É muito comum ver skatistas agradecendo ao skate. Expressões como “obrigado, skateboard” ou “o skate agradece” já fazem parte do nosso vocabulário. Mas o que exatamente o skate faz para despertar tanta gratidão em quem o pratica? Ele ensina. E isso não é exagero de um apaixonado pelo estilo de vida. Já vi um skatista analfabeto identificar, com facilidade, nomes de manobras complexas em outro idioma. Vi ele debater com propriedade questões como: “existe ou não frontside overcrooked no corrimão?”. Essa mesma pessoa não sabia ler um texto formal. Que tipo de fenômeno é esse? E como é que o skate pode ensinar, sendo apenas um objeto?

Para exemplificar melhor esse ponto, quero, ao longo desta resenha, explorar a analogia proposta pelo coletivo Flanantes, que compara o ato de andar de skate ao método pedagógico de Paulo Freire. Em junho de 2024, o coletivo lançou o vídeo Andarilhagens, inspirado na obra do educador brasileiro. O vídeo começa com uma citação dele que propõe a experimentação das andarilhagens, e segue ao som de “Andei”, de Lurdez da Luz, reforçando a ideia de uma educação viva, em constante movimento. Para Freire, a educação nasce da vivência, da observação do mundo ao nosso redor, da escuta e da palavra geradora, que convida à reflexão e à transformação. No vídeo, esse princípio se manifesta nos deslocamentos dos skatistas que, ao se depararem com escadas, corrimãos e calçadas, não apenas os utilizam de forma comum, mas os ressignificam; recusam a passividade da arquitetura imposta e propõem novas formas de interação com o espaço.

Nesta produção do Flanantes, estão presentes alguns elementos didáticos (como já é comum em outras obras do coletivo), como citações e trechos de entrevistas. No entanto, eles não assumem qualquer superioridade dentro do vídeo. Para o público que busca um conteúdo de skate clássico, com manobras e boa música, a experiência será igualmente satisfatória. A trilha sonora inclui “Andei”, de Lurdez da Luz; “Nargana”, da Orquestra Afro-Brasileira; “Borandá”, com Maria Bethânia e Edu Lobo; e, por fim, “Reflections of Now”, de Tommy Guerrero. As filmagens foram feitas por vários dos skatistas presentes, uma prática comum entre quem anda na rua, onde é preciso frequentemente revezar o rec com os parceiros. Nesse sentido, é possível perceber a contribuição de cada um, com diversos ângulos e perspectivas de quem assumiu a difícil mas prazerosa missão de manusear a câmera.

Os skatistas passam por São Paulo, São Caetano, Barretos, Florianópolis e Viçosa, mostrando um pouco do cotidiano nas ruas. Essa leitura do espaço urbano como algo a ser criado, e não apenas habitado, aproxima-se da ideia freiriana de cultura como “acrescentamento que o homem faz ao mundo que não fez”. Ao se apropriar da cidade, o skatista atua como sujeito e não como objeto, reposicionando-se dentro da dinâmica urbana, exatamente como o alfabetizando freiriano que, ao se reconhecer no desenho do povoado, desperta para uma consciência crítica de sua realidade. Isso, pra mim, dialoga com o que questionei no primeiro parágrafo: o skate, nesse caso, é um objeto pedagógico que transforma a linguagem em experiência concreta por meio da vivência. O que poderia parecer abstrato ou distante se traduz na prática (no corpo, no gesto e na troca). É nesse espaço que o aprendizado se desenvolve.

Para aqueles que já estão familiarizados com o conteúdo do coletivo, é um deleite perceber essa associação de forma tão clara. Para quem está fora desse nicho, pode ser necessário um pouco mais de esforço para assimilar os conceitos trabalhados no vídeo. Ainda assim, as falas de Paulo Freire (inseridas nos intervalos entre uma sessão e outra) funcionam como um guia. O vídeo estende a mão ao espectador e o conduz a refletir sobre o que está sendo dito. Paralelamente, os b-rolls mostram os skatistas materializando os exemplos enunciados pelo pedagogo.

A crítica freiriana à manipulação ideológica e à anestesia das massas também ressoa nesse contexto. O skate, historicamente marginalizado, torna-se aqui um instrumento de conscientização e subversão ao oferecer uma nova lente para ler e intervir no mundo. O vídeo questiona as barreiras entre o público e o privado, o permitido e o proibido, o centro e a margem das cidades. Nesse processo de conscientização, o skatista transforma-se em um cidadão crítico, que questiona os espaços urbanos e seu direito de ocupá-los, enfrentando diretamente a opressão social que, a todo custo, tenta ocultar os direitos civis daqueles que vivem à margem.

