Varginha é conhecida nacionalmente como a “cidade do ET” devido ao relato de três jovens moradoras que, em 1996, afirmaram ter visto um suposto ser extraterrestre no município. A repercussão do caso foi tão grande que a história passou a integrar a identidade da cidade.
Ao longo dos anos, o poder público investiu na consolidação dessa imagem como atrativo turístico, com a construção de monumentos, intervenções urbanas e outros elementos arquitetônicos inspirados no episódio. As iniciativas transformaram Varginha em um destino para curiosos e entusiastas do tema, oferecendo aos visitantes uma experiência inusitada que tornou o município conhecido em todo o país.
No entanto, um grupo de skatistas locais enxergou um potencial em Varginha que, até então, permanecia ofuscado pela fama do “ET”. Skatista há mais de 16 anos, Jhordan Rodrigues reuniu seus amigos, pegou um telefone celular e explorou diferentes pontos da cidade em busca de locais para andar de skate. A surpresa foi muito positiva. Mesmo com a grande presença de pedras portuguesas em diversas áreas, Varginha ostenta uma variedade de picos, com hubbas, bordas de diferentes formatos e gaps de todos os tipos.
O resultado dessa iniciativa foi o vídeo “Desculpa Ter Vindo”, projeto que se tornou um retrato da cena local e da cultura do skate de rua no Sul de Minas Gerais. Filmado inteiramente em Varginha, o vídeo mostra como movimentos underground encontram formas independentes de produzir e difundir seus próprios projetos. Os skatistas, além disso, tiveram que se dividir entre skate e CLT para concluir a produção.

Conversamos com Jhordan Rodrigues e Gabriel Borges para conhecer mais sobre o projeto e entender como se desenvolve a cena do skate em Varginha, cidade do ET. Ao ser questionado sobre a origem do nome do vídeo, Jhordan explica que o título tem um tom de sátira. Segundo ele, a escolha faz referência ao fato de o projeto ter sido filmado com um telefone celular, equipamento que, dentro da cultura do skate, ainda não possui o mesmo prestígio de câmeras clássicas, como as Sony VX e Panasonic P2, historicamente associadas às grandes produções.
Jhordan: “O vídeo é filmado de celular e é até um pouco por isso que o nome do vídeo é ‘Desculpa ter vindo’, que é quase um deboche ou uma sátira, pelo vídeo não ser comum na cena toda do mundo do skate. Nós fizemos de celular porque a gente não tinha câmera. A mensagem é essa: fazer o que acredita com amor, com os recursos que tiver, e manter sempre a chama acesa.”
A intenção se sobrepõe ao recurso utilizado para realizar o projeto. Afinal, talvez não existisse registro algum se eles esperassem o equipamento ideal, o grande dia ou o momento perfeito para começar. Esse impulso de produzir, aliado à capacidade de criar com os recursos disponíveis, é uma característica intrínseca da cultura do skate. É justamente essa lógica do “fazer acontecer” que mantém o skate de rua vivo até hoje. Também vale destacar que assistir a um vídeo que respeita os elementos responsáveis por consolidar os vídeos como parte da cultura — como a filmagem na horizontal, uma trilha sonora bem escolhida e picos de rua — faz com que o equipamento utilizado na produção se torne um aspecto secundário dentro desse contexto. É completamente diferente de assistir a um vídeo “edit”, gravado em uma pista, na vertical, e publicado em um Reel qualquer no Instagram.
Jhordan: “O que motivou mesmo, acho que foi o cansaço de esperar ter uma câmera, um maker profissional, um fotógrafo, tempo pra filmar, porque a maioria é CLT. Muitas imagens foram feitas à noite, depois do trabalho. O vídeo foi uma vontade coletiva.”


As principais referências do projeto passam pela cena independente do skate brasileiro. Entre elas está a Banca da Crise, de Pouso Alegre, com nomes como Willinha, Dieguinho e Lucas. De Belo Horizonte, destacam-se skatistas como Zé Finin, Keenan, entre outros. Outra influência citada é a MKD, especialmente pela forma como constrói as trilhas sonoras de seus vídeos, capazes de transmitir sensibilidade de suas produções.
O processo de produção teve início no fim de 2023, quando as primeiras imagens foram registradas com o celular de um amigo. Aos poucos, o projeto ganhou corpo à medida que mais skatistas se juntavam às filmagens. A edição, assinada por Lucas Andreazzi, que não mora em Varginha, representou mais um desafio para o grupo. O vídeo só pôde ser concluído quando o editor conseguiu viajar ao sul de Minas para finalizar o trabalho presencialmente, ao lado de Jhordan e dos demais skatistas envolvidos no projeto.
Jhordan: “Era difícil, todo mundo com responsabilidade, trabalho, família, outros compromissos, e ficamos nessa por três anos e pouco até conseguir finalizar.”


