O skate feminino vive um momento de grandes conquistas. A presença de skatistas como Rayssa Leal trouxe mais visibilidade para as mulheres no skate, mas, para que isso fosse possível, muitas precisaram lutar por esse espaço. Desde pioneiras como Peggy Oki, a única Z-Girl entre os lendários Z-Boys, até os inúmeros coletivos voltados para o skate das minas, como o Divas Skateras, o Britneys Crew, o Minas No Skate e a revista Into The Mirror, da skatista e publicitária Pipa Souza, essa história foi escrita por mulheres que resistiram e seguem exigindo igualdade e oportunidades.
Seguindo esse caminho, encontramos Lorena Fernanda, skatista de Belo Horizonte que carrega consigo a essência do skate de rua. Seu primeiro contato com o carrinho foi aos 15 anos, mesma época em que começou a trabalhar. Desde então, o skate se tornou parte de sua vida, fazendo com que ela valorizasse cada momento em cima dele. Nos últimos anos, ela escolheu se afastar das competições e focar na produção de vídeos, buscando manter sua relação com o skate saudável e sem pressões externas.
Para entender melhor sua caminhada e visão sobre o skate atual, tivemos um bate-papo sobre a valorização da história do skate, o impacto da entrada de grandes empresas no mercado e a importância de preservar a contracultura do skate de rua. Em tempos em que o lado competitivo e comercial ganha cada vez mais espaço, é essencial dar voz a quem mantém vivo os valores que sempre fizeram do skate algo muito maior do que um esporte.

Waldir Anthony: Salve, Lorena! Muito bom falar com você. Quero começar te perguntando sobre filmagens e produção audiovisual. Ano passado, você produziu bastante material e gostaria de saber sobre esse movimento mais voltado para os vídeos, em vez dos campeonatos, como era nos anos anteriores. Por que você fez essa mudança?
Lorena Fernanda: Salve! Então, já faz alguns anos que não me identifico mais com campeonatos. Acho que, falando por mim mesmo, nos perdemos um pouco na questão do skate. Vira uma parada de… como o próprio nome já diz: campeonato, você está competindo. Querendo ou não, sempre me senti muito pressionada comigo mesma, tipo: “Ah! Faço isso todos os dias, por que agora estou errando aqui?”. Comecei a questionar a minha capacidade de andar de skate ou se eu merecia tal coisa porque fui péssima no campeonato. Eu estava perdendo aquela ideia de andar de skate para me divertir, para ser melhor só que eu mesma, bota fé? Sem ter aquela pressão. Então fui deixando os campeonatos de lado e, claro, campeonato ajuda muito. Dependendo do que você ganha, dá para fazer uma grana e tal. Mas já não estava me fazendo bem, não estava me sentindo eu mesma. E eu só parei. E daí acabou surgindo a oportunidade de fazer o vídeo com a Tupode no ano passado, para lançar a parte. E foi isso. Foi bem natural, não foi nada como “Ah! Não vou mais correr campeonato!”. Fui parando aos poucos. Não estava da hora ver os manos torcendo para os outros errarem. E também estava uma briga danada, as pessoas não estavam se dando bem, sabe? As pessoas te olhando torto e tal. As pessoas já não estavam felizes por você acertar as manobras, dá para sentir. E acho que o skate se perdeu um pouco nesse lance de campeonato. No fim, não ia em campeonatos nem para assistir mais.
Para gravar a sua parte para o fullvideo da Tupode, você fez várias viagens, né? Gostaria que você contasse um pouco dessa experiência e como é estar com outros skatistas que estão no corre, no game do skateboarding. E também falar um pouco dos picos que você colou. Como foi?
Então, foi a primeira vez que fiz uma parada assim, né? De viajar para filmar skate. Nunca tinha conhecido Brasília. Aliás, já tinha ido quando era criancinha, mas depois de adulta ainda não a conhecia. Gostei muito de lá. Gostei muito dos picos da Bahia também. E foi uma experiência muito doida, porque, por mais que eu ande de skate há muitos anos e goste do que faço, nunca imaginei que fosse viajar e conhecer lugares só por causa do skate. Em momento nenhum, me senti pressionada para filmar. Foi muito legal conviver com os caras que estão fortes na cena. O Wilton, o Pedro Iti, o Rafa, que são referências. Estar com esses caras foi muito legal. Eles compartilharam muito com a gente. Acho que aprendi muita coisa com essa viagem, sabe? Como respeitar meu corpo, respeitar meus limites, não desistir também e entender que isso são processos. A gente que anda de skate sempre aprende a respeitar o limite do corpo e tal. Então, foi muito foda essa viagem, gostei bastante. Inclusive, saudades!