Isso não quer dizer que a semelhança entre a metodologia freiriana e o ato de andar de skate seja exata. Nem todo skatista pode ser considerado um agente político e consciente enquanto indivíduo (muitos, inclusive, rejeitam esse rótulo). A proposta desta resenha é destacar que, ao praticar skate nas ruas, o skatista acaba se colocando como um sujeito mais consciente política e socialmente. A hostilidade do ambiente urbano impõe essa postura àqueles que ousam ocupá-lo. Assim, mesmo que nem todos enxerguem o ato de andar de skate como político ou pedagógico, ele acaba, indiretamente, despertando essa consciência e promovendo o exercício dos direitos de cidadania. Talvez por isso a prática do skate de rua incomode tanto: ela expõe as injustiças e formas de opressão enfrentadas no dia a dia. E, com o skate, essas injustiças não passam despercebidas — elas são, de fato, confrontadas.

Esses skatistas, em Andarilhagens, são sujeitos que ao se transformarem, transformam também a cidade, uma ambição sempre presente na obra de Paulo Freire. A arquitetura urbana deixa de ser apenas cenário e passa a ser matéria-prima da criatividade que impulsiona os skatistas. Trata-se de uma ocupação legítima da cidade, não por meio de discursos, mas pela prática.

O vídeo nos convida a refletir sobre as formas de aprendizado que ocorrem fora do ambiente escolar tradicional. Ao vermos skatistas mais experientes ensinando os mais novos — e vice-versa —, sem hierarquias fixas, testemunhamos aquilo que Paulo Freire chamou de educação libertadora: um processo de aprendizado baseado no diálogo, na escuta e na vivência concreta. Isso contrasta diretamente com o modelo tradicional que ele criticava (a chamada educação bancária), que trata o aluno como um recipiente vazio a ser preenchido, passivo e domesticado. Esse modelo, além de conservador, bloqueia a criatividade e a capacidade de pensamento crítico. Contudo, em Andarilhagens, vemos justamente o oposto: uma troca viva, em que todos são, ao mesmo tempo, ensinantes e aprendizes.

Além de apresentar a cidade como espaço de criação, o vídeo da mesma forma denuncia, ainda que de forma sutil, o cerco simbólico e concreto que a sociedade impõe àqueles que ousam ocupar os espaços de forma não convencional. A repressão policial, os seguranças hostis, os olhares atravessados, tudo isso evidencia um projeto de cidade onde o controle oprime a liberdade. E é aqui que uma leitura mais freiriana se aprofunda: Paulo Freire já alertava que a manipulação é uma ferramenta poderosa para manter o domínio. Quanto menos politicamente conscientes forem os indivíduos, mais facilmente se deixarão conduzir por quem já detém o poder. Por isso, é preciso anestesiar as massas, invadi-las culturalmente e impor uma visão de mundo única, que exclui modos alternativos de viver, pensar e ocupar o espaço. Os skatistas recusam-se a aceitar a cidade como algo pronto e determinado, assumindo o papel de sujeitos transformadores de sua realidade concreta. Isso é política, mas também é pedagogia.

Andarilhagens, nesse sentido, caminha em direção ao pensamento acadêmico do universo do skate sem soar forçado. Ao contrário, mostra que quem anda de skate já vivencia, na prática, muitos dos conceitos que os livros discutem. Isso ajuda a quebrar o estigma de que o conhecimento só acontece dentro das instituições educacionais. O vídeo mostra que pensar também se faz com o corpo e com o movimento, e que isso, por si só, já é um ato revolucionário. 

Para concluir, Paulo Freire dizia que “não há saberes mais ou menos, há saberes diferentes”. E esse vídeo é uma prova disso. Ele constrói, de forma harmoniosa, uma ponte entre o saber popular e a crítica acadêmica.


Produção: Flanantes
Direção: Murilo Romão
Arte: Erica Maradona
Trilha sonora: “Andei” – Lurdez da Luz; “Nargana” – Orquestra Afro-Brasileira; “Borandá” – Maria Bethânia e Edu Lobo; “Reflections of Now” – Tommy Guerrero

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