo numa dor de cabeça danada e o Burny deu pra ele um remédio e um copo de Whiskey, curou o bicho na hora! Na Noruega tem um sistema muito interessante: se você recolher garrafas e latinhas na rua, pode ir ao mercado e trocar por dinheiro. Nossa crew ficou no corre de catar latinha as vezes e trocar por dinheiro pra fazer uma janta da hora, ou limpeza da casa também tá ligado? Tanto que as outras crews, da Noruega mesmo, começaram a dar sacola de garrafa pra trocarmos por dinheiro. O Burny Diego, um dos fundadores da “PocketSkateMag”, é outro pai que eu tenho. Se não fosse ele, eu não estaria aqui até hoje também. Ele começou a nos ajudar pra caralho, tava até catando garrafa pra nós hahaha. Olha que louco! Ficamos em segundo lugar e recebeu um dinheiro desse evento. Quem ganhou foi a crew do Deedz e do Pekkaaa de Oslo. Os caras destruíram a cidade, que é muito difícil de andar de skate. Não muito difícil, mas, por causa do inverno, imagina: seis meses de neve e chuva… O chão é muito ruim. É tudo muito diferente do que estamos acostumado. Só que, mesmo assim, foi uma das experiências mais doidas da minha vida. Depois eu lembro de Eu e o Dox voltando pra Barcelona e chegamos a noite, meio que não entendendo nada, imagina… bagunça muito a mente mesmo!

Ivan Lopes: Depois de viajar por diversos lugares, qual foi o pico em que você mais curtiu andar?
A China é muito style por causa dos picos. É um bagulho muito diferente. É inacreditável. Eu pensava: “quero andar num lugar assim”. Falava isso pro guia ou pra um local, e o cara me mostrava o pico, da mesma forma ou até melhor. New York e Paris também foram sonhos realizados. Pelo meu estilo de skate, pelo que eu sempre brisei. Acho que envolve tudo: a música em geral, não falo só do rap. Sou muito do rock também. Curto muito a cena eletrônica do house. Então, a Europa também é muito style. Acho que engloba tudo isso. Mas o melhor lugar pra andar de skate é o Novazoo. Não tem como. É sério, eu amo aquele lugar. Todo dia que eu vou lá, tô feliz. Todo mundo reclama, meus amigos reclamam, mas eu tô feliz pra caralho andando lá. E a Born Plaza, que foi um projeto do Leandro Fischer da Al Carrer Skateshop com a Skate Archtecture em Barcelona. É sério, aquele lugar é mágico. Máximo respeito a toda família Fischer / Al Carrer também.
Ivan Lopes: Quais diferenças você percebe entre skatistas de outros países e os brasileiros, tanto no consumo da cultura do skate quanto na forma como contribuem para a cena local?
Acho que hoje em dia é muito diferente por causa das redes sociais. Vamos imaginar: a nossa geração brisa muito em vídeo e que também tem um acesso a ferramenta, queremos saber muito o que está acontecendo por trás das produções. Se não falamos inglês, traduzimos a entrevista no Google, já cansei de fazer isso. Vamos atrás da informação até conseguir. Consumimos revistas de outros países, outras gerações, vários bagulhos. A nossa geração meio que tem essa energia de ir atrás. Percebo que a molecada nova do Brasa vê no Instagram e já era. Eles não veem o corre daquele cara que postou aquela manobra. Não sabem do background, do contexto inteiro do skate… não procura saber mesmo porque é muita informação! Tem muita gente andando de skate no mundo inteiro né, mas também tem a molecada que eu vejo que busca uma informação, uma referência antiga de um bagulho que é cultura mesmo. Até mesmo em visão de crew, marca, projeto. Estamos prosperando muito no Brasil fazendo acontecer, os vídeos independentes, as marcas locais, as skateshops que tão dando o máximo pra fazer de tudo pra ter um evento da hora. Ainda mais hoje em dia o jeito que o mercado do skate tá díficil, mas tem uns mano que é monstro fazendo anuncio até pra hidratante agora ai é foda. Em outros países tá tudo ali né, as skateshops… por mais que o mercado tá díficil no mundo todo tem as ativações das marcas de tênis, as marcas de energético tão fazendo tour e investindo no skate core né? e movimentando pra galera local ver, tem skatista do mundo todo na europa e na américa e lá também o acesso aos produtos e a cena é mais fácil. Não tem como negar.
