Muitos skatistas, principalmente os mais jovens, talvez não tenham tido o privilégio de vivenciar o hábito de colar diariamente em uma skate shop – seja para conferir as novidades, trocar ideia com outros skatistas, assistir a um vídeo recém-lançado ou simplesmente esperar o horário de sair para andar de skate.

As skate shops são, historicamente, templos sagrados para os skatistas. Mais do que pontos de venda, cumprem papel estratégico no desenvolvimento do skate local, na circulação de informação qualificada sobre a cultura e no fortalecimento do cenário da cidade, inclusive ao reivindicar melhorias junto ao poder público. Soma-se a isso um processo criterioso de curadoria de marcas que, de fato, contribuem para o skate nos âmbitos nacional, estadual e municipal. Diante desse contexto, é possível dimensionar a responsabilidade assumida pelo proprietário de uma skate shop.

Essa rotina ainda resiste em algumas cidades, embora em número reduzido. Em Viçosa, no interior de Minas Gerais, por exemplo, Mateus Araújo, o Chocs, está à frente da Cena Skate Shop, onde desenvolve um trabalho consistente na cultura do skate local desde 2021 e busca preservar a essência de uma skate shop de verdade. Aproveitando o mês em que acontece a sexta edição do Skate Shop Day, conversamos com Chocs sobre como ele direciona a loja na cidade, quais são seus propósitos e como enxerga o papel desse elemento central na cultura do skate.

Brenndel Ferreira: salve, Chocs! Então, antes de mais nada, queria que você falasse pra nós o porquê de abrir uma skate shop

Mateus Araújo: Foi durante a pandemia, quando voltei de BH pra Viçosa e, na sequência, o André Xim. Teve aquele boom das Olimpíadas, o skate em ascensão na mídia e tal… Daí o Xim tinha o contato com a galera de São Paulo: donos de marcas, pessoas envolvidas, skatistas das marcas, enfim. Então ele me deu a seguinte ideia: “tenho os contatos, vamos casar um dinheiro pra trazer peças pra Viçosa”. Aqui ainda não tinha skate shop, mas tem muito skatista e, por causa da Universidade Federal, sempre tem uma galera que vem de fora e que dá um rolezinho colando com a gente. E existia o medo de alguém fora do skate criar uma loja de skate ou começar a vender esses produtos sem autoridade nenhuma, só pensando no faturamento, e não fazer o que é o principal de uma skate shop, que é fomentar o skate, trocar informação, e isso, no interior, é muito importante. Isso já era uma parada que o Xim fazia quando morava em Juiz de Fora, e tem uma cena de skate muito forte. Ele sempre trazia pra cá informações, vídeos e produtos pra gente. E Viçosa é um lugar onde a gente tem uma certa credibilidade, porque andamos de skate há muito tempo. Então acho que esses foram os pontos que incentivaram muito a gente a assumir essa bronca.

Brenndel Ferreira: como tem sido a experiência de manter uma skate shop numa cidade que não tem uma pista de skate? Quais são as dificuldades de vender skate para uma molecada que não conhece uma pista? 

Nesse sentido, tem dois públicos diferentes. O que a gente mais atua é a galera que já anda de skate, que tá na rua, porque aqui a gente anda na rua. Até existem pistas particulares e, na microrregião, também tem pistas públicas, mas é mais rua. A gente tenta influenciar fazendo eventos, mesmo que sejam aqueles eventos mais simples, tipo festa na loja. A galera se junta ali, principalmente no final do dia, depois do trampo passa na loja pra ver as novidades ou só pra trocar uma ideia mesmo, tomar um café ou umas brejas. Isso, pra mim, é o principal das skate shops: ser um lugar onde a gente troca informação, ouve a galera falando sobre vídeos nacionais. Geralmente a molecada mais nova tá muito nessa mídia de massa, de skate de alta performance, campeonato, mas existe a essência e a história também, o que veio antes e influenciou tudo o que temos hoje. O outro público é a molecada que tá começando a andar de skate. Esse eu acho que é o mais difícil, porque aqui não tem uma pista, um local onde os pais possam deixar os filhos, sentar na sombra, ler um livro e ficar de boa, enquanto a gente tá ali ajudando e ensinando, porque isso acontece nas pistas de skate. Esse é o gargalo da nova geração do skate viçosense: não existe um lugar seguro para meninos e meninas andarem. A galera acaba indo andar na Universidade, que é um espaço onde o skate nem é tão bem aceito.

