Há uma fissura evidente no ecossistema do skate. Consideremos como Ecossistema o próprio skate, que constitui a base desse sistema; os skatistas, agentes centrais e consumidores primários; as skateshops, pilares essenciais de sustentação econômica; as marcas, que asseguram a continuidade produtiva; os eventos, que sintetizam e colocam em diálogo todos esses elementos; e as mídias especializadas, que atuam como porta-vozes do movimento e canalizam sua comunicação. Esses seis pilares não esgotam a complexidade que envolve a cultura do skate, mas oferecem amplitude suficiente para refletir sobre as fraturas e fragmentações que hoje abalam sua estrutura sociocultural.
Ninguém melhor que Luis Moschioni, o Arroiz, para essa conversa. Skatista de Tatuí, interior de São Paulo, integra esse estilo de vida desde 1999 – um momento de virada de século que desencadeou transformações profundas no mundo e, por consequência, no skate. Muitas dessas mudanças foram positivas; outras, nem tanto. Ao longo de mais de vinte e cinco anos sob o carrinho, Arroiz acumulou um repertório construído em vivências espalhadas por diferentes regiões do país. Desenvolveu, assim, uma visão crítica sobre os caminhos trilhados pelo skate brasileiro: percursos que, no passado, ajudaram a consolidar um mercado aquecido, mas que hoje parecem seguir uma direção distinta, nem sempre favorável ao cenário nacional.
A crítica de Arroiz recai sobre a perda de autonomia do skatista em relação à própria cultura. Para ele, esse enfraquecimento decorre, entre outros fatores, da falta de comunicação, de estratégia, de posicionamento crítico e, sobretudo, de uma insuficiência coletiva em se preparar e se atualizar diante das mudanças que impactam o cenário brasileiro. “Punk Arroiz”, “Pazz e Jazz” e, mais recentemente, “StreetWar” refletem diferentes fases de sua visão de mundo e funcionam como processos de reinvenção e atualização pessoal, alinhados à evolução do skate. Para compreender melhor seu pensamento, conversamos com Luis Moschioni sobre o ecossistema do skate e debatemos se ainda existem caminhos para recuperar a autonomia do skatista nesse novo contexto.

Ivan Lopes: Salve, Arroiz. É uma satisfação trocar essa ideia com você. De Punk Arroiz para Pazz e Jazze agora StreetWar, como você definiria cada uma dessas épocas, tanto em relação ao seu próprio skate quanto ao contexto em que cada fase surgiu?
Arroiz: Mano, eu nunca tinha olhado pra fases assim. O Punk Arroiz ainda tá aqui e o Pazz e Jazz ainda segue as artezinhas. Mas o StreetWar é o novo momento. O Punk Arroiz foi bem no começo do skate. Comecei a andar em 2000. Em 2004, assistia “Volcom Chichagof”, “Black Label”, “Flip Sorry” e esses vídeos explodiram minha mente. Eu tinha 9 anos quando surgiu esse apelido. Essa época foi muito importante pro que eu levo ainda hoje. O Pazz e Jazz eu não lembro como começou também. É de uma fase do skate em que eu estava assistindo “STATIC”, “STEREO”, “Blind Video Days”, com a part do Mark Gonz com jazz. Então o Pazz e Jazz veio nisso, mas ainda com a brisa do punk. Fui descobrindo no jazz o lance da nota torta. Um pouco do desconforto sonoro também. Sempre crio essa relação da música e da arte com skate. Período Punk Arroiz acho que era mais revolta, pixação, descobrindo tudo. Já o Pazz e Jazz começo a criar um conceito, e agora StreetWar é pra chutar tudo. Ele é pra voltar pra base já que o streetwear tá bombando. A primeira marca [de streetwear] foi a Vision (“Vision Street Wear”), e ninguém fala disso. Beleza, Stussy, Supreme têm o mérito também de serem pioneiras, mas elas têm time de skate e conceito. Aí o StreetWar veio nessa onda pra dar uma bagunçada. Eu peguei as referências da Vision. O que é street no fim das contas? Se perdeu! Mas tá todo mundo bebendo da fonte, tá tudo errado. Reconheço o erro do skatista. Porque nós quisemos tá nesse rolê da moda. A gente abriu o terreno usando as marcas que não voltam e a galera veio sugar. Loja de skate comprando de marca que não tem time de skate. Precisamos educar o consumidor pra consumir uma parada que volta pra cultura. Educar o lojista a comprar a parada certa. A gente perdeu a mão do que era nosso. Hoje em dia, quem cuida do mercado do skate é uma galera que raramente pisou em cima de um. Quem cuida dessas paradas não são, realmente skatistas.