Ivan Lopes: A própria atitude que vocês tiveram na Noruega: os Brasa catando as garrafas pra fazer uma grana, isso aí já é uma diferença. Os brasileiros podem estar em qualquer lugar, a forma de atitude deles é diferente.
Várias viagens que fiz com os gringos me fizeram perceber que, às vezes, podem ter dois brasileiros e cinco gringos, mas os dois brasileiros sempre vão tomar a cena. Vão pegar todo o dinheiro que têm, fazer um rango pra todo mundo sem esperar nada de volta. Isso vira a chavinha dos caras, daqueles que estão mais no individual. E esse bagulho já rolou muitas vezes. Até mesmo dividir uma breja. Quantas mil vezes já vi isso. Tá uma gangue, mas tem um maluco ali que vai se destacar, pegar uma breja e falar: “vamos juntar e pegar pra todo mundo”, até o cara entender isso. Pra eles deve ser uma parada muito diferente, essa coletividade que existe entre a gente. E isso eu vi muito também na galera da “Casa Plena”, do Felipe De Carvalho (Alastrão) e o Akira Utida também. Aprendi muito porque, mesmo sendo de Belo Horizonte, ainda vivemos numa zona de conforto. No Brasil, querendo ou não, tem a família, tem os amigos. Quando estamos fora, conseguimos ver certas pessoas com quem não tinha intimidade há muito tempo e que colaram junto. Acho que isso é um divisor de águas também. Aprendemos muito nessa coletividade, e isso veio vendo os moleques.

Até aqui, a conversa girou em torno da trajetória de Hugo Blender, acumuladas ao longo dos anos dentro da cultura do skate. Em determinado momento, o assunto inevitavelmente chegou na política, no estado atual da cena mineira e a forma como o skate vem sendo representado institucionalmente no estado.
Nos últimos anos, discussões sobre federações, investimento, eventos e participação dos skatistas nas decisões importantes ganharam força. Como alguém que vive o skate diariamente, Blender tem uma perspectiva própria sobre o assunto.
A partir deste ponto, a entrevista entra nesse debate.
Ivan Lopes: O que te motivou a voltar pra BH e querer somar com a cultura sem o envolvimento da Federação de Skate de Minas Gerais?
Minas Gerais é muito carente de informação do skate hoje em dia. Aqui, o skate é mais centrado em evento, sempre foi. Citando um exemplo: o Bill fez um best trick no Viaduto esses dias, tinha uns moleques ali mais novos e, tipo, eles davam a manobra e iam direto no dinheiro… e o pai tava presente ainda, era 10 reais… mas eles foram direto no dinheiro. Não posso falar que foi um evento, era mais uma comemoração do skate, e o moleque já tava participando do bagulho assim, com o pensamento errado ao invés de curtir e conversar com a galera andar de skate for fun, mas vai saber também… competição é foda, isso é minha opinião, sabe? Os pais de certas crianças já criam eles pensando que são troféus. “Esse moleque aqui vai me tirar da roubada, vai me dar dinheiro” ou algo assim. A Federação Mineira poderia passar uma informação do que realmente é o skate. Eu fico triste, porque tem pessoas dentro da federação que eu considero, que eu sei que as vezes tá ali pra ter uma voz mas na real não tem voz ativa nenhuma por causa da força maior e também tem profissionais de skate. Não sei nem se dá pra falar que são profissionais. São ex-profissionais de skate que poderiam ser pessoas muito mais foda, poderiam mostrar pra galera: “a gente tá numa posição muito legal, o que podemos fazer pelo skate no estado?”. Só que esse pessoal não dá abertura para as pessoas de fora, para os skatistas de rua ou que estão começando agora. E isso fecha muito o ciclo para eles. O Pequeno já participou de X Games, o Cascão foi do melhor time da Qix em 2002 e viveu muitas coisas… O Mauricio é o dono da Blunt, uma skatepark em BH que tinha tudo pra ser style e, sei lá, por influência dele mesmo, digamos, nunca foi skate de verdade. Sempre foi mais voltado para vendas e eventos. E acaba que a federação só faz campeonato também.
SKATE COMPETITIVO VS. SKATE ESTILO DE VIDA
Ao longo da conversa, Blender também criticou a federação por priorizar campeonatos em detrimento de outras expressões do skate.
