Por muito tempo, os skatistas foram vistos como marginais e vagabundos sem futuro. Na prática, porém, eles trabalhavam arduamente para realizar atividades, promover a cultura, combater preconceitos e ainda celebrar com festas feitas por e para a própria comunidade.
Essa percepção vem mudando drasticamente ao longo do tempo. A popularidade do skate, a sua exposição nas redes sociais e o fechamento de skateshops físicas contribuíram para que o skate se tornasse diferente do que era antigamente. Além disso, os skatistas são constantemente bombardeados por informações, sem filtro sobre o que é relevante ou não. As redes sociais desempenham um papel central nesse cenário, seduzindo pelo número de curtidas e interações, e, muitas vezes, afastando o skatista da realidade local, despolitizando-o e mantendo-o alienado nesse universo virtual. Dessa forma, o próprio skatista acaba sendo prejudicado por essa alienação e, muitas vezes sem perceber, contribui para perpetuar o problema que o afeta.
No contexto de conflitos políticos – em que o elo mais fraco, frequentemente, precisa adotar medidas mais radicais – surge o protesto “Muito com Pouco”, organizado por Vitor Tavares, José Jaime Neto e Mário Carvalho, da Persistência, junto com Felipe Moura, Romário Oliveira e a Cria Clips. O evento busca resgatar as origens subversivas do skate, servindo como manifestação contra decisões consideradas injustas. A iniciativa é uma reação ao circuito mineiro, que enfrenta polêmicas devido a atitudes arbitrárias.
Segundo a equipe da Persistência, responsável pelo protesto em Varginha, o descontentamento está relacionado à “falta de alternância dos presidentes da Federação, à falta de transparência nos processos de eleição e na gestão dos recursos dos eventos, além da postura autoritária da Federação, que apaga os comentários e ignora sistematicamente as demandas por diálogo dos skatistas de Minas Gerais“.
O evento “Muito com Pouco” será realizado nos dias 4 e 5 de outubro, em Varginha (MG), coincidindo com a 4ª etapa do circuito mineiro em Três Corações (MG). Para compreender melhor essa história, conversamos com os skatistas do sul de Minas.

Salve camaradas! Vamos começar perguntando qual é a intenção de vocês ao promover o evento nos mesmos dias da etapa do circuito mineiro em Três Corações?
Vitor: Nós poderíamos organizar o evento em outro dia, mas a ideia de fazer exatamente nesse dia é pelo protesto. Queremos mostrar que não precisamos da Federação para realizar eventos para nós mesmos. Minas tem muitos skatistas monstros, com manobras e personalidade, que não deveriam participar desses eventos da Federação. Essa é uma indignação pessoal minha. Os organizadores da Federação ganham dinheiro por estarem lá, e a inscrição é super abusiva. Minas é um estado muito grande, os lugares são distantes, e a galera precisa se programar. Eles vão fazer a terceira e quarta etapas em fins de semana consecutivos. Pensamos que, já que todo mundo está se programando para a etapa de Três Corações, vamos proporcionar algo daora, mostrando que é possível fazer muito com poucos recursos. Assim, passamos a visão para a Federação: conseguimos criar algo underground, com pouco investimento, mas todo mundo saiu feliz, andou de skate, se divertiu e vivenciou aquela vibe das antigas: skate, festa, amigos. E se eles mudarem a data, a gente também muda.
É comum que organizadores de campeonatos de skate acusem os skatistas de serem ingratos. Não fica claro qual é a motivação dessa afirmação: seria porque os organizadores acreditam que os skatistas não compreendem a dificuldade de realizar um evento? Ou porque esperavam mais reconhecimento pelo esforço? Ou ainda porque imaginam que os skatistas deveriam aceitar tudo passivamente, já que eles tiveram a iniciativa de organizar? Contudo, ao se comprometer com um projeto social, é necessário estar preparado para lidar tanto com os resultados positivos quanto com as críticas. Os questionamentos dos participantes devem ser vistos como feedbacks que ajudam a aprimorar o trabalho e seguir um caminho justo. Os skatistas se colocam à avaliação ao participarem de eventos, mesmo que o skate seja, antes de tudo, uma expressão artística e não apenas esportiva. Um campeonato, além de promover a competição, deve fortalecer a cultura, sendo uma oportunidade de mostrar o que é o skate de verdade. Se o skatista não for o centro dessa celebração, o campeonato perde seu propósito.