Ivan: É importante ter skatistas atrás da mesa também?
Arroiz: É a comunicação da rua pra dentro do escritório. Poucas empresas preservam isso. Antes eu brigava; hoje em dia eu falo que é só pra quem é mesmo que vai entender a importância disso. Poucos tiveram o bagulho de “ah, vamo se formar, mano, pra nós assumir esses papéis, pra nós ter nossas agências. Acho que isso ainda vai acontecer. Skatista sempre foi difícil pra se organizar como coletivo. É um coletivo pra andar de skate; mas na hora de entrar nos negócios, trampar mesmo, o skatista é contra. Quando me chamaram pra trabalhar na agência eu falei: “não sei trabalhar em computador”. Foi minha primeira reação. Na minha cabeça, eu não ia saber trampar em uma agência de publicidade porque a única coisa que eu fiz, foi andar de skate, trabalhar em skateshop e tava trampando em um restaurante [Carrito Organic, Rogério Mancha]. Aí o Tiago falou: “o que você sabe não é faculdade que ensina. É um bagulho importante pro skate”. O sistema, o mercado são tão opressores que é difícil de reconhecer que temos algo a oferecer. Faz quatro anos que eu estou lá [Dabba]. Foi uma escola pra hoje em dia ter o StreetWar e ter mais noção do que é a parada. Se nós nos organizarmos, dá pra fazer acontecer.

Ivan: Mano, dá pra ver que você é bem eclético, tanto em música quanto em vídeo de skate. Já te ouvi falando da Ipath e também de uns vídeos tipo “Foundation That’s Life”. E na música também: vejo você trampando como DJ e soltando de Ratos de Porão a De Menos Crime…
Arroiz: Aham! Acho que essa é a escola do skateboard. De tanto assistir vídeo na infância e gostar desse bagulho. Eu cresci vendo isso. Lembro da dificuldade que era pra ter vídeos na época, que um parceiro que tinha computador baixava. Eu cresci nessa nerdologia. Esse meu parceiro de infância, o Ramon Barros, tinha os vídeos e vinha com as informações. E é isso: a gente tá no interior, não tem o que fazer. Eu nasci em Tatuí, mas cresci em Cesário Lange. Cesário Lange tem 30 mil habitantes. Lá, era assim: folheava revista e assistia os vídeos porque não tinha outra opção. Foi essa escola que me permitiu crescer. Meu parceiro me ensinou: “esse aqui é o Skate Punk, esse o Skate Rasta e esse o Skate Gangsta”. Tem essas vertentes, mas skate é skate. Isso sempre me deixou mais aberto. Mesmo sendo uma fase Skate Punk, meu parceiro era do Gangsta e estava ouvindo outro som. Aí, na hora de tocar, é a mesma coisa. Vou ver vídeo, gosto de assistir de tudo. O meu dia é com 500 abas abertas. Eu gosto de ver skate, seja coisa que eu não gosto, seja coisa que eu gosto. Eu tento ver um pouco de tudo, até pra passar raiva às vezes. “Como que uma marca colocou dinheiro nisso e fizeram essa merda?!”. É importante ter os dois lados. Acho que o Eclético vem dessa escola, pra mim skate é assim, no fim das contas.

Ivan: É difícil se fechar em um estilo só, né mano?
Arroiz: É se limitar. É o único rolê que a gente consegue ter tudo. Que rolê que não tem uma marca, nenhum outro tipo de lifestyle, e consegue agregar tanto assim? Eu vejo hoje que correr, por exemplo, tá no hype, a galera procura ter um lifestyle pra vender esse rolê e pra marca conseguir vender. Skate não precisa disso, nada é forçado. Todo esse hype quer forçar um lifestyle que pra nós é natural. Nós vivemos isso todo dia.

