Se você é fã de cinema, provavelmente já conhece a tradição de Alfred Hitchcock de fazer aparições em seus próprios filmes. No universo do skate, no entanto, essa prática é ainda mais comum. Podemos citar, por exemplo, as icônicas partes de Jamie Thomas nos vídeos da Zero Skateboards, ou as aparições de Ryan Ewing, o “Beagle”, nos vídeos da Baker Skateboards e companhia.

Seguindo essa linhagem de skatistas-diretores, João Victor “Sullindo” acaba de lançar sua videopart Chapéu de Couro — e não, não é uma referência ao lendário pistoleiro alagoano da família Novaes (sim, nós perguntamos isso a ele). A direção e edição são do próprio Sullindo, que, além de ser um skatista técnico e criativo, também tem um olhar refinado quando o assunto é vídeo de skate. Editar o próprio vídeo exige um certo grau de distanciamento, já que lidar com a própria imagem como obra de arte pode ser um desafio.

A primeira produção de João Victor foi feita com um iPhone 6s. Tanto as filmagens quanto a edição foram feitas nesse celular. O vídeo, intitulado Viva no Nordeste, é um excelente exemplo de como esse dispositivo digital, que divide tantas opiniões, pode ser bem utilizado. Mais do que isso, também demonstra a força de vontade de quem precisa ser seu próprio acesso. Viver fazendo o que se ama é uma tarefa árdua, que exige muita dedicação de quem se arrisca.

Quando vimos no Instagram o recorte de um Half Cab Noseslide to Frontside 180 Noseslide em dois bancos, soubemos na hora que havia algo especial ali. Entramos em contato com Sullindo para aprofundar um pouco mais em sua mente criativa e conhecer melhor esse jovem talento que, aos poucos, vem conquistando seu espaço.

Salve! Antes de tudo, muito obrigado, João, por aceitar este convite. Temos uma imensa satisfação em poder falar sobre o seu vídeo “Chapéu de Couro” e sobre o seu skate em particular, que já acompanhamos há algum tempo. Vamos começar pelo título do vídeo, “Chapéu de Couro”, que nos chamou bastante atenção. Descobrimos que existiu um pistoleiro alagoano conhecido como Chapéu de Couro. O nome do vídeo faz alguma referência a essa figura, ou veio de outro lugar? (risos)

(Risos) Pra falar a verdade, eu nem sabia desse pistoleiro aí. O nome “Chapéu de Couro” me veio à cabeça mais porque eu ando de skate usando um chapéu de couro, inclusive, até tem algumas imagens no vídeo.

Seu estilo visual é muito original e parece trazer elementos regionais. Quais são suas influências que te inspiram na hora de se vestir?

Então, às vezes eu sou bem aleatório. Cada época uso uns estilos diferentes. Gosto de comprar roupas em brechós e sempre resgato umas roupas que minha vó guarda, que não dão mais nela, e algumas do meu finado avô. E procuro também estar sempre confortável, né? Me sentindo bem e bonito, com certeza (risos). O kit tem que estar batendo, sair bonito nas imagens.

Logo na abertura você faz um drop no teto da Loteria Federal e, assim que aterrissa, a imagem corta. Quando volta, ouvimos o videomaker dizendo que a câmera desligou. Isso realmente aconteceu? Qual foi a situação ali?

Isso realmente aconteceu (risos). Estávamos filmando com uma PD170, usando um gravador externo, e esse gravador tava dando alguns problemas. Aí, bem na hora, ela desligou (risos). Quando acertei, depois que vi as duas imagens, já passou essa abertura de vídeo na minha mente.

E ainda falando de contratempos na hora de filmar… Já aconteceu de você ter que ensinar alguém a filmar na hora H?  Pra quem anda e também filma, às vezes rola aquela missão dupla: mandar a manobra e dar um curso relâmpago de filmagem (risos). Já viveu isso? Como foi? 

