Skate: considerado por muitos o esporte mais coletivo entre os individuais
Com a Copa do Mundo no centro das discussões, vale traçar um paralelo entre a trajetória do futebol moderno e o caminho que o skate vem trilhando. Para começar, é importante distinguir essas duas culturas. O futebol é um esporte coletivo de natureza competitiva. Não existe nenhuma forma de praticá-lo em que a competição não esteja no centro da experiência. É coletivo porque depende da atuação conjunta de vários jogadores para que a equipe possa vencer.
Por outro lado, o skate é uma prática individual de natureza artística. É possível inventar e reinventar infinitas formas de praticar o skateboarding sem que haja competitividade entre os skatistas. Apesar disso, não se trata de uma prática individualista. Pelo contrário, o skate é conhecido por seu forte caráter coletivista. Isso porque o estilo de vida dos skatistas sempre valorizou a amizade e, em certos contextos, pode ser considerado mais coletivo do que esportes de natureza essencialmente coletiva.
Parece contraditório, mas foi justamente essa coletividade que manteve a cultura do skate viva durante décadas. Os skatistas não dependem uns dos outros para praticar o esporte, mas evoluem coletivamente por meio da convivência, do incentivo e das inúmeras trocas de conhecimento durante as sessões.
Porém, diante do surgimento de competições que priorizam a performance olímpica dos agora atletas, em detrimento da espontaneidade intrínseca à cultura do skate, essa coletividade – tão cultuada durante as sessões – pode estar ameaçada.
A lógica do esporte moderno
O futebol cresceu e se transformou em um dos produtos mais valiosos do mundo. Isso é inegável. É, disparadamente, o esporte mais popular do planeta, com patrocínios bilionários, clubes transformados em marcas globais de luxo e jogadores elevados à mega celebridades influentes. Enfim, os interesses comerciais mudaram completamente a cultura do esporte.
Há quem defenda que o futebol venceu financeiramente ao se transformar no maior gerador de conteúdo ao vivo e de envolvimento emocional com o espectador da indústria global do entretenimento esportivo. Em contrapartida, é possível perceber que parte da dimensão cultural foi degradada para ceder espaço à mercantilização e ao espetáculo, que seguem a cartilha e os interesses dos conglomerados que ditam os rumos do futebol.
Concorde ou não com essa visão, é difícil negar que a lógica do mercado ocupa hoje um espaço muito maior do que ocupava décadas atrás. Para o ex-meio-campista da Seleção Brasileira, Sócrates, por exemplo, o futebol moderno tornou-se mecânico, focado na força física e na repetição de erros. Ele lamentava a falta de espaço para a genialidade e a liberdade criativa, enxergando os jogos, muitas vezes, como “um bando de gente correndo atrás de nada”.
Nesse sentido, como ilustra o pensamento de Sócrates, a lógica do esporte moderno privilegia apenas o resultado final, ignorando a genialidade subjetiva de cada atleta, a criatividade e outras características fundamentais que tornavam os esportes mais artísticos e agradáveis de assistir. A mercantilização, então, faz a paixão pela prática esportiva sucumbir à lógica da performance e do sucesso exigida pelas grandes corporações.

Tática sorrateira das bets
Esse movimento começa a aparecer no skate de forma silenciosa. A Stake, uma das maiores plataformas de cassino on-line e apostas esportivas, firmou parceria com a Street League Skateboarding, uma das competições de skate street mais respeitadas do mundo, e anunciou Nyjah Huston como embaixador global. Chris Joslin e Dylan Jaeb, skatistas de altíssimo nível, também passaram a integrar o time de embaixadores globais da Stake.
“É um ótimo sinal ver uma empresa como a Stake investindo nos X Games, em atletas de esportes radicais e no skate. Sempre achei que o skate competitivo precisa de mais visibilidade, e o envolvimento de marcas como a Stake é um passo na direção certa “, disse Nyjah Huston.
Para se ter uma ideia, esses são apenas alguns dos maiores nomes do skate competitivo atual. Podemos problematizar o caso de Dylan Jaeb para ilustrar o ponto de fricção entre os valores da cultura do skate e a lógica mercadológica das competições. De um lado, Jaeb representa a Quasi Skateboards, marca consolidada nas ruas, respeitada por seus vídeos conceituais e por um time autêntico. Do outro, promove uma das maiores casas de apostas do mundo. O paradoxo está no fato de que a mesma figura respeitada pela comunidade como uma autoridade também ajuda a introduzir seu público no universo dos jogos de azar.
Não se trata de julgar a escolha de Dylan ou de qualquer outro atleta, mas de observar um fenômeno em que coexistem interesses e valores profundamente distintos. É notável que os interesses individuais estejam cada vez mais presentes no skate; caso contrário, exemplos como esse não se tornariam tão recorrentes.
Essa lógica de mercado, além de aproximar o skate de apostas e cassinos, também concentra o poder de decisão em poucos conglomerados, que passam a ditar quais eventos existem e quem tem acesso a eles. A mesma concentração que abre espaço para embaixadores de casas de apostas é a que fecha o espaço para marcas reais de skate nos grandes eventos e para skatistas que não se encaixam no perfil comercial desejado pelos patrocinadores.