Ivan: O Brasil é enorme e o skate está presente em todas as regiões, do JM Dagger no Sul ao Anodis no Norte. Tendo começado a andar de skate em uma cidade do interior, você percebe diferenças entre skatistas que iniciam próximos aos grandes centros e aqueles que começam no interior?
Arroiz: Sim, mano. Eu acho que, na real, a diferença não é só de quem começa no interior, mas quem não começa andando em São Paulo já está em outra realidade. Lembro quando cheguei em Salvador a primeira vez, em 2015, os caras não achavam que eu era de São Paulo, por ser humilde. Diziam: “O cara é paulista, mas nem parece que é paulista”. Na real, quem tá em São Paulo já tem tudo muito próximo, porque é onde tudo acontece. Lógico que os outros grandes centros têm potência, mas é diferente. Pra quem não tá nas capitais, me incluo nisso, é dez vezes mais difícil. Pra quem tá longe de São Paulo então, é mais difícil ainda. Tipo, pra chegar material, os custos pra enviar pra outros lugares, tá tudo concentrado aqui. É muita bizarrice isso. E dificulta o skate no Brasil todo. Eu faço esse corre de mandar material pros moleques no Nordeste, pro Sulindo. Ele até fala na entrevista com vocês. Porque não chega, mano. Tem que separar as caixas pra mandar pra lá, porque o mercado não sustenta o underground fora de São Paulo. Talvez o underground em São Paulo ainda chegue os produtos: os moleques estão aqui. Mas pra quem tá fora de São Paulo, é mais difícil. Hoje em dia, no corre do skate em Tatuí tem o Emanuel, que é um moleque que tá lá, que é style, que é o único que sai, que tá fazendo a mesma coisa que eu fazia há 15 anos atrás. Só que num corre dobrado. Fiquei dois anos vindo pra São Paulo até ter a abertura pra minha primeira foto em revista. Foi com uma foto de Salvador, porque aqui não tinha fotógrafo pra mim. Muita gente acha que eu sou de lá. No fim, pra quem é do interior, o corre é triplicado, e eu valorizo pra caralho quem tá lutando, porque eu vim de lá também. Muita coisa mudou. E o Felipe Oliveira veio do mesmo veneno que eu. Ele lá em Salvador sem moral nenhuma e eu no interior sem moral nenhuma também. Até a galera ver o skate e entender. Mas, mesmo assim, tem que ter a conexão de outros. A panela é real. Acho que não é impossível se infiltrar, mas tem que ter técnica pra andar de skate. Tem que ceder algumas coisas pra tá dentro dessa panela. Tem que ter disciplina, não pode se passar, não dá pra ser loucão. Não dá pra ser anti-tudo também. É foda, mas é a realidade do skateboard. Tem que apertar as mãos. Tem que ter um padrinho, vamos dizer assim. Skateboard funciona assim.

