Produzido por Gus e Paulo, do grupo Carlton, o vídeo Flerte! é uma lente de aumento sobre a cultura urbana e a vivência periférica de quem faz do carrinho uma forma de expressão, resistência e criatividade. Desde o primeiro take, a obra deixa claro: o skate, longe dos holofotes e da estética vendável, segue sendo uma ferramenta política e afetiva para quem ainda acredita no poder do coletivo. Conversamos com eles sobre o skate local, os processos de produção e a trajetória do Carlton, coletivo da zona oeste de São Paulo, em Osasco.
A essência das ruas presente no vídeo é inspiradora para os skatistas que ainda seguem esse caminho, mantendo viva a raiz do skate de rua. Cada take traz uma nova percepção sobre o que realmente é a cultura do skate. O uso de lugares inusitados, a criatividade de cada skatista em reinterpretar os espaços, chegando a usar até árvores como obstáculos, valoriza ainda mais nossa forma única de ver a cidade, ocupando-a de forma legítima, mesmo quando essa legitimidade é negada por leis, grades e seguranças.

Gus: “O nome Flerte! nasceu por um flyer que o Paulo me mandou. Foi engraçado, porque no vídeo anterior (“Para não dizer que eu não falei das flores”, lançado em setembro de 2024), eu que dei a ideia em uma ligação voltando do trampo. Esse título meio que engloba o que eu queria passar: flerte com ideias e propostas diferentes. Não só no skate, na vida em geral.”
A mistura de elementos no vídeo reflete exatamente isso: um flerte com o inesperado. As músicas, os picos, os skatistas e as situações mostram uma diversidade que foge do padrão das grandes produções de skate. Não há preocupação com glamour ou com validação externa. Pelo contrário: a essência do Flerte! parece repelir justamente aqueles olhares estranhos dos transeuntes comuns.
Gus: “Meu objetivo, colocando esse nome no projeto, é tentar fazer o pessoal flertar com as ideias do vídeo, flertar com uma estética e com músicas diferentes. A parte do Caíque Modesto é o que mais mostra isso, ninguém nunca espera um mano todo gangsta andando ao som de Cocteau Twins. As músicas do vídeo englobam bem tudo que a gente gosta: punk, emo, MPB, eletrônica, jazz. Eu já experimentei até colocar sertanejo no meu primeiro vídeo, Futsal!.”
Essa mesclagem sonora não é aleatória, faz parte da identidade. Ao som de Roberto Carlos com a faixa “Imoral, Ilegal ou Engorda”, fica clara a mensagem de Flerte!. O vídeo reafirma o esforço constante de integrar o skate à cidade, mesmo diante da moralidade dominante que insiste em nos empurrar para espaços “apropriados” e “seguros”. Atitudes contraculturais acabam sendo rotuladas como “ilegais” ou “prejudiciais”, mas apenas aos olhos de quem não entende que os integrantes da Carlton estão, na verdade, ativos e conscientes diante dessa posição social. De certa forma, assim como Roberto Carlos expressava em sua música, o vídeo também confronta o que é considerado aceitável.
Paulo: “Todo movimento acontece coletivamente, acredito que essa é a síntese de qualquer ideia que temos. Às vezes, algum skatista soma com alguma trick só porque ele estava no pico. A participação por acaso dessas pessoas torna o projeto uma conexão. Não somos uma crew. Estudamos e pesquisamos a partir do skate. Qualquer um pode ser da Carlton.”

Por não se encaixar nos padrões tradicionais da sociedade, o vídeo vai além do simples entretenimento e torna-se um convite para que os adeptos mergulhem na rica e diversa cultura que só o carrinho pode proporcionar. Durante algumas manobras, nota-se a repressão de seguranças, como na cena inicial em que um deles, de forma hostil, expulsa os skatistas do local — uma situação infelizmente comum. Ainda assim, o grupo insiste em registrar a manobra. Isso nos mostra que um skatista, às vezes, é bem mais do que apenas skatista: é um agente de transformação, alguém que resiste, questiona e ocupa os espaços que a sociedade tenta restringir. Estão constantemente criando novos sentidos para a cidade. Essa resistência é fundamental no combate ao autoritarismo, a tentativa de controle de espaços públicos e a perseguição constante às expressões de grupos contraculturais.
Paulo e Gus: “Para quem mora em periferia é sempre mais difícil produzir algo. Eventualmente, acabamos sendo vítimas de uma expulsão de algum pico, mas nada muito diferente do habitual. E acho que, por essa visão negativa que todo mundo tem de Osasco, acaba até sendo mais fácil das pessoas lidarem com nós, já estão acostumados (risos).”
Essa naturalização do preconceito, da vigilância e da repressão é também material de reflexão para o grupo Carlton. Quando fazem uso dos espaços públicos da cidade, sabemos que incomodam muita gente. Além do skate, artistas gráficos (pixadores e grafiteiros), hippies e outros artistas de rua também enfrentam bastante repressão.
Paulo: “A repressão, seja policial ou social, é alicerce de muita coisa. A gente nasce sabendo que o sistema é ruim, mas sentir na pele é totalmente diferente, devido também, claro, ao lugar de onde viemos. Na rua, a gente sempre acaba tendo contato com outras manifestações artísticas e entende que também é um modo dessas pessoas falarem o que, muitas vezes, não conseguem, assim como nós.”

Para produzir um vídeo, é fundamental que o grupo esteja minimamente organizado. Alinhar teoria e prática exige uma vivência íntima dos espaços urbanos. É por meio dessa convivência com a cidade que se aprende, constantemente, a ressignificá-la, extraindo dela o que se deseja transmitir no vídeo. No caso de Flerte!, a divisão de tarefas dentro do grupo é bem definida, o que potencializa o resultado final.
Gus: “Eu sei que o Paulo gosta mais de editar, mas acho que prefiro a filmagem. Capturar o momento é bom demais.”
O trabalho nas produções audiovisuais de skate, muitas vezes, não é recompensado financeiramente, mas, ainda assim, a conclusão de um vídeo é gratificante por si só. Mais do que uma questão de dinheiro, há o reconhecimento entre os próprios skatistas, que se envolvem ativamente na construção dessas obras. Seja filmando nas ruas, organizando premières ou colaborando de outras formas, fazer parte dessa cultura já é a recompensa última. E isso fica evidente na forma como os integrantes falam da experiência.
Paulo: “Acreditamos que a única solução pra visão mercadológica do atual skate, em meio a tanta coisa que não condiz com o que o skate lutou por tanto tempo, é a produção coletiva independente. Produzam, façam acontecer pela sua área, façam suas premières e exibam seus vídeos nos lugares que vocês acharem melhor e não esperem que nenhuma marca note vocês. E movimentem-se sempre em conjunto, só assim dá certo.”


E, ao percorrer o universo de Flerte!, fica claro por que essa obra é tão necessária para a cultura do skate. Trata-se de um projeto que não espera que as coisas simplesmente aconteçam, que não busca aplausos nem validação do mainstream e, acima de tudo, que se recusa a se curvar à lógica do mercado. Estamos falando do verdadeiro espírito do skateboard: a vontade de experimentar, de ocupar espaços e de fortalecer a cena local. É sobre enxergar o skate sem filtro, sujo, diverso, livre e também político. E é exatamente aí que mora a essência do carrinho.


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