O coletivo pode estar ameaçado
Por ser um esporte urbano, originado nas ruas, o skate possui uma característica que poucos esportes de alcance semelhante conseguem proporcionar. É bastante comum, por exemplo, que skatistas iniciantes tenham a experiência de andar ao lado de grandes nomes do skate nacional e internacional. Isso acontece pelo simples fato de a cidade ser o campo de atuação dos skatistas, onde essas experiências ocorrem naturalmente com frequência.
Você pode chegar ao Vale do Anhangabaú, em São Paulo, em uma quinta-feira qualquer e dividir a sessão com alguns dos melhores skatistas do país, ou até do mundo. Vale lembrar que o Vale tem uma história de resistência à privatização e à higienização do espaço, graças aos skatistas de rua que se mobilizaram em torno de uma causa em prol do coletivo. Algo que dificilmente seria imaginável caso a cultura do skate de rua perdesse força, pois as motivações dos skatistas competitivos estão mais alinhadas aos interesses comerciais do que aos sociais.

Esse ímpeto de se envolver em causas sem ganhos financeiros, visando ao bem comum da comunidade, talvez seja o maior patrimônio da cultura do skate e algo que pode estar em risco caso negligenciemos a importância de nos mantermos unidos para além dos ganhos individuais. Sem a valorização do pilar comunitário do skate, que sempre foi uma ferramenta de inclusão social, corre-se o risco de extinguir experiências como essas, o que ocasionaria um distanciamento sistemático entre skatistas profissionais e amadores.
Qual é o preço de seguir o dinheiro?
Os sinais individualmente ainda podem parecer isolados, um patrocínio aqui, uma competição ali, mas, somados, desenham um padrão semelhante ao que se consolidou em outros esportes. A crescente mercantilização do skate, impulsionada pela busca por performance olímpica e pela chegada recente das casas de apostas, mostra que a cultura corre o risco real de repetir os erros que transformaram o futebol em um produto hipercomercial. Se o skate seguir esse caminho, priorizando a lógica do esporte moderno, focado em métricas de lucro, pode acabar sufocando o que há de artístico na prática, como a espontaneidade e a criatividade. O estilo de vida que reforçava o coletivo e as experiências sociais está sendo pressionado pelas grandes corporações a se transformar em um esporte espetacularizado de entretenimento competitivo, no qual o ideal de skatista de sucesso é aquele que pensa apenas em vencer sozinho.
Esse distanciamento entre a essência cultural e o mercado gera uma tensão nos valores da comunidade. Os interesses neoliberais de mercado não complementam os interesses orgânicos da comunidade, que sempre prezou pela amizade e pelo coletivo. Pelo contrário, essa apropriação neoliberal da cultura estimula o individualismo e a produtividade como valores centrais entre os skatistas. O impacto dessa mudança atinge o imaginário dos praticantes, que passam a abdicar de causas coletivas e voluntárias em prol de interesses individuais, enfraquecendo um patrimônio cuja relevância social e histórica sempre dependeu justamente da união da comunidade, e não de interesses corporativos.
A longo prazo, caso o skate continue se submetendo, sem uma reflexão crítica sobre os impactos negativos de aderir à cartilha do entretenimento esportivo moderno, poderá corroer alguns de seus pilares mais importantes, como a fraternidade. O skate, então, pode se transformar em uma prática mecânica, higienizada e elitista, criando um abismo difícil de reverter, no qual os skatistas estarão cada vez mais afastados uns dos outros. Portanto, poderá perder sua capacidade de inclusão social e de resistência urbana, deixando de ser “o mais coletivo entre os esportes” para se tornar apenas mais um produto de consumo previsível e isolado, repetindo o mesmo roteiro do futebol.




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