Muitos organizadores de eventos acreditam que os skatistas são ingratos, quando contestam os eventos. O que vocês acham disso?
Neto: O que estamos fazendo é uma reação ao que eles fizeram antes. São eles que chegam com migalhas e depois ainda acusam os skatistas de serem ingratos. Então, temos que aceitar isso numa boa? Não! Na visão deles, somos ingratos, mas, na verdade, só somos críticos ao que eles estão fazendo. Essas ações estão desanimando os skatistas de andar de skate. A verdade é essa: a Federação Mineira de Skate está brincando com o sonho de muitos skatistas.
Vitor: Não existe skatista ingrato nesses campeonatos. O que acontece é descontentamento mesmo. Muitos organizadores agem como se fossem a estrela do campeonato, mas a estrela verdadeira são os skatistas; sem eles, não há campeonato. Se os skatistas não participassem desses eventos, seria fácil perceber a importância deles, que tantas vezes são menosprezados. Os eventos que realmente respeitam os skatistas oferecem boa estrutura, praça de alimentação, água, inscrições justas e premiações adequadas. Eles sabem que são os skatistas que garantem um entretenimento de qualidade. Sabem que, para serem bons, os skatistas precisam ser incentivados. A gente só quer que os eventos sejam feitos da maneira certa, respeitando o esforço e o corre dos skatistas.
Mário: Não é ingratidão da nossa parte, é insatisfação. E eles estão incomodados com isso, incomodados que tomamos consciência. Estão tentando defender uma causa que não tem justificativa. Acusar os skatistas de ingratos é apenas uma tentativa de diminuir a insatisfação legítima por serem desrespeitados nesses eventos.
De acordo com o site econodata.com.br, a Federação Mineira de Skate foi fundada em 21 de agosto de 2008 e atualmente conta com três sócios. O sócio mais antigo está registrado desde dezembro de 2011, enquanto os outros dois ingressaram em setembro de 2018. Não há informações claras sobre o processo de escolha dessas lideranças, tornando difícil obter detalhes sobre a gestão da entidade.
Por quê vocês acreditam que os eventos de skate devem ser transparentes com os skatistas?
Vitor: A transparência é fundamental. No evento “Muito com Pouco”, vamos mostrar tudo: o que entra e o que sai, na humildade mesmo. Nós não temos recursos externos. Eu vou tirar do meu salário CLT, e o Netão também vai contribuir do próprio corre. Queremos mostrar que somos skatistas e fazemos pelo skate. A transparência permite que outros skatistas vejam que é possível fazer muito com pouco, desde que seja feito honestamente. Vamos registrar todos os gastos e, depois, divulgar esses valores publicamente.
Neto: Não sabemos nada a respeito da Federação Mineira. Não sabemos se eles recebem verba pública, se têm apoio do governo, direto ou indireto. Para sediar um evento, há custos, geralmente bancados pela prefeitura da cidade, mas como esse dinheiro é gasto? Como ocorre a distribuição desses valores? Isso deveria ser totalmente transparente. E o mais importante: quem colocou essas pessoas como presidentes da Federação Mineira? Foi por conta própria que criaram a Federação ou houve votação? Os skatistas de Minas Gerais querem entender isso, porque essas pessoas representam o skate do estado, que conta com milhares de praticantes. Tivemos a oportunidade de sediar uma etapa do Mineiro e, ao conferir as exigências, vimos que estavam pedindo muito dinheiro. Para onde vai esse dinheiro? Temos os prints onde eles diziam que a única forma de ajudarem a associação a sediar o evento seria apenas emprestando o nome. Prometem que, com o nome, a associação conseguiria captar recursos, mas para isso você precisa pagar tudo. Ou seja, eles não fazem nada, e para a cidade não sobra nada. É justamente essa transparência que exigimos da Federação, que é, querendo ou não, uma instituição política, tomando decisões em nome de muitos skatistas. Minas Gerais tem mais de 800 cidades. Quem vai ser o presidente precisa ser eleito de forma democrática.
