Nas grandes metrópoles, a guerra simbólica e política pela reivindicação dos espaços urbanos fica escancarada. Por parte da burguesia, há um enorme esforço em expulsar os “indesejáveis” desses espaços: pessoas em situação de rua, pixadores, skatistas, prostitutas, usuários de drogas, artesãos e demais trabalhadores informais que atuam nas ruas, praças e calçadas da cidade. As propriedades urbanas não servem mais como abrigos, pois estão reféns da especulação imobiliária. Com o apoio de políticos, marginalizam-se os usuários que fazem uso dos espaços de forma contrária à lógica dominante, criminalizando suas práticas em benefício de uma minoria de empresários. Pessoas são removidas para dar lugar a carros e à mercantilização de espaços públicos e privados, criando, assim, uma cidade-mercadoria.
Em resposta a esse processo de exclusão, Raideno — tatuador, grafiteiro, pixador, pintor, skatista, punk e artesão — faz parte do front dessa guerra. Seu personagem, sarcástico e transgressor, ocupa os muros do centro de Belo Horizonte como forma de resistência e contra-ataque. A ressignificação de espaços urbanos pelas mãos de Raideno transforma a cidade em uma imensa galeria a céu aberto. Isso, por si só, já provoca um efeito contrário sobre a lógica neoliberal, que censura a arte e a cultura periférica, oferecendo à população apenas uma produção artística pasteurizada e controlada. Ainda que seus graffites não carreguem explicitamente as críticas de Raideno ao sistema, presentear os muros cinzentos com a invasão do seu personagem desperta, muitas vezes, um olhar crítico nas pessoas que circulam pelas ruas. Nesse confronto simbólico, cada mente que, ainda que por um breve momento, se desaliena, representa uma vitória. Identificar-se com a obra de Raideno e, a partir disso, refletir criticamente sobre a sociedade é um passo importante na provocação da rebeldia dos oprimidos.
Foi através do punk que Raideno encontrou sua liberdade de expressão e absorveu profundamente a filosofia Do It Yourself. Sua visão se associa ao pensamento anarquista, incorporando o anti-mercantilismo, a ajuda mútua, o esforço coletivo e práticas sociais alternativas como estilo de vida. Essa independência permite que ele explore seu potencial de forma livre e autônoma. E, embora viver do que se ama seja um privilégio, é necessária uma dedicação incansável para alinhar expressão, produção e o gerenciamento de seu próprio trabalho.
O trabalho de Raideno é amplo e carrega uma experimentação criativa — e, por vezes, crítica — sobre onde deixará seus rastros. Seja nos muros, na pele de alguém, em camisas, porcelanas, capas de discos como foi com “Baile” do FBC ou outras superfícies, ele prova que seu lema “Never Die” é também o seu legado. Recusa conscientemente, e de forma política, o rótulo de “artista” e reafirma seu compromisso com o trabalho manual. É com essa mente subversiva e agitada que nos guiaremos para entender a cidade por uma perspectiva original: a de quem realmente ocupa os espaços públicos e resiste aos avanços desse sistema moedor de gente.

Waldir Anthony: Salve, Raideno.
Raideno: Salve, salve!
Primeiramente, gostaria de saber de você: o que veio primeiro, a arte, o skate ou o vídeo?
Mano, o primeiro contato com arte que eu tive foi a porcelana. Que eu via minha mãe fazendo, tá ligado? Acho que esse foi o primeiro de tudo. Eu lembro de quando era criancinha, e minha mãe tinha dado uma pausa no trabalho pra poder tomar conta de mim, que era o seu segundo filho. E, pra ela não ficar totalmente parada e ter uma renda extra, começou a mexer com porcelana. E foi esse o meu primeiro contato. Querendo ou não, sempre pegava no pincel pra pintar alguma coisa. E a partir daí, eu fui para as outras superfícies, comecei a pintar no papel e depois passei para o lápis. Então, o meu primeiro contato com a arte foi através do desenho e da pintura.
Então, daí que vem a ideia de você se intitular “Artesão”, né?
Isso! Muito por causa disso também. Acho que o termo “artista”, hoje em dia, diante desse bombardeio de informações, títulos e méritos que a sociedade dá pra todo mundo, acho que o artesão acaba sendo um sinônimo de resistência. Tipo assim, fazer com as próprias mãos, criar com a própria mente, e não com uma Inteligência Artificial. Então, assim, prefiro que me coloquem como artesão do que como artista. Até porque, todo trabalho que faço é manual, sacou? Uso a máquina pra tatuagem, por exemplo, mas é feito com minha mão. O desenho que faço por encomenda é feito à mão. O quadro é feito à mão. O graffiti é feito à mão. São poucos os casos que mexo com Photoshop, que é uma parada que eu já mexia muito. Que também é feito à mão, mas é através de uma máquina, entendeu? (risos).
Pode crer, digitalizado, né? Uma outra perspectiva.
Sim!