Ivan: Essa época que você morou com o Felipe Oliveira acompanhei de longe e particularmente me marcou muito ver o como era o skate de vocês e a união.
Arroiz: Foi muito sincera a nossa união, e é até hoje. Era uma época de experimentos. Eu e o Felipe nas neuroses do game. Foi importante pra nós. Hoje, olhamos pra trás e dá risada pra caralho. “Cara, nós fizemos isso” (risos). Andamos de skate como nunca. Hoje em dia nós nem chega perto do tanto que nós andamos naquela época. Foi foda. É doido, nem vejo minha influência, mas a influência do Felipe é bizarra. Mudou o jeito da molecada se vestir. Nós tava sem dinheiro, pegava qualquer roupa, cortava e já era. Víamos vários vídeos de fora, queríamos fazer acontecer. Eu olho pra trás e vejo isso: nós não tava nem aí pra nada.
Ivan: Ao longo dos anos, o skate mudou bastante. Desde a queda das revistas, do impresso em geral, que diminuiu; a entrada do Instagram, que é um bagulho que não tinha antes no game; as Olimpíadas e entrada de grandes corporações no mercado; e, possivelmente, houve também certa falta de consciência por parte dos próprios skatistas. Na sua opinião, o que foi o que mais prejudicou o skate nesse período todo?
Arroiz: Eu acho que foi um erro nosso mesmo de não se organizar pra tudo isso. De não se preparar pra uma evolução do mercado. A gente sempre é muito fiél às nossas coisas, e chega uma hora que começa a ficar insustentável. Na revista impressa aconteceu isso: começou a ficar insustentável. Mas a Thrasher conseguiu se manter. A Cemporcento perrecou, mas ainda tá aí. Dá pra encontrar fórmulas. Acho que um dos erros foi a falta de organização, principalmente na internet. Outro dia, conversando com o Mug, ele ressaltou o seguinte: uma pena, o Bruno Brown, uma das maiores lendas do skate nacional, pioneiro em fazer as pontes lá fora e dar dignidade pro skate brasileiro morrer sem dar quase nenhuma entrevista. Essas coisas não podem acontecer mais. A gente tem que se organizar pra contar a nossa história, dar valor pra quem tá vivo. Nos acomodamos. A evolução vai acontecer, e quem não se preparar vai ficar pra trás. Tem que se preparar pro futuro e, se possível, resgatar as coisas do passado. No mercado brasileiro várias mídias acabaram, quase ninguém conseguiu se atualizar. Tem que ter a nova geração por perto, pros velhos não virar coxa, e pros mais novos não ficar balão. Se não tiver isso a mídia fica sem pé nem cabeça. Perdeu a comunicação entre as gerações. Aí o Instagram engoliu tudo. E a gente não pode esquecer o que o Bolota fez, o que a Skatin fez. É importante contar essa história pra nova geração. Muitas vezes a única coisa que a gente tem é história e arquivo, e isso é defasado no Brasil. Temos poucos livros e pouca coisa contando nossa trajetória, tanto do lado acadêmico quanto do arquivo. Tinha que ter um museu do skate nacional aqui. Como que não existe ainda? Arquivos pra isso têm. Essa história precisa ser contada e preservada. Até teve a exposição ali do Banesto e tal, que eu acho que até o Bolota tava envolvido no bagulho. Uns gráficos dos anos 80 que ninguém fala sendo perdido. E os caras daqui comprando shape do Hossoi, do Tony Hawk. O que a gente tá fazendo com o que é nosso? Cadê a nossa história? Quantas lendas a gente poderia ter? Falta essa comunicação: das marcas, do mercado, da própria comunidade. Se não tiver base, toda a cadeia desanda. Tem a evolução e tem a falha. Sustentar uma mídia é difícil. Eu enxergo com mais leveza também os problemas do terceiro mundo. Não vamos ser igual ao primeiro mundo, porque nós somos o terceiro. Tem que continuar lutando pra estar preparado quando as coisas mudarem. Porque a gente fica se comparando com a Europa, Estados Unidos… querendo ser os caras de lá e esquecemos as nossas marcas, a nossa cadeia. Daí não tem anúncio nas revistas, não tem vídeo, ninguém tem patrocínio.
Ivan: Eu já vi o Daniel Kim falando que falta um pouco das mídias voltarem na história. Não ficar só macetando o que é novo; mas intercalar entre o novo e a origem, pra gente saber de onde veio e tentar entender pra onde vai.
Arroiz: Exatamente, mano. Quantas lendas do vertical dos anos 80 são esquecidas? E o Kim é um cara que atravessou todas as eras do skateboard. É real lenda! Falta preservação. Eu troco essa ideia com o parceiro Toscotattoo. Ele sempre fala isso: “a gente tá muito atrasado na questão de preservar a nossa história”. A gente fica valorizando os americanos, que não dão nada pra nós, só vêm aqui vender o shape deles. Até quando isso? O skatista tem que assumir um pouco também do compromisso com o mercado. Tem que ter um pouco do nosso passo pela cultura, não só esperar do mercado, porque o mercado é cruel. Hoje em dia, do meu ponto de vista, nós temos que fazer tanto ao ponto de ficar feio para as marcas que não tão ajudando. Isso aqui é um exemplo: eu dei um salve em vocês na humildade pra fazermos essa entrevista, porque é importante. Nós temos que dar um passo pra as coisas acontecerem.