Andar de skate em espaços públicos sempre exige paciência, e em Varginha não seria diferente. Segundo ele, o grupo enfrentou — e ainda enfrenta — diferentes formas de repressão por parte da Guarda Municipal. O conflito faz parte da rotina de skatistas de rua em cidades de todos os portes, no Brasil e em diversas partes do mundo. Assim, além dos desafios inerentes à produção do vídeo, o coletivo precisou lidar também com as constantes abordagens e restrições impostas durante as sessões de rua.
Jhordan: “Já tivemos vários problemas com a Guarda Municipal daqui, que sempre tenta nos oprimir de alguma forma. O mais desafiador mesmo foi conseguir tirar tempo pra filmar, trabalhar até tarde da noite e, ainda assim, sair pra rua, reunir os amigos e tentar render algo bom.”
Durante o processo de produção, Jhordan sofreu uma fratura no braço durante uma sessão de filmagem. A lesão exigiu cirurgia, com a colocação de uma placa no úmero, além de 17 pontos internos e outros 17 externos. O acidente o manteve afastado do skate por cerca de três meses, período que contribuiu para adiar ainda mais a conclusão e a estreia do projeto. Depois de 16 anos dedicados ao skate, Jhordan fala com paixão sobre o significado que o carrinho tem em sua vida.
Jhordan: “Eu e o skate é quase que uma coisa só. Ando já faz uns 16 anos e não me vejo sem skate. Ando pra ser feliz, por amor. Uso o skate pra ir trabalhar e pra tudo, como válvula de escape dos problemas. Acho que o skate me formou de certa forma. Meu respeito por onde eu vou é graças ao skate, às conexões que fiz e às amizades pelos lugares que andei nesse Brasil.”


“Desculpa ter vindo” representa um marco para a cena do skate em Varginha. O projeto busca retratar, com autenticidade, o cotidiano dos skatistas pelas ruas da cidade, preservando a essência da cultura e a criatividade em ocupar os espaços urbanos.
Jhordan: “O vídeo é o único vídeo real da minha cidade, com os picos todos daqui. Representa muito porque tem muito skate aqui, muitos skatistas de nível bom, e o vídeo vai estar aí registrado pra sempre. Representa também a nossa força, o quanto somos resistência e resilientes com o que nós amamos.”

Atrás das câmeras — ou melhor, das telas de celular —, o projeto reúne Jhordan Rodrigues e Edno Júnior na idealização, os skatistas revezando a filmagem (Edinho, Nicolas, Gabriel, João, Lucas, Titi, Wendel, entre outros), fotos de Daltinho Borges e edição de Lucas Andreazzi. Sem apoio externo, sem marca, sem produtora, projeto totalmente independente.
Com a conclusão do vídeo, não podia faltar, claro, a première. O evento superou as expectativas dos próprios realizadores. Segundo os skatistas, eles não imaginavam que a estreia teria uma repercussão tão positiva em Varginha, reunindo um público tão expressivo. Organizar uma première também envolve custos consideráveis. Para viabilizar o evento, o grupo contou com o apoio de amigos e parceiros da cena e, de quebra, conseguiu uma “marreta” em um outdoor. Isso é muito coisa de skatista.
Gabriel Borges: “E, pra fazer uma festa, vai uma grana, né, que a gente não tinha. Graças às pessoas que acreditaram no nosso corre e somaram com a gente, conseguimos entregar um evento e fomentar a cena local da melhor forma. Pra vocês terem uma ideia, até outdoor da nossa premiére a gente teve como divulgação, na marreta, com trick for cash e vários materiais fortalecidos, na pista local aqui da cidade. E, logo após, uma premiére linda que marcou a gente de forma inexplicável. Estamos acostumados a ver première só em São Paulo ou cidades maiores, e nunca imaginaríamos que a gente ia conseguir lotar uma casa de eventos aqui de Varginha pra assistir ao nosso vídeo. Foi gratificante demais ter vivido tudo isso, ainda mais na nossa cidade, que muitas vezes carece de eventos voltados pra cultura de rua.”
Mais uma vez, o skate mostra que não precisa de grandes recursos para reafirmar sua essência. Basta haver skatistas dispostos a filmar depois do expediente de trabalho, explorar a cidade em busca de novos picos, ressignificar a arquitetura urbana e fazer acontecer com os recursos disponíveis. Essa é a lógica DIY, princípio tão fundamental na cultura do skate de rua.


Deixe uma resposta