Dirigido por LF Ferreira, “Ginga” é a nova video part de Gui Silva, skatista de São Caetano, São Paulo.


Antes de irmos direto ao ponto e falar sobre o vídeo, vale conhecer um pouco mais do pensamento desse skatista multiartista. De início, pode surgir a dúvida: o que veio primeiro em sua vida, a arte ou o skate? Em entrevista à Free Skate Mag, Gui Silva afirma que, quando o skate entrou em sua vida, a arte já estava presente e que, desde então, essas duas formas de expressão convivem de maneira complementar, influenciando-se mutuamente.
Seu início no skate aconteceu de forma inusitada, assim como, tenho certeza, ocorreu com muitos skatistas brasileiros. No vídeo Parallels, ele conta que dividia um único skate entre ele, seu irmão e o amigo que era dono do carrinho. Um começo criativo, que marca a amizade como a ponte entre ele e o skate.
O que começou como uma brincadeira acabou se tornando algo sério. Em 2023, aos 23 anos, após refletir sobre o futuro e sobre o que faria para viver, já que o skate ainda não lhe proporcionava estabilidade financeira, Gui decidiu arriscar tudo e se mudar para Nova York. Lá, chegou a trabalhar em obras para se manter, destino comum a inúmeros skatistas que tentam a vida como imigrantes. Felizmente, seu talento foi reconhecido e, hoje, ele pode nos presentear com uma obra-prima como “Ginga”.

Agora sim, vamos tratar do audiovisual. Pop, técnica e criatividade: essa talvez seja a definição mais honesta para a obra, embora ela não se resuma apenas a isso.
O vídeo se abre ao som de “São Jorge”, de Alcione, faixa que conduz a carga dramática da obra e cumpre esse papel com excelência, respeitando a personalidade do protagonista e valorizando a verdadeira ginga que se desenrola ao longo do vídeo. A escolha da música se deu por motivos afetivos e simbólicos. Por um lado, ela remete ao período da infância do skatista, quando era ouvida ao lado de seus familiares. Por outro, a figura de São Jorge sintetiza a linhagem de Gui, que possui parte da família branca e outra parte negra e que, segundo ele, recebeu influências tanto do cristianismo quanto de religiões afro-brasileiras. O resultado é um retrato de como o sincretismo religioso atravessa sua formação e influencia sua maneira de enxergar o mundo.
Logo de início, após um “backside bigspin to fakie nosegrind, 270 out” em uma borda consideravelmente alta do Vale do Anhangabaú, Gui surpreende ao mandar um “wallie late shove-it” em um corrimão. De início, levei um susto, até perceber a tela que preenchia o vão do corrimão. Ainda assim, continua sendo instigante observar esse tipo de leitura da arquitetura executada com tanta sapiência.
Linhas de skate realmente boas não acontecem por acaso. Quando uma sequência é mal planejada, a gente sente, mesmo sem saber explicar o que está fora de sintonia. Para mim, uma boa linha precisa de contraste. Gastar complexidade máxima em cada manobra deixa o trecho truncado e cansativo; por outro lado, uma sequência simplória deixa o clipe pobre. Neste projeto, contudo, as linhas são construídas na medida certa. Uma linha em particular ilustra bem o meu ponto: ele começa com um “fakie backside bigspin” no solo, uma manobra fluida, de respiro, e, na sequência, um “backside ollie alley-oop to switch front crooked”. O contraste é harmônico. O segundo ângulo vem para dar a ênfase merecida a manobra, algo que soaria repetitivo se a manobra de entrada tivesse o mesmo peso técnico.
Quem também entrou nesse “gingado” é Akira Shiroma, que divide um back to back com Gui em um belíssimo “switch heel to frontside noseslide” na tradicional mesa de pingue-pongue. Ambas as tricks são bem executadas e, além disso, transmitem a sinergia entre os dois skatistas.

Não dá para não falar sobre as pernas de mola de Gui. Na verdade, daria para falar de quase todo o vídeo, pois há muitas cenas em que ele impressiona com seu pop. A própria foto de capa do vídeo já é suficientemente explícita nesse aspecto: um “ollie backside to fakie nosegrind” em uma mesa que poderia ter a altura de uma bancada de pub. É realmente muito alta. E, por falar em mesa, o que foi aquele “switch pop shove-it five-o” numa daquelas mesinhas de praça conhecidas por jovens da terceira idade jogarem dama com tampinhas de garrafa? Também tem um “backside heelflip” passando por cima de um banco que, mesmo em câmera lenta, me fez voltar o vídeo para procurar uma rampa no início do obstáculo.
Ainda sobre seu pé de mola, em sua ender trick, Gui ignorou completamente a já muito alta borda do Museu do Ipiranga, flutuando diretamente para o segundo andar da borda com um “big ollie to frontside noseslide”. É surpreendente pensar nisso, visto que, quando ele se agacha para encarar o obstáculo, a borda fica na altura de seus olhos. Insano!
E, para não dizer que eu esqueci da Ginga, cabe uma última investigação sobre como Gui conceituou sua video part. Uma observação que ajuda a esclarecer esse olhar é compreender como ele enxerga o Brasil. Na mesma entrevista à Free Skate Mag, citada no início desta resenha, Gui reflete sobre a sociedade brasileira com evidente orgulho de fazer parte dessa nação. Ele reconhece que a desigualdade é um problema estrutural do país, mas também entende que a diversidade cultural do território é justamente a matéria-prima responsável por formar personalidades como a dele.
Além disso, admira a maneira como o brasileiro supera as adversidades da vida e as enfrenta com um sorriso no rosto. É essa, então, a Ginga: a capacidade de improvisar, a boa malandragem que faz parte da nossa identidade nacional, ou, nas palavras do próprio skatista, “a gambiarra, a famosa ginga!”. Um país culturalmente rico, repleto de criatividade e energia – elementos explorados brilhantemente ao longo desta part.

Ao final do vídeo, somos apresentados ao pequeno Gui, revelando que ele já era, desde cedo, um garoto prodígio. Para fechar esse arco, um “backside flip” em um gap que, em tamanho, era maior do que o próprio skatista, seguido por uma comemoração entre os amigos, em um clássico encerramento de vídeo de skate.
A obra termina com a seguinte frase: “NÃO ESPERO SER COMPREENDIDO.” Esta resenha, entretanto, buscou compreender, ainda que dentro dos limites das informações públicas disponíveis. De fato, não é uma tarefa fácil. Assim, mesmo que uma compreensão total seja impossível, espero que Gui continue deixando pistas para que possamos continuar tentando.
Obrigado, Gui, por esta obra. “Ginga” já é, para mim, um patrimônio do skate brasileiro.


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