E agora, falando um pouco do seu personagem, quando ele surgiu? Eu sei que foi uma evolução, né? Você já desenhava personagens.
Sim, mano. Acho que a pira do personagem veio desde criança. Meus desenhos de moleque, tipo, de 6, 7 anos, já era um tanto de personagem. Normal de criança, né? Toda criança desenha uns monstros. Mas aí, sei lá, não saí disso. Então, veio desde criança. E foi uma evolução do caralho, porque eu peguei o que eu desenhava, que era uma cara meio quadradona, com o bocão aberto e tal, os olhos fechadinhos, um terceiro olho, sem orelha, sem nada, só um quadrado parecendo um pedaço de carne. E aí foi evoluindo, só na prática do desenho mesmo, sacou? Tipo, na necessidade de abrir mais o olho, fechar mais a boca (risos). Se ficar mais atento, vai ver que é uma relação totalmente pessoal. Eu acredito que só chegou no que é hoje porque hoje estou me sentindo assim. Antigamente ele era mais esparradão porque eu sentia mais vontade de gritar. Hoje em dia, precisa ser mais estratégico. É bem louca a analogia com o sentimento.

E então, puxando esse gancho, sua arte revela uma familiaridade gráfica com o Heavy Metal e textos sarcásticos. Como surgiu esse fascínio por esse estilo?
Acho que esse fascínio entra na minha vida a partir de duas coisas, que é o que me formou como ser humano: o skate e o punk rock. Na verdade, o rock em geral. O primeiro CD que ganhei foi uma coletânea do Black Sabbath. E com isso vinham diversos gráficos que eu ficava assim: “Caralho! Bagulho é dark, trevas” (risos). E aí eu comecei a gostar disso. Depois entra o skate, que traz essa atmosfera de destruição, como se fosse um monstro invadindo o espaço, marginal e romântico, tá ligado? E tudo isso misturado. Via os gráficos da Toy Machine, a caveirinha da Zero, e tudo isso me trouxe para esse universo. E, desde então, ouvindo rock pra carai e andando de skate pra carai, nunca consegui sair dessa bolha. Fui só aumentando o interesse e ficando cada vez mais envolvido.
Pode crer. E de que forma os grandes centros urbanos influenciam o seu processo criativo?
Assim, um centro urbano pode ser facilmente comparado, na minha concepção, ao caos dos pensamentos. Estamos o tempo inteiro nesse vai e vem, assim como a cidade funciona. No mesmo momento em que estamos aqui, de um lado, relaxando, felizes por ter acertado uma manobra na sessão, do outro lado da cidade tem alguém querendo pular de um prédio. E eu imagino a mente dessa forma, tá ligado? Pra mim, estar na cidade é a mesma coisa que explorar um universo do qual eu faço parte, mas que não é individual. Me ensina muito sobre ser coletivo; essa convivência coletiva, sabe? E me influencia muito no meu processo criativo justamente por eu entender que minha arte não é individual. Eu não quero pegar e fazer um quadro que só sirva pra eu me expressar. Eu quero comunicar com alguém! E acho que é por isso que vem a necessidade de fazer graffiti. Que aí, vou estar comunicando diretamente com a cidade, e não tipo assim: “Ah! Vou botar um quadro dentro de uma galeria e vou esperar as 800 pessoas que irão visitá-lo durante 2 meses.” Não! Quero que o bagulho esteja na rua e 1 bilhão de pessoas vejam por segundo (risos). A maior galeria que tem é a rua. Então, por isso me influencia muito. Tanto que, nos quadros que eu faço, sempre tem representação da rua. Sempre faço uma porta de aço, uma rua, ou uma delegacia explodindo, uns bagulho assim, sacou?
Você acha que as injustiças sociais que a gente vive te levam a se expressar por meio do pixo? Pra você, é uma forma de se comunicar com as pessoas, de denunciar essas situações? É um sentimento de revolta contra as injustiças?
Sim! De certa forma. Assim, não falo disso diretamente. Não estou lá sendo explícito, falando: “Sou contra o racismo! Sou contra a homofobia! Sou contra a pobreza!”. Não falo disso diretamente pela arte. Mas acredito muito no poder da imagem. Tenho um bom exemplo: eu sempre via o meu personagem atual — atual não, o de sempre — como uma forma de expurgar várias coisas ruins pra mim. E, através disso, comecei a ocupar vários espaços com ele. E por isso, já vieram pessoas até mim falar que “entenderam o recado”. Tipo: “Mano, eu vejo o seu personagem e sinto vontade de fazer”. Então, de certa forma, o protesto está nisso aí, sacou? Por isso eu falo que acredito muito no poder da imagem. Porque, se eu sinto e faço isso, desenho aquilo da forma que estou sentindo e boto isso no mundo, as pessoas irão sentir também. Eu acredito nisso. Por isso que eu acho que, às vezes, pode parecer muito forte o trampo: porque tem muito sentimento. Então, tudo isso que você me perguntou sobre as injustiças sociais estarem representadas nisso, eu acho que sim, mano! Porque o que eu desenho representa tudo o que eu penso.