Vocês acham que obrigar os skatistas amadores a se tornarem profissionais para receber prêmios em dinheiro é uma boa estratégia?
Neto: Existe uma lei chamada Lei Pelé, que proíbe atletas amadores, quando filiados a entidades governamentais, de receberem premiação em dinheiro. Isso não acontece apenas no skate, mas em todas as categorias amadoras. Mas, se com poucos profissionais, as marcas já têm dificuldade de sustentar os skatistas; imagina se todos os bons skatistas fossem obrigados a passar para a categoria profissional apenas para receber dinheiro de eventos. É uma estratégia mal planejada e sem fundamento. A categoria amador é justamente a que mais precisa de premiação.
Vitor: Quanto menos espaço para amadores no corre, menos skatistas terão a oportunidade de se tornar profissionais com experiência e bagagem. Menos profissionais se tornarão referência. Todo skatista que se tornou referência passou por muita história como amador, não foi obrigado a virar profissional só por ganhar dinheiro em eventos. Por isso, essa etapa do amador é tão importante. A ausência de premiação em dinheiro ameaça essa cultura, pois obriga os skatistas a se tornarem profissionais apenas para conseguir uma grana. Skate não funciona assim.
Mário: E outra coisa: tirar o dinheiro da premiação dos amadores só dificulta pra quem não tem dinheiro; pra quem já tem dinheiro, vai continuar correndo o campeonato e se desenvolvendo. Prejudica só pra uma classe de skatistas.
Como qualquer outro movimento que se encontra sob o olhar do capitalismo, é difícil blindá-lo completamente. No entanto, quanto menos informados estiverem os skatistas, maior será a brecha para que oportunistas explorem a cultura em benefício próprio. Promover a conscientização política sobre o cenário atual do skate é uma das formas de preservar a essência da cultura, mesmo em meio ao conflito mercadológico. A saída para minimizar esse apagamento cultural passa pelo diálogo, pela manutenção da história e pela memória das lutas. O skate sempre foi um movimento contracultural, e o skatista, por sua vez, se tornava tanto mais politizado quanto mais integrado à cultura. Esses valores precisam ecoar dentro do movimento, para que os novos skatistas compreendam a que tradição pertencem, assumam um posicionamento e entendam verdadeiramente o que significa o skate.


Como vocês veem a urgência de politizar e conscientizar os skatistas para proteger essa cultura?
Vitor: Um ponto importante é que, antes, tínhamos menos recursos, éramos discriminados e a visão que as pessoas tinham dos skatistas era bem diferente. Agora, com mais recursos, o skate é considerado um esporte olímpico, é aceito pelas pessoas, e mais crianças querem andar. Então, por que precarizaram os eventos em vez de melhorá-los? A conscientização é nesse sentido. É necessário falar sobre essas questões para os skatistas, especialmente os que estão começando, para que entendam o que está acontecendo na nossa cultura. É fundamental conscientizar a galera para que comece a andar de skate com o sentimento certo, mostrando que o skate pode mudar a pessoa e formar personalidade. O mais importante é que um evento não deve definir você enquanto skatista, nem fazer você olhar para seu amigo com maus olhos. Conscientizar é propagar a essência do skate.
Neto: Acho que o mais importante é o contato presencial, porque o Instagram, o celular, alienou muito os skatistas. Estão cada vez mais distantes uns dos outros. Não sabem o que acontece dentro do skate, ficam olhando likes e essas coisas e não se aproximam uns dos outros. O primeiro passo para conscientizar os skatistas é ocupar os espaços burocráticos. Sei que é chato, mas alguém de nós tem que ocupar. Não adianta ser só um conhecido, tem que ser alguém que entende o que é o skate de verdade. Precisamos tomar esses lugares, seja na associação da sua cidade, seja na Federação, porque, pra dar certo, precisa ter skatistas nesses lugares. Então, a conscientização é muito importante pra nos tirar da comodidade. Fazer o melhor na nossa área. Aqui na minha cidade tem nove associações, na real mais de nove associações de futebol. Os caras já têm duas vans, conseguem emenda parlamentar, e o skate aqui na minha cidade não tem nenhuma. Porque alguns malucos antigos não trocam ideia com os malucos mais novos. Os mais novos já não estão muito interessados em fazer esses bagulhos, os antigos também não estão com muita disposição. Falta isso: conscientizar o skatista a estar nos lugares certos e disposto a fazer o bagulho ir pra frente. Porque vários caras podem ensinar os mais novos as manobras, mas se não passar a visão do que é o skate, do que adianta? A intenção nossa não é passar por cima de ninguém, nem desrespeitar a caminhada dessas pessoas que já fizeram o corre. Agora, se infelizmente elas estiverem envolvidas com essa patifaria, estamos contra — e contra quem estiver junto.