Tem que ser uma federação que faz mais coisa além de campeonato. É uma Federação de Skate de Minas Gerais, poderia servir pra abrir a mente das pessoas, ajudando uma ONG, associações de skate, incentivar marcas locais por exemplo. Nunca fizeram isso. Através da federação, existe a possibilidade de ter acesso a uma Vale, Petrobrás, Banco do Brasil… que já estão dentro do skate, mas direcionar para as coisas certas, não para o uso pessoal como fazem atualmente. Não vejo esses recursos sendo destinados à cultura do skate pela federação em Minas Gerais. Acho daora que fizeram uma pista padrão SLS gigante em Contagem, mas ainda não vejo que isso pode se tornar algo sólido. Eu sou bloqueado no Instagram da federação, não posso ver nem opinar em nada que eles postam. Então acho muito paia a forma como eles se fecham, ao ponto de só quem tá dentro poder votar. Isso não é democrático. Não se interessam por opiniões de outras pessoas. E, mano, eu ando de skate sempre na rua, todo dia tô remando, desço ladeiras, passo no viaduto, na Sete, tento ir a alguma pista de skate com meus amigos, temos nossa câmera agora e filmamos direto aqui em BH e não vejo essas pessoas em nenhum lugar. Se vejo, é no Instagram ou em algum evento. Seria mais honesto esses caras falarem que estão apenas curtindo e não se importam com a cultura. A nova presidente da federação, eu não sei quem é, só sei que é a esposa de um ex-profissional de skate. Nunca vi essa pessoa na minha vida. Não acho que seja conveniente ter uma pessoa que nunca pisou em cima do skate presidindo uma federação de skate. Pra andar de skate no Viaduto do Santa Tereza por exemplo hoje em dia os obstáculos mesmo são os aromas do Crack e as brigas dos moradores de rua e os doidos do movimento, nunca vi eles passarem nem perto de lá. O Pequeno teve uma carreira meio que de passagem no universo do skate, por campeonatos. Ele era da Anti-Action também se eu não me engano. Mas eu nunca vi um vídeo, uma entrevista legal ou algo que possa ser relevante para o skate na cidade, o que justifica terem colocado a esposa dele pra ser a presidente da federação? Um estudo? Uma linguagem mais formal que ela possa ter? Qual a fita? O tesoureiro da CBSK é o Maurício.. poderia tá muito bem ajudando o estado e a cultura daqui dentro da confederação… e ele, se quiser, faz todo mundo de fantoche, porque é quem praticamente comanda o mercado em Minas Gerais, já que várias das marcas dependem dele por causa da distribuidora. Então, várias skate shops de Minas compram dele por ser o acesso mais fácil. E ele não tem um plano ativo de mercado, não dá suporte para os moleques daora, enfim… Inclusive, Skateshop de BH… que vende bem, tá em shopping… vamo fazer um vídeo ai em, pegar os moleque novo da área e dar uma atenção porque se não daqui a pouco vai virar mais um igual aconteceu com vários… uma chance de um desses menor aparecer em um vídeo, dar um suporte pra ir pra são paulo, ou até mesmo ir pra algum evento pode mudar a vida deles e a forma de pensar também. A federação poderia mudar, escutar mais os skatistas e as pessoas que realmente querem uma porta de entrada nesse mundo. Porque esse nicho do skate, sendo de uma cidade igual à de BH, que é grande, e abrangendo Minas, não é só deles. Tem muita gente nova andando de skate, tem muito skatista que, às vezes, vai andar só de madrugada ou fim de semana, porque trabalham. Muitos nem têm Instagram, mas são doidão de skate. E queriam muito uma oportunidade pra estar dentro e fazendo alguma coisa. Porque nem é só pelo dinheiro. É pela cultura que a gente vive, é amor à cultura, amor ao que fazemos. Eu não me vejo sendo outra pessoa, vou ser isso pro resto da minha vida. Tenho como exemplo meu pai, Luiz Bicalho, Mauricio SLG, Rodriguinho, Nono, Zezeh, Arthur Zoio, Chipanzinho… a galera de BH que é milianos… os manos de Divinópolis, como o Claudinho, Raphael Henriques, os mano que tão fora de outras cidades de minas igual o Cléo curto muito trocar ideia com ele, inspiração total. Sempre vi esses caras fazendo o corre, sem nunca depender da federação pra nada, a galera mais recente também da Pista do Taboka, o João Bruno que junto com o Zóio tem uma construtora de pistas, os muleques do Ratos de Bueiro que tão movimentando uma cena pra galera nova, Caskinha Skateplaza, o Doug que cuida muito do viaduto… a gente já viveu bastante coisa pra não depender disso. Queremos abranger mais coisas e ter um bagulho daora.