Agora quero falar sobre suas parcerias artísticas. Queria que você contasse um pouco sobre como foi desenvolver a capa do FBC. Lembro que colei na sua casa numa época em que você estava desenvolvendo, em um processo bem orgânico, manual. Queria que você contasse um pouco desse processo.
Então, a capa do “Baile” foi tipo assinar o contrato de amizade com o Fabrício (risos). Porque sempre fomos muito amigos, desde o início de ambas as carreiras. E a gente sempre se ajudou muito, tanto com palavras, com trabalho, com força física quanto com dinheiro. Estávamos sempre apoiando um ao outro de diversas formas. Lembro que quando o FBC fez uma das primeiras músicas do álbum, ele me ligou e disse: “mano, tenho que mostrar uma coisa”. E aí ele colou lá em casa, me mostrou e falou assim: “você precisa fazer essa capa”. Primeiro porque a gente é amigo; segundo, porque ele acredita no meu trabalho; e terceiro, porque tinha tudo a ver com a estética que eu tava trazendo na época, junto com o que ele tava trazendo também, tá ligado? Tipo, eu tava desenvolvendo mais artesanato, fazendo trabalhos à mão, pintando muitos quadros, e o álbum traz essa estética toda dos anos 2000. Então, combinou muito bem. Foi um processo bem orgânico mesmo. Assim como você viu, ele me deixou bem livre. Ele me passou várias ideias, debatemos elas juntos, mas ele me deixou bem livre pra criar. Ele falou assim: “Mano, é pra colocar aqui o que você sente, tá ligado?”. E, a partir daí, eu tive a ideia de construir uma história, que era a história do álbum, só que de uma forma visual. Dá pra você ver que o álbum é um quadrado, mas dentro deste quadrado tem mais nove quadrados, que é o número de faixas. São dez faixas no total. E cada quadrado representa uma track do álbum. Criei a história dessa forma: percorre por dentro da favela, que são os becos das ruas de onde ele mora. A esquina é a famosa Sala VIP, ali do Cabana do Pai Tomás. Daí tem a rua que ele mora, que é do lado. E é isso, foi fluindo de uma forma bem tranquila de criação, apesar do prazo, da pressão da gente ter a parada pronta. Eu me permiti criar no meu tempo, tirava pra pintar 4, 5 horas por dia, mas tinha dias que eu ficava o dia inteiro pintando, às vezes eu pintava e depois amassava e jogava fora.