Ivan Lopes: você acha que se aí tivesse pista de skate, venderia mais, mano? 

Com certeza. Talvez abrisse até espaço pra uma outra skate shop. Porque tem muita marca pra ser trabalhada, que a gente não dá conta. Já vendemos muito skate montado pra criança, mas não vemos essas crianças andando na rua com a gente. O pai não vai largar a criança ali na rua no sabadão ou no domingão que ele tem pra descansar, né? Uma pista pública muda isso. O pai vai na hora que der, ajuda a criança a andar e tal. A partir daí, a criança pega gosto: vai querer um tênis legal, vai querer que o skate corra mais, vai comprar uma rodinha melhor, um rolamento melhor. E isso mantém o mercado girando. E, como skate shop, vamos orientar os skatistas a consumir marcas legítimas. Isso vai nutrindo os skatistas de informação. E, se tivesse uma pista, provavelmente teria mais skate shops aqui.

Ivan Lopes: e, devido à ausência de uma pista na cidade, os adolescentes e crianças que começaram a andar sem essa referência, você acha que eles cresceram entendendo o skate de outra forma?

Sim, consigo pensar em alguns exemplos interessantes. Um amigo nosso mesmo, que veio estudar na UFV e começou a gostar de skate com 17 ou 18 anos, já está andando legal. Só que tem essas referências da Street League, dos atletas da Nike… Uma visão mais atleta e menos do que eu vejo, que é mais artística. Acho que o skate está mais ligado à cultura do que ao esporte. Eu acho da hora os campeonatos porque além de ser uma outra forma de andar de skate, também gera retorno pros skatistas, com premiações altas. Mas tem toda a essência que criou tudo isso e que é muito mais legal: o skate de rua, o skate criativo. Eu aposto muito mais nessa linha.

Brenndel Ferreira: como você falou do boom das Olimpíadas, gostaria de puxar esse gancho. A gente estava lendo recentemente uma matéria na Black Media contando se realmente existiu um efeito positivo nas skateshops após as Olimpíadas. A maioria disse que não foi isso tudo, e em alguns casos não mudou praticamente nada. Também tem o mercado que está cada vez mais voltado pro digital e menos pro presencial… eu queria saber, então, como que vocês fazem para você conseguir manter uma skate shop física mesmo nesses tempos tão hostis que a gente tá vivendo.

É uma montanha-russa, total. A gente segue uma filosofia muito pesada que o Xim sempre tocou desde o início: manter a essência do skate, incentivar a galera, estar na rua andando de skate, promover eventos, ajudar a molecada que tá evoluindo. Tipo, dar um shape pra quem tá precisando, um tênis, o Xim sempre puxou muito isso. É da hora ver que a molecada fica mais empolgada pra andar e tal. Mas, realmente, falando das Olimpíadas, teve uma procura alta de pais e crianças, mas acho que foi só uma bolha que estourou, sabe? Acabou que um tanto de marcas e de skate shops estão fechando as portas porque a galera não consome muito das lojas de skate, principalmente as físicas. Por isso que o Xim e eu batemos nessa tecla: a gente tem que estar sempre promovendo alguma coisa. Tem que estar na rua andando com a galera, não por obrigação, a gente gosta. É aí que esse laço vai acontecendo, sabe? Por exemplo, o gerente do meu banco comprou um skate pro filho dele, deu um rolê com o filho, viu a gente andar, achou mó legal, comentava os vídeos que a gente soltava na página, tanto do pessoal quanto da loja… e já parou de andar.

Brenndel Ferreira: pra sustentar uma skate shop, então, manter a essência como a principal estratégia, é o que ainda funciona pra contornar esses percalços? 

Sim, mas tem um parênteses grande nisso. Por exemplo, a gente promove muitas festas pra ajudar na questão financeira. Daí a gente vende chope que tem uma liquidez bem mais rápida; fizemos o pré-carnaval e vendemos 150 litros de chope, pra você ter uma ideia. Isso traz uma galera que não anda de skate, mas curte a cultura de rua no geral. A gente fornece eletricidade pra batalha de rima que tem na pracinha em frente à loja, porque a prefeitura bloqueou o ponto que eles tinham de luz pra ligar a caixa de som e o microfone. É uma atmosfera que tem nas skate shops – e acredito que muitas outras também tenham isso –, essa comunidade unida. Porque o faturamento não é muito dos skatistas, é mais dessa galera agregada que acha foda os produtos. Então, acho que é esse movimento de trocar ideia com a galera, de unir os movimentos de rua, de estar na rua… E isso sustenta a loja também. 