ORGANIZAÇÃO POLÍTICA DOS SKATISTAS
Enquanto critica o modelo atual, Blender aponta algumas alternativas que vêm sendo discutidas por parte dos skatistas.
Tô pra criar uma associação cultural de skate aqui em BH, pra gente meio que desviar e não precisar confrontar. Mas se quiser bater de frente, nos tamo aí também, foda-se! Joga os processos que é nois. Para a gente ter uma voz ativa, muitas pessoas querem isso. Fazer por onde no seu ciclo, na sua crew, no seu bairro, onde você anda de skate. E surgiu essa necessidade de criar uma associação pra fazermos o que é direito nosso. Ter um evento daora, igual estamos planejando o Skate Day esse ano, o maior que já planejamos. E criar oportunidades pra outras crianças, pra galera mais nova, pras meninas. Seria muito doido ter um evento só de mulheres em Belo Horizonte. Ou um evento de skate trans, sei lá, são só ideias… até mesmo porque a galera da federação hoje em dia é tudo bolsominion. Ser uma parada mais aberta pra galera aqui de BH e Minas poder chegar junto, sem depender dos manda-chuva. Então, isso vem mais pra mudar mesmo a forma de pensar, de ter essa linguagem mais política no skate, mas com as pessoas certas. Até mesmo trazendo ativações e eventos. Minas Gerais também pode ser um polo mundial do skate, se a gente quiser, se tiver as pessoas certas, sacou? Não tô julgando quem faz o STU, mas poderia estar vindo aqui, ia ser interessante pra cultura também. A cultura depende tanto do underground quanto do mainstream. Se não for os dois, a cultura não anda. É importante ter uma etapa do STU aqui, como é importante ter um evento de rua como o MKD Open ou o Goiânia Crew Attack. É importante a gente trazer isso com ideias que realmente façam sentido pra quem tá em cima do skate e pra quem vive isso. A Federação Mineira poderia estar batendo de frente com a Prefeitura, com a Secretaria de Esportes, pra fazer um espaço adequado pro skate. Tem um mapeamento de pistas que fizemos agora. Eu duvido que eles tenham isso, pra ver qual pista funciona até a noite, se tá precisando de alguma reforma, de luz, água… Eles não têm nem isso, porque não se importam com a cultura do skate. Eles focam apenas nesses eventos com marcas e premiações que não fazem sentido. Às vezes um moleque sai lá de Contagem, juntando todas as palhas pra participar de um evento no interior pra ganhar duas camisas, é revoltante. Agora que o skate cresceu, tem tantas oportunidades, tá vindo muita gente que nem anda de skate trabalhar no skate. É muito frustrante ver o tanto de pessoas mais capacitadas, com estudo, não poderem agregar nisso. Qual é a lógica? Se a federação fosse daora, todo mundo poderia fazer um bagulho junto. Se todo mundo pudesse ser ouvido, pudesse dar sua opinião, iríamos juntar o elo, criar um corpo. Tipo: pegar a opinião dos mano de Divi, Contagem, BH, Norte e Sul de Minas… Isso é o que se espera pra fazer uma parada melhor. Imagina se o circuito mineiro tivesse uma estética diferente, mais alinhada com o skate atual. Pra mim, é loucura o que eles estão fazendo hoje. Não enxergar as pessoas que realmente fazem o corre. E, hoje em dia, o corre não é ter patrocínio, não é lançar uma parte, não é ter uma capa… O corre é fazer por amor, andar de skate e estar envolvido na cultura, na comunidade, na cena. É isso que faz o skatista viajar e querer saber mais sobre a cultura.
DE ONDE VEM O DINHEIRO E PRA ONDE ELE VAI?
Sobre financiamento, gestão e distribuição de recursos dentro da cena, Blender avalia que existem inconsistências.
Waldir Anthony: Onde está a “grana escondida” na cena que ainda passa despercebida?