Pô, style! Tem várias referências do skate ali, né? Imagino que estar junto deles deve ser uma experiência única.
Querendo ou não, os caras são referências mundiais, e isso foi muito foda!

Tem também outra crew da qual você faz parte, que é a Into The Mirror. Até peguei uma revista com você numa época aí. Gostaria de saber um pouco mais sobre esse coletivo, como ele funciona e a importância desse movimento, que valoriza muito a pluralidade no skate.
Sim! A Into The Mirror surgiu como um TCC da Pipa, né? Muitas pessoas não sabem como surgiu, mas foi como um TCC dela, que foi um documentário, e nisso surgiu a ideia de fazer a revista voltada para o skate feminino, queer e tal. A revista, como você pode ver, é só de meninas, né? Claro, não é 100% feita só por meninas, porque também tem fotógrafos homens, não temos muitas meninas tirando fotos, nem muitas meninas filmando. As que têm são fodas. A Pipa mesmo, ela filma, faz fotos, também faz os bagulhos da revista. Então, assim, é uma referência absurda, e eu acho que tá conseguindo alcançar um patamar legal no skate, sabe? Vemos muitos caras comprando, comentando, e recentemente ela lançou um vídeo para comemorar os dois anos da revista, que soltou no próprio canal do YouTube mesmo. E é bem legal fazer parte. Ver o reconhecimento da revista e do projeto como um todo, porque a Pipa é a referência máxima. Eu comecei a andar de skate vendo ela andar de skate, sabe? Ela sempre foi uma referência pra mim. Então, se ver e fazer parte desse projeto, de certa forma, é muito realizador pra mim. Imagina pra ela, que tá fazendo isso acontecer. E não é fácil!
Imagino! É muita coisa que tem que fazer, né? Para produzir todo aquele material. Aproveitando o gancho, gostaria de saber também sobre algum rolê marcante com a Into The Mirror. Vejo que vocês representam muito o lifestyle de vocês e tal. Tem alguma história que te marcou e que você queira contar?
Tenho uma história muito marcante que aconteceu antes da Into The Mirror, com a Pipa. Como mencionei, sempre tive ela como referência no skate, sempre assisti aos vídeos dela. Muitas das manobras que aprendi de nollie, inclusive, foi vendo vídeos dela, que, na época, eram pelo Orkut. Lembro que surgiu uma oportunidade para eu entrar numa marca de shapes, a Ame, que é uma marca do sul de Minas, se não me engano. E a Pipa já fazia parte. E quando entrei, ela me mandou uma mensagem na DM me parabenizando, dizendo que já tinha visto meu rolê e que gostava. Isso, para mim, foi uma vitória gigantesca. Depois de um tempo, encontrei ela pessoalmente e viramos super amigas. E sempre que vou falar com as pessoas ou quando me perguntam quem é a minha inspiração, quem foi e ainda é, minha resposta sempre é a Pipa. E ela é a minha melhor amiga hoje, então, tipo assim, o skate é muito louco. E também foi marcante ver um vídeo só de meninas na première, sabe? Feito por meninas e editado por meninas, sons só de meninas, 100% feito por mulheres. Essas duas histórias eu me sinto bem feliz de poder contar.

Muito daora! Agora quero entrar em um assunto que acho que é bem recente, sobre a mudança que estamos passando no mercado do skate. Gostaria de saber um pouco sobre como você enxerga as relações entre as marcas independentes e as grandes empresas do mercado do skate atualmente. Tipo, tem muito banco entrando para a cultura, enquanto as marcas de skate estão acabando. Você vê muitas marcas de tênis despedindo os skatistas antigos do time. Como você vê essa mudança no skate?
Ah! Para te ser sincero, isso está acabando com o skate real, né? Dá para ver toda a mídia em cima das Olimpíadas, dos campeonatos. E quando saímos para andar de skate na rua, sofremos uma opressão absurda, sabe? Somos tratados como marginais. E, tipo assim, o skate salvou e salva vidas o tempo todo. Então, acho que são dois tipos de skate bem diferentes. Essa galera que está chegando, os bancos e essas coisas, acho que está pegando o hype da parada e fomentando o skate de uma massa X, que participa de campeonatos e está nos holofotes, enquanto a outra massa, que está nas ruas, que tira dinheiro do próprio bolso para construir obstáculos e que custa conseguir um dinheiro para comprar shape, fica totalmente de lado. E essa galera também fomenta o skate, sabe? Entrando nesse assunto, eu não tenho uma opinião 100% formada sobre o skate nas Olimpíadas, porque, ao mesmo tempo que acho que é bom, também acho que é ruim. Acho que nos precipitamos em ter aquela ideia de que “Ah! Vai ser legal, a galera vai respeitar, o skate não vai ser marginalizado mais”. Mas vimos que não é bem isso que aconteceu. O skate ainda é marginalizado. Então, assim, acho que o skate só está perdendo, sabe? Acho que o skate está virando coisa para quem tem grana.