Waldir Anthony: queria saber um pouco sobre qual o papel das marcas em somar com as skate shops. Vimos que vocês já fizeram première dos flanantes e da Internüs. O quão importante é isso pra você? Queria saber um pouco mais dessa ideia das marcas serem mais atuantes em questão de promover eventos, patrocinar… algo que era comum há um tempo atrás, mas que hoje em dia já não se vê tanto. 

Verdade, tinha as demos, né? Acho que, por causa do digital também, isso foi se perdendo. O Xim é muito amigo dos caras; ele hospedou os caras na casa dele, tanto a galera da “Internüs” quanto dos Flanantes. E isso traz uma chama pra molecada e pra nós. Eu já andei com o Gal e, todas as vezes, é muito da hora. E, cara, ter uma première, fazer a molecada sentir aquilo, falar sobre o projeto, isso traz um ânimo absurdo. As sessões de skate depois ficaram mais recorrentes, tem uma pegada a mais. E sempre a gente comentando sobre o vídeo, trocando ideia de como o cara anda e tal. Isso é muito foda. E eu não vivi isso. Só teve uma skate shop raiz em Viçosa e, nessa época, era só 411 – e já era bom pra caralho.

Waldir Anthony: as marcas devem apostar mais nisso, né? Para poder incentivar mais a cena local.

Vou ser muito sincero. Todas as vezes que a gente chegou com uma ideia mais elaborada, concreta, com um planejamento mínimo, as marcas sempre ajudaram com alguma coisa, sabe? Nem que seja desconto nos boletos. Eles falam: “coloca os produtos que você tem aí no estoque, a gente abate no boleto”. Fizemos isso algumas vezes nos eventos de skate. Só que a gente nunca fez um campeonato de verdade; sempre é um rolê livre, com premiação. Eu acho que o mais importante é a molecada conhecer o tanto de skatista foda que tem no Brasil. A “Future”, por exemplo, é uma marca que apostou na gente desde o início. Mas todas sempre ajudaram quando a gente precisou de algo. Eu me coloco muito no lugar delas também, porque o skate nacional é caro e é difícil de manter a produção, até pra competir com outras marcas, principalmente as marcas locais. Em várias cidades tem marcas que produzem os próprios shapes, e isso é muito legal também. Então, penso que tudo que vem pelo skate é muito bem-vindo. Tenho muita consideração por essas marcas. Estamos trabalhando com a “Internüs” já faz um tempo, e ela sempre ajudou muito na flexibilidade para fazer os pedidos. Assim como outras marcas nacionais como a “Improve”, “Future”, “Crail”, “Narina”, Tupode” e outras… A mais recente, “Tropicalientes” também foi uma marca que teve um diálogo muito aberto e sincero com a gente. E tem umas marcas gringas aí que é foda: os caras têm uns processos muito burocráticos, pedido mínimo alto, grade fechada… Muitas vezes, pra gente que é do interior, que não tá dentro de um shopping, é complicado. Eu tenho muito mais satisfação em falar das marcas nacionais. Por exemplo, quando um cliente chega lá que não anda de skate, não conhece, eu falo: “foi produzido por tal marca brasileira”. E, às vezes, tá rolando até o vídeo da marca na TV. Mostro que os caras andam de skate, que o produto é bom. E, assim, essas marcas nacionais não têm muito investimento em marketing ou em produção audiovisual, então é difícil cobrar essas coisas. Então não custa nada a gente como skate shop propor algumas ações em parceria com as marcas ou simplesmente pedir uma ajuda para algum evento.

Waldir Anthony: por falar de audiovisual,  vocês estão produzindo algo? Vejo que a galera de Viçosa gosta de uns vídeos bem trabalhados. As coisas que eu tive acesso do audiovisual daí foram muito bem feitas. Queria saber se vocês estão produzindo alguma coisa. 