O skate é um só, tem que saber lidar com todos os lados. Tem muita grana escondida aí no bolso dos ‘’manda-chuva’’ que eu sei muito bem. Nós também somos nerds, já procuramos informações, cansei de passar a noite em claro procurando edital, CNPJ da federação e tentando ver pra onde que esse dinheiro vai. É o questionamento que a gente faz: cadê esse dinheiro? Poderia ter uma reunião muito mais extensa de pessoas, pra saber o que fazer com a cultura no estado. Eu vou continuar andando de skate na rua com meus amigos, mas queria muito um lugar daora, que eu consiga levar minha família também, minha sobrinha. Tipo: “aqui é o nosso mundo, aqui é o nosso espaço, não tem droga, não tem arma, não tem crime, é o nosso espaço”. Já cansamos de andar em pistas de skate que são rodeadas pelo crime. Se um moleque entrar em outro caminho, tá fudido, já vimos vários se perder. Todas essas coisas são responsabilidade da federação. A nossa geração é a geração que tem que pensar nisso. Só que eles não pensam, infelizmente. Um maluco que fez o maior corre de skate nos anos 2000 e, hoje em dia, se tornar isso… ou um mano que andou de skate por um certo tempo, era cabuloso, mas hoje em dia tem uma noção totalmente diferente do que é a parada. Tipo, não dá pra trabalhar com skate sem viver o skate. O skate mudou muito. Se eles querem continuar nessa posição, pelo menos se adaptem, procurem novas informações, coisas novas. Dá um F5 na mente, pelo amor de Deus, (risos). Uma vez, meu pai falou pra mim: tira o seu tênis do pé e dá pro moleque. Eu não entendi aquilo na hora, mas depois fez todo sentido pra mim, cabuloso. É isso que eu quero fazer. Ajudar as pessoas igual todo mundo que passou pela minha vida me ajudou, que é a maior conquista que o skate me trouxe. Eu vejo que essas pessoas não têm nenhum pingo de respeito com quem vive o skate de verdade. Não me vejo fora do skate. Vi na entrevista do Jeff Grosso e fez todo sentido, não consigo fazer nada da minha vida se eu não ver um vídeo de skate antes ou se eu não trocar ideia com um camarada meu. Nada na minha vida acontece, nada. E isso é importante. Duvido que essas pessoas da Federação Mineira estejam pensando em assistir um vídeo de skate, conversando com os skatistas ou estão, realmente, no espaço que eles deveriam estar pra trabalhar com o skate. Eu não sou exemplo pra ninguém também. Quem gosta de mim, gosta, quem não gosta, não gosta mesmo. Nunca tive uma entrevista, nunca ganhei um campeonato, nunca tive uma video part só minha. Mas ainda tento fazer o bagulho pela cultura, mostrar de onde eu vim e trazer pessoas pra cá.
O FUTURO DO SKATE EM MINAS GERAIS
Apesar das críticas, Blender afirma que enxerga potencial para um cenário mais diverso e participativo no estado.
E é isso. Sou de BH e tô na minha cidade fazendo o corre. Quero estar sempre em movimento, mas minha base, com certeza, sempre vai ser aqui. Temos que buscar saber das coisas antigas e respeitar a galera que já fez alguma coisa. Tô cobrando como skatista, por uma melhora, por um futuro mais daora que podemos ter. Sempre almejamos algo melhor pra nós. Não podemos nos contentar com pouco, porque o skate é contracultura, mano. Sempre vai quebrar paradigmas. Eu acho muito doido ver o Victor Aquino num STU, ver o rolê do Thiago Spinola, Augusto Pedregulho, Pedro Zóio os muleque trabalha faz o corre deles e tão marretando… a galera de JF também lançando os vídeos e indo pra SP, os manos de viçosa, varginha e pouso alegre… e também o skate nas Olimpíadas, porque isso abre muitas portas dependendo do seu ponto de vista. Tem uma meninada nova vendo a Raíssa e entendendo que é possível, mas podendo começar por outro lado até chegar lá. Igual o Raphael Alves (Kin) tem a escola de skate dele, a Lorena Fernanda tem a dela. São pessoas que realmente têm noção do que o skate é. Vamos buscar informação. Assistir vídeos, podcast, acompanhar as entrevistas, os podcasts. A ferramenta tá aí hoje em dia pra todo mundo, então vamos usufruir. Não dá mais pra ficar com a mente fechada.
Brenndel Ferreira: É isso Blender! Muito obrigado pela conversa.
Tamo junto meus manos, obrigado pelo espaço… e isso é minha opnião tá ligado, acho que é um direito nosso também vendo de fora e tentando mudar algo relacionado a essas parada mais tosca que vem ocorrendo na cultura do skate aqui no nosso estado. Espero que tenham entendido um pouco essa visão de um não-atleta, (risos). É nois.



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