Sim, sim, (risos), aconteceu sim. Algumas imagens tive que fazer isso com alguns locais daqui de Delmiro, o Eduardo e o Sydney, e deu certo. Mas como eu e o Alison (Kbssa) passamos muito tempo juntos, viajamos juntos também, isso ajuda muito, porque a gente fica um filmando o outro. E agora ele está morando aqui, estamos filmando outra part: “A Morte do Vaqueiro”.

Um momento simbólico do vídeo mostra dois takes contrastantes: primeiro, um ciclista do iFood (realidade das grandes metrópoles); depois, uma família de charrete (representando uma vida mais tranquila). Como é para você sair de Delmiro Gouveia, no sertão alagoano, para andar de skate na maior metrópole do país, São Paulo? 

Pô, andar de skate em São Paulo é uma sensação louca. Ver vários skatistas que você só via em vídeos, mil coisas acontecendo ao mesmo tempo, vários eventos… E é muito bom chegar lá e ver vários nordestinos, vários amigos meus, alguns no corre do skate, outros nos trampos, mas andando de skate também. É muito bom ver os nordestinos ocupando esses espaços em São Paulo, que são nossos também.

O que você acha do “game” do skate brasileiro ainda estar muito concentrado no sudeste?

Infelizmente, é a realidade. Pra alguém do Nordeste conseguir um apoio, tem que ser dobrado o corre. Tá aí o Alison Rosendo (o Filosofia) de Prova, como que ele não tem nenhum apoio? É até difícil de acreditar, mas é a realidade. Aqui é muito complicado pra conseguirmos peças. Temos a sorte de ter amigos que sempre guardam algumas coisas, aí a gente junta os pacotes pra enviar de SP pra cá. Se não fosse isso, ficaríamos sem. Às vezes até acontece (risos).

Pra finalizar. Além do alto nível técnico das manobras, a edição do vídeo também se destaca. Como é para você editar o seu próprio vídeo? E por que decidiu começar a editar vídeos de skate?

Eu sempre gostei de fazer uns edits de celular. Soltei até um vídeo na Black Media uns anos atrás, filmado de um iPhone 6s que eu tinha e editado nele também, “Viva no Nordeste” o nome do vídeo. Daí a Beatriz Chuchu me passou essa PD170, e quando ela deu um upgrade no PC dela, me passou algumas peças que não ia usar mais. Aí comprei o resto das peças, montei o PC e comecei a meter marcha nas edições. É terapêutico (risos).

Caso queira falar sobre algo que não perguntei (alguma curiosidade ou acontecimento durante o processo) fique à vontade para compartilhar. O espaço é todo seu.

Só agradecer mesmo pelo espaço. Agradeço a todos que me ajudaram nesse vídeo, foram muitas forças, destruí shapes demais (risos). E aproveitando pra dizer que tamo na produção aí da próxima part, dessa vez filmada e editada por Alison Rosendo, só em picos do Nordeste. Tá ficando bonito.

É interessante enxergar Chapéu de Couro também como uma expressão da identidade de João Victor. Esta videopart, mais do que mostrar um skate de altíssimo nível, revela a identidade que o alagoano carrega por onde passa. A produção, como um todo, enriquece o lado artístico do skatista, e a trilha sonora de Kiko Dinucci, com a faixa “Gaba”, adiciona um elemento experimental à obra, sem perder a originalidade. O skate nordestino tem muita história, e a migração para o Sudeste, muitas vezes como única alternativa de viver do skate, escancara a centralização do cenário no país e a urgência de ampliar essa margem. Há inúmeros talentos espalhados pelos cantos do Brasil, e valorizar as manifestações que surgem nesses locais é essencial para a diversidade de nossa cultura. Vida longa ao skate underground, independente e original!

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One response to ““Chapéu de Couro”: Uma conversa com Sullindo sobre sua videopart e processos criativos”

  1. […] Eu faço esse corre de mandar material pros moleques no Nordeste, pro Sulindo. Ele até fala na entrevista com vocês. Porque não chega, mano. Tem que separar as caixas pra mandar pra lá, porque o mercado […]

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