A gente tá pecando muito na produção de vídeo de skate de rua. Porque todo mundo tem seu trabalho, estuda e não tem tanta flexibilidade de horário pra gravar. Mas a gente pretende, já temos um materialzinho guardado. E também temos um projeto que vamos dar o pontapé inicial este ano. A ideia é fazer uma viagem pelo interior aqui. A gente quer ir, principalmente, pra estreitar esse laço com a microrregião, que já somos amigos de muitas décadas, de várias gerações de skate. 

Ivan Lopes: então, mano, queria saber um pouco dos critérios que você usa pra escolher quais marcas vocês vão vender. É pelo que a galera pede ou o que?

São horas de discussões. O critério principal é ser uma marca de skate com pelo menos o mínimo de presença no cenário do skate nacional. Ter um time legal, produzir coisas legais… Estamos testando várias marcas na loja, principalmente as nacionais, que a galera não conhece. Volcom, DC Shoes e Element são marcas que já estão no imaginário dos adolescentes da nova geração. Mas tem muita coisa legal acontecendo aqui no Brasil. Por exemplo: “Tropicalientes” nasceu de uma crew com vários nomes da hora que se juntaram pra fazer uma marca. Acho que esse é o critério – e também a questão do posicionamento da marca. Tivemos propostas de marcas que não fazem sentido pra nós nem estão alinhadas aos nossos valores. Vou citar aqui uma: Cariúma. Uma marca que tem brasileiro envolvido no negócio e não tem um time nacional? Não, não faz sentido. O principal critério é ter uma galera que anda de skate pra marca.

Ivan Lopes: perguntei isso porque já conversei com donos de outras marcas que disseram que parou de vender em certas skate shops porque não queria que a marca dele estivesse junto com marcas de streewear que não tem esse comprometimento com o skate. O espaço das skate shops, antigamente, era exclusivamente do skate. E você mantém isso. 

O mesmo representante que representa uma marca de skate tem umas marquinhas nada a ver que até fazem umas estampas da hora, mas não é isso que a gente quer vender. A gente quer vender a essência do skate: uma marca de skate que vai incentivar outros caras a andar, que vai fazer uma tour, que vai vir aqui fazer uma demo – ou que seja cafona como uma tarde de autógrafos. Quando eu era moleque, ficava apaixonado assistindo essas demos em skate shop nos vídeos da 411VM. As skate shops aqui no Brasil também tiveram esse rolê. Lembro que, em Juiz de Fora, teve aquele circuito da Volcom, “Animais na Pista”. Foi o Biano, Ricardo Porva… só monstro! Eu queria estar lá, galera ganhando pôster, isso é foda. A Hocks fez isso no final do ano passado, apenas nas skate shops do Paraná, mas rolou best trick, brindes, autógrafos, foi legal. A New Balance está fazendo muito isso nos Estados Unidos, que é outra marca que a gente tem a abertura de poder comprar, mas ainda não fechamos. Porque, assim, o que aconteceu com a DC Shoes aqui na loja foi que eles só jogaram a marca aqui. Mas cadê os adesivos pra molecada? A gente só comprou a parte de skate importado, os tênis mais caros que tinha na loja. E a marca simplesmente empacou dentro da loja. Não adianta só o histórico passado dela, tem que manter e evoluir.

Waldir Anthony: e é um jeito também de apresentar as marcas pros skatistas.

Eu aqui no interior nunca tive isso, e a Cena proporcionou isso pra molecada. Mas, no período em que fiquei em BH, foi muito massa: colei nas sessões de rua com os caras que eu admirava. O Jay Alves, velho! No primeiro dia eu quase passei mal; quase pedi um autógrafo (risos). E isso eu vi isso nos moleques lá na loja com o Gal, o Leleta, o Murilo Romão, o Baraka, e isso dá um gás na gente, é indiscutível. 

Brenndel Ferreira: uma das estratégias propostas pelo Skate Shop Day é motivar as marcas de skate a investirem em produtos exclusivos para skate shops, de modo que essa exclusividade atraia o público a consumir dentro das lojas. Você acha que isso impactaria positivamente as skate shops? Porque a Nike, por exemplo, vende em skate shop, mas também vende em lojas de Shopping. 