Os holofotes foram muito para esse lado da competição, né?
Exato! Uma coisa que era para ser um meio de transporte, para se locomover, uma arte urbana que ocupa os espaços, agora tá virando uma parada voltada para quem tem grana. Hoje em dia, você não consegue comprar um shape sem desconto. Um shape bom tá o quê, 500 conto? Tá maluco, tá muito caro! Ou você paga o aluguel, ou você anda de skate.

Verdade! Ligando nesse assunto, quero saber como você consegue conciliar trabalho e skate. E também queria te perguntar se, hoje em dia, você consegue viver só do skate ou se faz algum trabalho à parte para conseguir viver esse lifestyle.
Tem 15 anos que estou no skate, que eu ando, que o skate faz parte da minha vida. E, nesses 15 anos, eu nunca vivi 100% do skate. Sempre tive que fazer outras coisas por trás. Eu comecei a andar de skate com 15 anos e também comecei a trampar com 15 anos, e foi sempre escola, trabalho e, nos finais de semana, skate. Hoje em dia, eu tenho a ajuda de um patrocínio, né? A marca de roupas Tupode, que me salva demais. Além dos materiais, conto com uma ajuda de custo mensal daora. E também dou aula de skate, trampo com isso desde os meus 18 anos, então tem uns 12 anos que dou aulas de skate. Além disso, faço um freela num bar nas sextas e sábados. É nesse perrengue assim. Eu fico com medo de abrir mão do skate e, por isso, tento focar, não desviar do caminho e continuar andando. Só que chega uma hora que o plano tem que mudar, porque a idade vai chegando e não conseguimos fazer as mesmas coisas de antes, né? (risos).
Você tem alguma tática para conseguir conciliar a vida de trabalhar fora e a de manter o skate ativo?
Então, com as aulas de skate, eu tenho horários bem flexíveis. Tento limitar a quantidade de alunos por dia e, geralmente, fico com as tardes livres. Dou aulas na parte da manhã e, à tarde, depois de terminar de resolver minhas coisas pessoais, tiro um tempo para dar um rolê. Algumas vezes também tiro para dar uma descansada, porque cansa, né? Veio uma amiga aqui para casa e a gente produziu um vídeo, que logo logo vai sair, só de meninas. Foram três semanas de skate todos os dias, então, tipo, pensamos em dar um tempo do skate (risos). Um tempo assim, dar alguns dias e depois voltar a andar.
Tem que respeitar o corpo também, né?
Sim, tem que respeitar! Mas é isso, consigo ter horários para andar de skate devido à flexibilidade das aulas.
Agora vamos falar de saúde, mental e física. Você já teve alguma lesão andando de skate? Como você lidou com isso? Fez algum tratamento com fisioterapeuta? Você se alonga sempre? Como você se cuida?
Já tive uma lesão no tornozelo. Rompi um ligamento e estirei dois. Não precisou de cirurgia, mas fiquei mais ou menos dez meses sem andar de skate. Acho que essa foi a época em que mais fiquei afastada do skate desde que comecei a andar. Nessa época, me senti muito triste. Não consumo bebidas alcoólicas, mas lembro que comecei a beber muito. Se tivesse dinheiro, já queria comprar uma cerveja. Então, acho que meio que estava afogando minhas mágoas nisso, sabe? Um dia, a chavinha virou e pensei: “Vou me viciar, vou trocar o skate por isso, e eu não quero”. Daí eu parei. Não bebo mais, nem comecei e já parei (risos). Eu fazia acompanhamento com uma amiga fisioterapeuta, mas acabou não dando certo por causa do trabalho dela, que teve que pegar outro trampo e tal. Já fiz academia durante um tempo e, hoje, faço os exercícios em casa mesmo. Tenho alguns pesos e me cuido em casa, dentro do possível, né? Quando saio para andar de skate, também dou uma alongada, tento sempre me cuidar assim. Me alimentar bem, sabe? Não faço acompanhamento, mas eu me cuido dentro do possível.
Isso é uma coisa que muitos skatistas às vezes deixam de lado, mas é super importante.