Outro ponto importante: tendo em vista que o skate vai muito além de um esporte tradicional onde já faz parte da cultura julgar o desempenho por notas, como vocês enxergam a avaliação dos juízes nos campeonatos?
Vitor: O juiz de um campeonato de skate deve ser um profissional que, pelo menos, tenha uma parte. Não esses caras que falam que são profissionais de não sei quantos anos atrás e, quando você vai procurar uma parte, não tem nada. Só assim ele entende o que é skate e como vai julgar outros skatistas. Não pode ser só status de pro. Isso vai dar uma noção pra ele ser justo. O cara realmente tem que ser skatista, porque ele vai estar interferindo no sonho de vários skatistas. Precisa ter responsabilidade. Não é brincadeira.
Após este evento, qual é o próximo passo?
Neto: Continuaremos fazendo o que sempre fizemos: pelo skate, pela cultura e pela nossa cena. Sempre buscamos reunir a galera, incentivar os moleques a se dedicarem, a não ficarem esperando tudo pronto, mas a colocarem esforço e sangue no que fazem. Queremos juntar as marcas underground de verdade, que somam para o skate, e criar um circuito nosso. Pode ter certeza que vai atrair muito mais skatistas e será muito mais da hora.
Vitor: Fazer coisas diferentes, como construir rampas e ocupar mais espaços. Essa é a ideia. Colar em cidades pequenas de Minas que nem têm pista e levar os obstáculos até lá. Porque persistência é isso. Somos uma marca, mas ainda não temos um full video. Nosso trabalho é mais social mesmo. Não é só quem é da marca que participa das nossas atividades, e prezamos por isso: fomentar o skate, nas pistas, nos campeonatos e na rua. Acho muito da hora o que o skate é capaz de fazer em projetos sociais. Aqui em Varginha, por exemplo, há bairros periféricos em que a criançada enfrenta várias dificuldades. É incrível quando o skate consegue abraçar essas crianças e apoiar essas causas. Queremos ser uma marca que mostra o potencial transformador do skate, que propaga ideias e não apenas produtos.

Por fim, gostaríamos que vocês deixassem uma mensagem para os skatistas e para quem deseja organizar eventos de skate.
Neto: A primeira ideia que eu tenho pra falar pros skatistas é enxergar o nosso verdadeiro valor. Descartar esses eventos que não valorizam os skatistas. Esses caras nos jogam migalha e depois nos chamam de ingratos.
Vitor: A ideia que quero lançar é que precisamos nos dar mais valor, rapaziada, e conscientizar o máximo de skatistas possível para enxergarem isso também. Olhar mais para os eventos independentes, os corres que são pelo skate mesmo, sem patifaria. No final, quem realmente ajuda a nossa cultura são essas pessoas. As grandes marcas não dão voz para nós, não querem nos ouvir, não dão atenção. Não entrem nessa onda de gourmetizar o skate. Comecem a se valorizar: suas manobras, seu esforço, seu lifestyle e, claro, a cultura que envolve tudo isso. Respeitem sempre quem faz por amor, sem esperar nada em troca. Não se diminuam para entrar em lugar nenhum. Para os organizadores, não cheguem querendo diminuir nenhum espaço. Sempre pensem pelo lado do skatista, que precisa viajar, manobrar, e muitas vezes enfrenta dificuldades para participar. Muitos campeonatos acabam muito tarde e muitos skatistas não têm transporte de volta, o que gera mais despesa. Organizem o evento de forma justa, acolhendo o skatista da melhor forma possível. Sejam sinceros. Não precisa de inscrição abusiva nem premiação ruim. Se não for possível oferecer algo digno, é melhor nem fazer.



Deixe uma resposta