Sabe o que é pior? É as skate shops de shopping introduzir marcas de streetwear que não agrega em nada, sacou? Só vai canibalizar nosso mercado do skate. Em vez do cara chegar ali na loja e ver uma marca de skate da hora e escolher, vai ficar em dúvida entre uma marca que não tá nem aí pro skate, que só quer faturar, e uma marca que tem uma história e contribuição pra cultura.

Ivan Lopes: é quando o foco do dono da loja é o simpatizante. Quando ele abre para as marcas de streetwear fora do skate ele tá pensando só nos simpatizantes.

É, tem esse lado. O cara quer vender, eu não vou ficar julgando, não. Mas, assim, eu acho que, se eu levar, tipo, a Approve, a Blunt – já chegaram vários clientes perguntando: “vocês vendem Blunt? Vocês vendem Approve?” – não vendemos porque não é marca de skate. “Ah, mas eu vi…” Não, não é marca de skate, ponto. Olha essas aqui: “Future”, “Improve”, “Tropicalientes”, “Hocks”, “ÖUS”… tem marca pra caramba. A skate shop tem que ser um lugar onde todo mundo vai encontrar essas marcas, né?

Waldir Anthony: é preciso fomentar, ainda mais hoje em dia, que é muita informação. Se você não tem uma atuação mais incisiva, talvez não consiga chegar nas pessoas.

É esse ponto aí que colocou marcha na gente: evitar que algum empresário de Viçosa, que já tem loja, venda peça de skate. E a gente, enquanto skate shop, tem esse papel de levar a informação correta, tipo: ande de skate e se divirta, compre dessa marca que realmente valoriza a cultura, assista à 411VM, “64” Brasil, olha os caras lá em 2000 e pouquinho, e já davam todas.

Brenndel Ferreira: imagino que sua experiência do lado de fora do balcão da skate shop seja bem diferente da vivida do lado de dentro. Fale um pouco sobre como sua visão mudou desde que você se tornou proprietário de uma skate shop. 

É igual a qualquer trabalho: tem os pepinos e é preciso defender seus valores ali também. Mas, no final, é muito prazeroso, sabe? Estar ali, trocando ideias, não só sobre skate. Como eu falei, cola gente de tudo quanto é jeito: estilo musical, conhecemos bandas que nem imaginávamos que existiam, pessoas com hobby totalmente diferente do nosso, um cara que está fazendo doutorado de sei lá o quê. Então, isso traz conhecimento mesmo, que vai além do skate, que eu acho que sempre é o pontapé de tudo. Vejo que a skate shop é um ambiente de informação e diversão. Também tem a parte política. Só de estar andando de skate já é um ato político. Você está exercendo seu direito, sua liberdade, usufruindo dos ambientes e fazendo parte da sociedade. Aqui tem essa questão de não ter pista. Então, a gente sempre andou na rua: na frente da casa de alguém, na escada de um prédio particular, dentro da UFV, uma das melhores universidades federais do país. Eu vejo muito que a skate shop mudou um pouco esse olhar da galera, sabe? As pessoas procuram a loja pra fazer parceria, porque aqui é uma cidade universitária. Então tem muita festa, calourada e tal. Às vezes as atrações que vão aos eventos não fazem o menor sentido, mas isso é legal porque as pessoas já estão tendo um outro olhar sobre o skate e a loja. A gente não é só vagabundo (risos). Temos um leque de outras qualidades que são construídas através do skate, lidando com frustrações. O skatista tem que lidar com o processo de aprendizado, a manobra; tem a parte social; política; cultura e arte. É o esporte individual mais coletivo que existe, você vê o show que o skate deu nas Olimpíadas, todo mundo vibrando pela manobra um do outro e tal. Um puxa o outro, e isso é o mais foda do skate, que a galera está começando a entender agora.

Brenndel Ferreira: é isso, muito obrigado pela conversa. O espaço é todo seu. Fique a vontade para falar sobre algo que não perguntamos. 

Já falei bastante (risos). Foi massa trocar essa ideia. A gente sempre acompanha o trabalho de vocês lá na loja e eu acho que, ainda mais pra gente que é mineiro, lá na Cena a gente também faz questão de compartilhar o trabalho de vocês pra galera conhecer. E vocês fazem essa ponte de mais informação ainda, né? Informação pura e de qualidade. E a gente vai ser esse veículo aí que vai levar mais informação pra galera. Obrigado.

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