Ivan: Mano, em uma entrevista, você destacou a importância da comunicação, da estratégia e das boas ideias no skate. Pensando nas mídias de skate do Brasil, como você enxerga que elas podem aprimorar a comunicação entre si e evitar cair na zona de conforto de ser apenas um repositório de vídeos? Se colocando como espaço de informação de qualidade e de educação pra nova geração que busca entender o que é o skate.
Arroiz: Acho que é um pouco do que eu falei anteriormente. Vocês são um exemplo disso… estão escrevendo o que ninguém tá falando. É uma brecha no sistema que todo mundo do skate se identifica. E acho que é um pouco disso mesmo: ter essa comunicação das mídias. Nas mídias de skate, todo mundo é skatista, tá ligado? Então, se o nariz tá empinado, tem que desempinar. E, se alguma mídia tá se achando no pedestal, tem que descer, voltar pra base. Tem que ter alguém que tá na rua trampando. Se não for isso, vira um bagulho brega. Um skate de escritório, uma mídia de escritório. Eu entendo que as grandes mídias de skate estão um pouco presas às marcas que pagam os conteúdos. E à demanda pra suprir o que paga as contas. Eu entendo isso dentro das revistas, das mídias. Todo mundo tá fazendo seu trabalho, mas não pode esquecer da essência. Tem que tá cutucando as paradas que podem ter melhoria. Se não tá bom do jeito que tá, tem que melhorar. A gente tá num momento bem delicado do mercado do skate. Tem que ser muito estratégico pra não se queimar com alguém que pode ajudar no futuro. Até pra vocês, eu imagino que tem coisa que querem falar, mas tem que seguram pra não virar o caos. Tem espaço pra todo mundo. Cada mídia tem seu tipo de comunicação. É questão de organização mesmo.
Brenndel Ferreira: A gente pode se atualizar e criar um espaço virtual pra levar informação profunda pra lá. Porque lá fora você vê várias análises complexas, profundas e aqui tem muita ideia boa, mas que não são exploradas.
Arroiz: Se o Gifted Hater fosse brasileiro, ele estaria morto. Esse é o bagulho do terceiro mundo. O buraco é mais embaixo. Tipo: “O que esse cara tá falando? Tá tirando”. Como o terceiro mundo é muito mais agressivo pra nós, né? O que não pode no skate é esquecer a essência. Que é o bagulho que a Thrasher tem. Nós gostamos por causa disso. Eles tiram dinheiro do anunciante, mas dão abertura pro underground porque sabem que isso que é skate. Pô, aquele bagulho que eles fizeram lá do Mineirinho com o Neckface. Os caras tiraram mó onda indo visitar o bagulho da Red Bull. Dá pra jogar com os grandes, mas vai ter que ser do nosso jeito. Foi genial. Os caras conseguiram fazer a Red Bull pagar um cara pra vir pro Brasil pra pixar. Eu gosto demais disso. Às vezes as mídias se perdem por necessidade.