Vamos falar da CalleCrew, que é uma crew que você faz parte, né? Queria que você me contasse um pouco de como funciona esse coletivo, sei que são outros grafiteiros e pixadores que fazem parte e estão bem presentes nos muros aqui da cidade, Belo Horizonte, Contagem e região.
Então, mano, a CalleCrew existe tem 14 anos e vai fazer 15 esse ano. Foram eles que me adotaram, na verdade. Ela foi formada inicialmente pelo Killa e pelo PA, que foram dois professores meus do graffiti. Quando comecei a pintar, eles estavam sempre por perto, me ajudando, me dando dicas de graffiti, colando junto, me levando pra pintar junto. Já passamos perrengues juntos, indo pra delegacia. Enfim, os dois formaram, e depois entrou o Primo, depois entrou o Raique (NIC), depois de um tempo também entrou o Dhug da Quem, entrou o Flin também, que é o mano que mora lá na gringa, e por fim eu entrei. E desde 2014/2015 a gente já se conhecia e pintava junto na rua. Fazia sessão em casa, colava em casa e ficávamos fumando um baseado, desenhando, vendo “O Irmão do Jorel”, tá ligado? (risos) “Apenas um Show”. E aí, foi automático entrar pra crew. Para além dos quadros e tudo, é uma crew que produzia muito na rua, mas sem muito esse glamour de ser uma crew que tá produzindo, sei lá. Sempre foi feito por amor e por vontade de estar ali fazendo, sacou? E depois que entrei, modéstia à parte, eu que tava mais à frente dessa parte de vender os próprios produtos, fazer o seu próprio merchandising, fazer um pin, pacotes de adesivos. Os moleques já faziam isso antes, mas não com muita frequência. E eu vivo disso também. Então, eu trouxe muito isso pra crew também, pra gente poder fazer acontecer e, tipo, estar mais em exposições, participar de feiras gráficas, estar presente em galerias de arte. Alguns dos integrantes têm mais esse lado de conseguir participar de editais. Então, assim, eu acho que é uma família mesmo, que cada um ocupa uma função, mas tudo junto pra formar o Megazord e destruir a cidade (risos).

Aproveitando, então, quero falar um pouco mais sobre o graffiti. Têm vários murais em Belo Horizonte, e eu queria que você contasse uma história de algum que vocês fizeram e que te marcou.
Porra! Sim, sim. Esse ano é que a gente tá pegando pra fazer mais esses murais maiores. Porque foi esse ano que a gente arrumou extensor e escada, sacou? (risos). Antes não tínhamos. Então, através disso, sentimos a necessidade de fazer uns bagulhos maiores, porque o graffiti, você tá fazendo ali sozinho com a parede, cê vai do chão até onde o seu braço alcançar. Já pode ser grande isso, mas é da hora fazer um bagulho “bitela”, né? Daí veio a necessidade de fazer isso pra se ver de longe mesmo. Não tem tanto tempo que a gente tá fazendo esses muralzões. Porque, assim, o graffiti bomb são ações rápidas. E tem N histórias assim, tipo, uma que eu acho muito engraçada: teve uma noite que eu e o Killa estávamos andando na rua. Viramos essa noite pixando e fazendo graffiti. E a gente tava na onda, principalmente eu, de ocupar as portas de aço com placas de “aluga-se”. Essas portas nunca levantam, ficam sempre abaixadas de dia e de noite. Daí eu fiz uma lista com o nome das ruas e os números dessas portas. E viramos essa noite grafitando as porta de aço com placas de “aluga-se”. E aí, quando terminamos e estávamos indo embora, questão de dois quarteirões, viramos e nos deparamos com um tiozinho sentado, só ele e um pincelzinho escrevendo “aluga-se” numa porta. Tipo, não é nada demais, mas isso foi muito forte, porque eu vi e falei assim: “caralho! Se não fosse nós, o tiozinho não estaria fazendo isso” (risos). Porque era uma porta que a gente já tinha grafitado, e o cara estava refazendo a porta. Tá vendo, mano? Estamos gerando emprego pra sociedade através do vandalismo (risos). Mas no geral, cada rolê é uma história. Só de você estar ali, é como estar numa sessão de skate. Cê passa pelos lugares e, às vezes, você estaciona em um pico pra mandar umas manobras, pegar uma borda, daí aparece um louco ou uma louca, aparece um nóia, aparece um morador de rua. É sempre assim, tá ligado? E estar na rua fazendo graffiti é a mesma coisa. Cê fica ali 2, 3 horas pintando, passando o rolo no viaduto. Quando cê vê, sai um mano do lado do bueiro e fala: “eu moro aqui. Nossa! Vocês estão decorando minha casa”. Cada sessão é uma experiência.