Acho que essa nova geração, essa galera nova que tá chegando agora, tá aprendendo a cuidar do próprio corpo. A minha geração, a nossa geração, não tinha esse hábito de cuidar do corpo para andar de skate. A gente foi aprender isso na marra, depois de muitos capotes ou até mesmo de ver outra galera se cuidando. Mas éramos bem largados. Não tinha esse lance de alimentação saudável.

Queria saber de você se sente alguma diferença na receptividade de estar nos grandes eventos e, ao mesmo tempo, no underground. Porque já vi que você participou do STU, Slides & Grinds. Queria que você contasse um pouco sobre como é fazer parte desses dois ambientes: o underground e o mainstream.
Tipo assim, acho que, devido às amizades que fiz e, claro, sem tirar o meu mérito como skatista, que sempre estava no meio, foram surgindo essas oportunidades e tal. Mas é bem diferente, sabe? Hoje em dia, por exemplo, a nova geração não sabe quem foi Priscila Morais, uma skatista super importante de São Paulo, a Marta Linaldi, não sabe quem foi Larissa Carollo. Então, acho que falta um pouco desse lance de procurar conhecer a história. Porque, hoje, o skate feminino, apesar de ainda enfrentar dificuldades, chegou onde chegou graças a essas meninas e a tantos outros nomes também, né? Se for citar todos os nomes aqui, vou ficar muito tempo, porque é muita menina envolvida. Acho que falta um pouco desse cuidado da galera de campeonato em mostrar quem foram as pioneiras do skate feminino e também do masculino. Porque tem vários caras que, querendo ou não, fizeram muito pelo skate. A história não pode cair no esquecimento, né? Pô, comecei a andar de skate porque vi alguém fazendo tal coisa… Tem sempre uma história por trás disso, sabe? Em BH mesmo, andamos na Praça 7 hoje porque teve uma galera que tomou porrada no passado para que a gente tivesse acesso à praça hoje, bota fé? Uma galera fez o corre para conseguir fazer um evento dentro do Mineirão, no caso do Minas no Skate. Então, são coisas que, sempre que possível, devem ser lembradas, pois são muito importantes. E, em questão do tratamento, é diferente. Você sabe que é. Se você não está na mídia, não está envolvida nos campeonatos, você sente um tratamento diferente. Você vê, observa as coisas. Dá para perceber.
Em algum momento, estando no mainstream, você sentiu que precisava mudar algo em você para se encaixar naquele meio?
Acho que sim. Até porque parei de correr campeonatos por causa disso. Se fosse para eu seguir em campeonatos e essas coisas, teria que ter mudado minha visão do skate. Teria que levar o skate como uma competição, 100% competição. Talvez pudesse ter sido bom, mas optei por não seguir esse caminho, por não fazer parte desse lance de competições. Para mim, o skate é união. Vejo que, nos campeonatos, as pessoas têm um olhar sanguinário umas para as outras, sabe? E, particularmente, não gosto disso. Não acho que skate é isso. Skate não é sobre isso. Skate é você ficar feliz porque o outro aprendeu a remar, bota fé? Acho que perdeu um pouco dessa essência. É um clichê, mas é verdade.
Antes de finalizar, Lorena, muito obrigado por esse bate-papo. Caso você queira falar algo que não perguntei, fique à vontade, o espaço é todo seu.
É isso! Para falar do skate aqui em BH, uma coisa que sinto muita falta é da gente se unir para fazer com que tenhamos as coisas aqui, sabe? Acho que aqui em BH o skate virou uma disputa de ego cabulosa, de quem faz mais. Aí, ninguém faz nada, e se alguém pega para fazer, ciclano fala mal, gente que nunca fez nada e, quando vê que tem gente fazendo, aparece para criticar. Com isso, só estamos perdendo. Perdemos o viaduto, que agora está tomado pelo crack. Quero deixar um recado mesmo para quem estiver lendo: se a gente não se unir para fazer com que as coisas mudem aqui, não vamos ter lugar para andar de skate. Já não temos pistas, e tem uma galera que fala “Vai andar de skate na pista!”. Não! Vamos andar onde quisermos andar. Com segurança. Estou ocupando um espaço que é direito meu. Porque na televisão, o skate é visto como uma parada heroica, daí você vai andar na rua e é visto como marginal. Tipo assim, cabe a nós mesmos nos unir e mudar isso. E, acima de tudo, o skate é para nos divertir, ninguém tem que ser melhor do que ninguém. Se você se sente feliz andando de skate, é isso, só vai. Vejo que tem muita gente que fica pagando de bonzinho na internet, mas nunca faz nada pela cena local, sabe? Vamos ocupar os espaços, correr atrás, porque daqui a pouco não vamos ter mais nada, viu? Sério mesmo! É isso. Respeitem as minas nas pistas de skate.


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