Brenndel: Eu tenho uma história um pouco parecida com a sua: quando fui pedir patrocínio para uma skateshop daqui, acabei arrumando emprego (risos). E a gente sabe que a skateshop é basicamente o coração da cena, principalmente no interior. Como você teve essa experiência de trabalhar e tomar decisões na frente de uma skateshop, na sua visão, como é que uma cena local, de uma cidadezinha pequena, pode se manter viva sem a loja física? Tem uma saída, já que o futuro basicamente se desenha para esse lado?
Arroiz: Eu acho que, não tendo uma skateshop física, vai ter uma crew local fazendo shape e vendendo. É um exemplo do que acontece em Tatuí, na minha cidade. Ainda tem skateshop lá, inclusive uma das que eu trampei. A mulher da loja me deu um salve dizendo que estava vendendo umas peças de skate e precisava de uma ajuda de curadoria. É inevitável que o skate não se sustente sem a skateshop. E se não tiver uma skateshop pra sustentar essa cultura, de alguma forma o skate vai se autogerir pra manter. Mas vai ser fraco. Sem skateshop pra manter a cena viva, vira uma cena de resistência. Não é uma cena de skate sincera, é resistência. Eu vejo isso por Cesário Lange, cidade onde cresci. Quando não tinha skateshop lá, meu parceiro Ramon arrumou um CNPJ de outro parceiro pra ir na Brutus, na distribuidora em São Paulo, e levar material pra cidade. Se não tem uma skateshop pra se unir com a cena de skate, vira necessariamente uma cena de resistência. Não consigo imaginar outra coisa.
Brenndel: Qual o papel da skateshop online, na sua visão?
Arroiz: Ajuda a ter material, mas uma cena não vai existir só com isso. A não ser que essa loja faça evento, faça alguma coisa pela cultura. Se for uma loja de skatistas, que esteja realmente fazendo algo, aí faz sentido. Sem isso, vira um submercado: uma não-skateshop que só vende produto de skate. Ainda assim, uma skateshop online de um skatista que faz algo pela cena local, que se movimenta, é uma outra forma de resistência do skateboard.
Brenndel: Uma atualização?
Arroiz: Sim. Uma atualização da skateshop talvez possa ser isso no futuro. Sendo de skatista e fazendo algo, voltando algo pra cena, é importante, é bem-vindo. Acho que é mais isso que o skate precisa. Se tiver algo que está somando, vai ser bem-vindo na comunidade. Se for uma skateshop que não seja só online, mas que consiga fazer um obstáculo pra cena local, ninguém vai julgar. Às vezes vai estar fazendo mais do que uma loja física que o cara é um pau no cu. Acho que tendo um skatista por trás, preservando a cultura, vale tudo. Até pirataria.

Brenndel: E Além da skateshop, você também fazia os eventos, né? Ainda faz, a gente acompanha aqui. Qual é o impacto que esses eventos têm sobre os skatistas? E por que você acredita que é sempre importante ter esse tipo de evento na cidade?
Arroiz: Foi a parada [os eventos] que deu brilho pra mim quando era criança. Eu lembro do primeiro campeonato de skate que eu fui. Eu vi o Ricardo Pinguim andando de skate. Era o lançamento do tênis dele, da Drop Shoes, em Tietê. Lembro que nesse campeonato eu ganhei uma pá de adesivo. Hoje em dia eu coleciono adesivo e com certeza foi por influência desse campeonato. Fazer evento é manter viva essa essência que fez eu amar o skate e dar oportunidade para as novas gerações experimentarem o mesmo. Quando eu trampava em loja, fazia os eventos; muitas vezes eram coisas simples: pegava algo na loja e levava pra pista. Os moleques fizeram o DIY em quatro meses e eu falei: mano, a gente tem que fazer alguma coisa aqui. Olha o que os caras fizeram! Eu não participei de nada, tenho que contribuir de alguma maneira. Mandei o projeto para as marcas e todo mundo abraçou; conseguimos grana e uma estrutura boa. Quando acabou o evento a filha de um parceiro falou assim: “tem que ter mais!”. Essa criança estava com uma camisa da DOD que vale 300 reais. Um produto que nem chega na cidade. E o skate fez isso acontecer. A molecada com roupa da HIGH, DISTURB, bagulho que, muitas vezes, eles não podem comprar. Pra mim, esse evento que fiz com o Ramon, meu parceiro de infância, foi pra manter a chama acesa. É isso que mantém a pessoa, depois de comprar um skate na loja, andando de skate. A importância do evento é manter a diversão que vai muito além do mercado, cria uma parada que é pra vida toda. Isso não tem preço, não é sobre dinheiro. Todas as crianças que participaram saíram com alguma coisa. O skate proporciona isso. O que no streetwear que realmente devolve algo para a rua? No geral, é só uma ilusão. Quem entrega essa vivência verdadeira é o skate. Não é uma ação de marketing que produz isso; é a prática em si, uma experiência que pode marcar a vida de alguém. Até hoje os parceiros lembram do que rolou. A galera se juntou, pintou os obstáculos, conseguiu apoio com tinta. Foi mil grau.