E também tem a questão de ocupar os espaços, assim como o skate faz, né? Muitas vezes, esses lugares não são ocupados por outras pessoas, e aí o graffiti, o skate e a cultura de rua em geral acabam tomando esses espaços.
Sim, mano! Tem uma frase do Klaus Bohms que me marcou muito. Eu tinha 12 ou 13 anos quando li essa frase num anúncio da Cemporcento. Tava no shape dele. Era assim: “Ferramenta de reinterpretar espaços”. E, pra mim, é isso: o skate e o graffiti são essas ferramentas, a cultura de rua é essa ferramenta de reinterpretar e dar outro sentido ali pro local. Tipo, ver o mano saindo do bueiro falando “nossa! Vocês estão decorando minha casa”, que não é nada mais, nada menos que debaixo de um viaduto, isso é você reinterpretar o espaço. Teve um que a gente fez, que morava um casal do lado, numa maloquinha. E eles ficaram super felizes da gente tá fazendo a parada, só que o desenho era um capeta e uma caveira punk, tá ligado? CalleCrew 77, metal punk, o negócio todo terror. Aí eles falaram: “tem como vocês deixarem o nosso nome aqui do lado?” Então, tipo, de alguma forma estou reinterpretando o espaço ali. Não só pra eles, né? Pra cidade toda. Mas pra quem mais importa, que tá ali todos os dias, vendo um local que não é visto por todo mundo. E esse poder de transformação é muito foda.
Esse ano, eu vi que você fez algumas colaborações com marcas nacionais, como a Sigilo e a Tupode. Queria que você falasse um pouco sobre como enxerga as marcas de streetwear hoje em dia e como decide com quais vai colaborar.
Assim, eu vejo o streetwear atual numa grande guerra. Tem até uma camiseta que o Arroz faz que é o “StreetWar”, é uma grande guerra o bagulho. De ego, de presença, de dinheiro, de poder. Foi levando pra esse lado. Mas, ainda assim, permanece quem é a essência da parada, sacou? E quem tem a essência assim de roupa, de estilo, de skate, de graffiti, de som, de discotecagem, de criação, de tatuagem… quem se mantém assim, na essência, me inspira de alguma forma. E são essas as pessoas que eu procuro ter por perto do meu trabalho. Então, assim, colaborar com a Sigilo, mano, foi um dos ápices do bagulho. Tipo assim: “mano, [Rodrigo TX] é o cara que eu cresci vendo como referência”, querendo uma estampa minha. Não só uma, mas quatro. É assim que eu enxergo o que deveria ser a colaboração: você colaborar somente com o que você acredita e não pelo street business. Claro que isso é importante, mas se você se deixar ir só por essa parada, vai acabar se perdendo num lugar que não te pertence. Eu era só um cara que queria fazer arte e, de repente, estou ali colaborando com várias pessoas que eu nunca vi na vida, que nunca me ajudaram em nada, e tudo por causa de grana. Por isso que, pra ser bem sincero com você, eu recuso várias colaborações. Eu gosto de colaborar com coisas que eu acredito. Se você quiser uma estampa minha, você pode me pagar de boa, faço suave. Mas, daí, você paga pela estampa, toma ela aí e você usa como se fosse sua. Mas, se quiser usar meu nome, eu preciso me identificar com sua parada. Então, foi assim que surgiu essa colaboração com a Sigilo. Com a Tupode foi mais um lance desse de estampa mesmo, mas mantenho a ideia de que é uma parceria que eu me orgulho de ter feito parte, porque além de tudo que a marca representa, o nome “Tupode” é um dos nomes mais fortes que tem. Tu Pode, você pode, mano! Eu também acho! (risos).


Chegamos no final da entrevista, mano. Se você quiser falar alguma coisa que eu não perguntei, fique a vontade o espaço é todo seu.
Mano, só mesmo dar um salve geral. Agradecer à Rataria pelo espaço aberto. E dizer que, cada vez mais, a gente precisa disso. De pessoas dando voz para as pessoas. Correndo atrás de trocar essa ideia real, de ver o que está acontecendo em cada canto, porque tá tudo conectado, nós estamos todos conectados. E se a gente não tem esse espaço e não tem esses meios de se expor, de se mostrar, que sejamos esse veículo então. Fica aí, então, meu grande agradecimento à Rataria por ser esse veículo de comunicação entre a rua para a rua. E, no mais, é agradecer geral também que leu até o final (risos). E dizer que, se você tem a vontade de fazer a parada, mano, só vai lá e faz! Não tem nada nesse mundo que possa impedir. O máximo que pode acontecer é você assinar uns artigos de crime ambiental e depredação ao patrimônio público, mas fora isso o bagulho vai acontecer daquele jeito. Viva o skateboard, viva o punk e a anarquia!
Satisfação, meu mano! Obrigado.



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