Brenndel: Você falou do lado positivo do evento pro skatista, né? Mas também tem aquele lado negativo, que coloca os skatistas como rivais. Eu, por exemplo, tenho uma experiência muito boa de ter conhecido várias cidades por causa de campeonatos regionais. Viaja muito, conheci várias pessoas assim. Mas, hoje, os formatos são muito rígidos, né? Exige uma disciplina que o próprio estilo de vida do skatista não permite. De que forma suas experiências em competições te ajudaram a moldar sua visão crítica sobre usar o evento como uma coisa positiva e não pra você se tornar um competidor?
Arroiz: Um campeonato, por mais tosco que seja, vale a pena pelo network. Mas, até isso o skatista perdeu: ter um planejamento de carreira. Às vezes, o cara tá ali vendo o campeonato tão bitolado na sua linha que esquece toda a parada que movimenta a cultura e a sua carreira. Eu vejo pelo STU [Skate Total Urbe], o sistema de pontuação e tal. A molecada já manja, tem uma linha, tipo o Caballerial board, o 360 não sei o quê, que sabe que vai valer ponto, e o skate vai se moldando aos pontos. E daí tem o best trick do STU que você vê os moleques andando de um jeito diferente ou aparece um que nem tá correndo nada e rouba a cena. O Leleta no STU de São Paulo foi assim: só chegou e roubou a cena. Então, nesse caso, vale a pena estar lá também para, quando tiver a brecha, fazer um bagulho que não vai ser esquecido. Acho que é saber dosar, saber estar no lugar e aproveitar as oportunidades. O campeonato ainda pode oferecer coisas boas se você souber aproveitar. E saber aonde vai também. Se o campeonato é furada, às vezes é melhor ficar em casa, tirar uma sessão na pista local. Agora, se, apesar de ser furada, os parceiros estiverem lá; nesse caso, vale a pena colar pra estar com os amigos. Acho que o principal é andar de skate e estar com os amigos. Às vezes, o moleque vai pro campeonato só pensando na premiação, mas tem tanta coisa frutífera ali em volta que passa batido.

Waldir Anthony: Então, querendo ou não, a maior parte das marcas, talvez as top of mind marcas do streetwear, não são mais marcas de skate. E dá pra vê que essas marcas não retroalimentam o skate em si: não têm atletas, não produzem vídeos, muitas vezes nem patrocinam eventos pra contribuir com a comunidade. É muito mais voltado pra lucrar com a cultura. Então eu queria saber como que a gente pode, com essa nova geração, furar um pouco essa bolha e trazer novos projetos, novas iniciativas, pra manter essa essência ativa e fortalecer mais o mercado do skate.
Arroiz: Mano, são várias pontas para reorganizar. O streetwear no Brasil é vendido em skateshop. Tem outras lojas, lógico, mas quem criou a base do streetwear no Brasil foi o skate. Desde os anos 90, 2000, o streetwear era linkado ao skate, tava nas revistas de skate pra anunciar porque era o único meio. Era um mercado que se retroalimentava e todo mundo ganhava. Hoje, muitos consumidores não se importam se as marcas estão voltando pro skate. Então acho que vai da reeducação do mercado e das mídias. Assumir a responsabilidade de falar: skateshop tem que comprar de marca de skate. Sei lá, criar um movimento que volte de novo pro skate e as próprias lojas assumirem isso. Só que é muito delicado pro cara que precisa vender. Tem consumidor pedindo aquela marca, e o cara acaba cedendo. É foda! E aí eu vejo que existem alguns caminhos: a skateshop tem que pegar no pé dessas marcas e exigir que, já que elas estão comprando deles, devem, pelo menos, soltar uns kits pro time da loja. Temos que nos impor pra reorganizar tudo. Para as marcas de streetwear saberem que tem que ter um time de skate. Se as [marcas] que todo mundo usa de referência têm e a sua não, então ela não deve estar em loja de skate. Você não vai vender pra loja de skate porque não faz sentido pro skate, já que sua marca não tem skatista. Antes era tudo nosso e nós tínhamos respeito. Essas marcas sempre precisaram de nós. No começo principalmente. E eu acho que tá aí a brecha da volta do skateboard dominar. Os Tropicalientes são um belo exemplo disso, a Internus, a Chantel. Acho que a reviravolta vai ser nós nos organizando como marca e como skatista; lojas e consumidores não comprando mais das marcas que não voltam pro skate. As lojas precisam cobrar das marcas apoiarem quando realizarem eventos; e o consumidor tem que estar ciente das marcas que estão ajudando o evento na cidade. É um processo de educação mesmo. E, lógico, de reorganização tanto das marcas quanto das lojas. Street é nós. O que eles vendem é outra coisa, é fashion. E, se for fashion, eles vão ter que dar roupa pra nós. Essas marcas têm que saber que tem uma catraca pra entrar no skate. E a catraca é nós! Vocês do streetwear não têm nome na lista. Se não soma com a gente, não entra.

Anthony: Queria comentar sobre aquele post que você fez no Instagram, sobre as peitas da “Gisele StreetWar” que você só deu pros amigos, pra galera que você realmente acredita no potencial. Um lance bem de irmandade mesmo. Pra mim, isso soou como um manifesto. Então queria que você contasse um pouco mais sobre como surgiu essa atitude e qual mensagem você quis passar pro pessoal.
Arroiz: Mano, foi muito natural. Quem veio com o nome foi o Hendrik, lá de Curitiba, o TT. Quando rolou aquela treta — a gente xingando a polêmica do skate com o streetwear — ele postou essa fita aí. Eu falei: “mano, vou ter que usar isso daí, mas o crédito é seu”. E daí virou o bagulho da Gisele, que é justamente onde eu quero não ficar colocando minha cara pra falar, mas criar uma plataforma de expressão da resistência do skate. A Gisele começou no Brechó, na brisa de ter uma curadoria que não existe em brechó. Quando começou esse hype dos brechós, eu falei: “não existe um brechó de curadoria skate-nerd”. A galera abraçou o nome, aí veio a treta, o Hendrik lançou o bagulho, e pronto — era isso que faltava pra dar o próximo passo. Pra devolver pra cultura. Pra ter um sentido dentro da nossa guerra contra essa galera. Um jeito de canalizar todo esse ódio por um bagulho que pra nós é de mentira, enquanto a nossa guerra é de verdade. São pessoas reais na rua, vivendo o skate, que chegam com tendência de verdade, não de Instagram. Eu queria ter umas mil camisetas da Gisele pra dar de presente. Mas uma hora vai chegar. O plano é evoluir.

Anthony: Esse foi o movimento do mercado que impactou muito também essa cena, né? A galera meio que desfocou do skate em si e foi focar mais em roupa, calças…
Arroiz: O streetwear tá ali! A Gisele, o streetWar, segue o plano da brecha. A gente tá precisando criar o que é nosso, mas tem que se organizar pra criar o nosso game. O outro game não abraçou a gente, então se nós não voltar como era antes, o skate dos anos 2000, com as marcas do Brasil, tudo nosso circulando de novo, a gente vai ficar vivendo esse sonho americano. Não dá mais.

Anthony: É isso, mano. Se você quiser deixar alguma mensagem para as novas gerações, o espaço é todo seu.
Arroiz: Mano, é muita responsabilidade isso. Mas vou repetir o que os caras falavam antes e que eu não dava moral. Hoje, com 30 anos, eu vejo que é real: a gente precisa estudar; não é só andar de skate. A gente tem que estudar e se organizar. O toque que eu deixo pra nova geração é esse: estudar e se organizar como comunidade. Acreditar no que nos move. E encontrar uma forma de devolver isso pra comunidade. Hoje em dia eu respiro skate, estudo skate e fico procurando o melhor jeito de devolver isso tudo pra cultura. Quando a gente se organiza como comunidade, a gente consegue. Só que tem que acreditar. E entender que nem sempre vai voltar dinheiro, nem sempre vai voltar do jeito mais rápido. Porém, existem outros valores que não podem ser esquecidos. É isso que realmente sustenta o skateboard.
Anthony: Satisfação em poder fazer essa entrevista, mano. Obrigado!


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