Então… esta é mais uma sobre os próprios, que sobrevivem a essa selva e, muitas vezes, transitam. Mas, têm ideias diferentes, sentimentos diferentes, e eles estão tão bitolados nessas coisas que nem conseguem enxergar a si próprios, o que eles pensam, para que possam alcançar algo. Estão cada vez mais bitolados nessa selva de dinheiro e matéria. O transeunte segue mais ou menos assim.” Assim começa a icônica faixa TRANZEUNTE, de Leozin & Castilho, com produção de Coyote Beatz, uma raridade do rap underground de BH. Lançada há mais de 10 anos, a reflexão presente na música continua a influenciar projetos dentro da cena underground belorizontina. Além disso, os MCs seguem sendo referência para muitos skatistas da capital.

A G7 Crew, formada em 2003, surgiu durante a expansão do skate em Belo Horizonte, e é o resultado da união dos skatistas que frequentam o centro da capital mineira e se encontravam na Praça Sete de Setembro. É uma das crews mais influentes do estado de Minas Gerais, se não a mais, e também um dos pilares da cena contracultural de BH. Com uma bagagem cheia de histórias, em 2024, Raphael Alves, um dos integrantes da crew, deu início ao projeto Memórias, que já conta com dois volumes. Esse projeto resgata as raízes do skate de rua dali mantendo a estética suja, com trilha sonora original, sempre valorizando os artistas locais. 

Um dos muitos desafios que os movimentos contraculturais enfrentam é o de disputar espaços com o mainstream e sua frequente difusão de conteúdos rasos. Esse problema não é exclusivo do skate; o punk já passou por isso, e o hip hop, de modo geral, também sofre com essa situação. Por esses motivos, a resistência é fundamental, especialmente quando se trata de coletivos como a G7, que continua influenciando gerações (como é o caso de Raphael, que não só foi influenciado como hoje é parte da crew). Sabendo da importância dessa conexão com as raízes e do conhecimento da história do movimento, Raphael se vê na missão de preservar a cultura, apresentando à nova geração os verdadeiros valores do skateboard.

Conversamos com ele para conhecer mais sobre seu projeto Memórias e como ele enxerga o futuro do skate underground. Também discutimos suas referências e a importância delas na formação do skatista, o respeito ao legado de quem veio antes e a difícil missão de manter a chama do skateboard acesa.

Waldir Anthony: Dia 19 de dezembro de 2024, entrevista com Raphael Alves, G7 Crew.

Raphael Alves: É nois G, satisfação por você fazer essa ponte.

Tamo junto!

Vamos passar a informação. Daora demais, mano! 

O intuito dessa entrevista, mano, é falar um pouco sobre o seu projeto de vídeo, o Memórias. É um projeto que tem chamado bastante atenção da galera de Minas Gerais, que, atualmente, está bem carente desse tipo de conteúdo. Queria que você falasse um pouco sobre o que é esse projeto.

Mano, o Memórias começou em dois fluxos. Tínhamos várias imagens e, com isso, decidimos fazer o Noites Passadas, que é um vídeo todo gravado à noite na Praça Sete. Depois que fizemos esse vídeo, falei com os moleques da G7, com o Kenan, o Black, o Toco, o Zeré, a galera que tá mais próxima no dia a dia. A gente sempre se encontrava à noite, depois do trabalho, ali na Praça Sete, e tentava andar de skate e registrar alguma coisa. Com isso, já tínhamos mais de 1 ano de imagens guardadas. Aí resolvemos soltar aos poucos. A ideia inicial era fazer um Full Length, mas percebemos que tínhamos bastante material de amigos, então preferimos fazer um volume. Daí, trocando ideia com o Black pelo WhatsApp, falei com ele sobre a ideia do Memórias. Ele respondeu empolgado: “Nossa, mano! Muito foda! Daora!”. Editamos o primeiro volume e tentamos trazer a identidade de BH, por exemplo, com o som do Castilho, “Consciência”, que a gente ouvia muito nas antigas. Pegamos essa música antes de ser masterizada, sabe? Ela tem mais de 15 anos. A gente ia nos shows do Castilho e ouvia ele cantando essa música, então foi por esse caminho que o Memórias seguiu. Tentamos intercalar tudo dentro dessa ideia. Minha câmera tinha quebrado e o Black tinha uma handycam antiga que nem filmava em HD. Ele me disse que não estava usando e acabou me passando. Essa handycam era compatível com a fisheye que eu tinha pegado com o MTS nas antigas, uma lente que já tinha passado pelo Original Expresso, tá ligado? Então, tudo isso meio que retratou o Memórias; tudo era memorável. O skate por si só já é memorável, né? Você escolhe um lugar, vai lá e grava, e aquele momento se torna memorável. Aí o primeiro volume rolou. E foi muito daora! Tínhamos mais imagens e decidimos produzir o segundo, começamos a gravar mais algumas e lançamos o segundo volume. Nesse, fizemos uma première no trabalho do Kenan. Foi muito foda!

Style! E tem alguma história que rolou durante a gravação que te marcou e que você gostaria de compartilhar?

Ah, mano! Teve uns bagulhos que foram cabreiros. A gente sempre dá muita importância pra questão da energia, sabe? Teve uns dias na Sete, à noite, tava o Kenan, eu, se não me engano o Toco e o Chaça também. A gente estava iniciando o projeto. Aí, o Kenan recebe uma mensagem do Leozin, que é o mano que sempre instruiu a gente no skate, tá ligado? Tanto através do som dele, quanto andando com a gente de skate na rua, filmando a gente. Inclusive, foi ele que me ensinou a filmar. Ele, o Philipe, o Filipe de Juiz de Fora, essa galera das antigas sempre passaram as referências pra gente. Aí, voltando pra mensagem, não lembro exatamente o que o Leozin escreveu, tínhamos acabado de abrir um bueiro na Sete, e o segurança tava de olho na gente. O Toco tinha acertado a trick e o Zeré também. Nesse momento, estávamos falando sobre o projeto e a mensagem do Leozin foi mais ou menos assim: “Nossa! Força aí, daora! Vocês estão dando continuidade, mantendo a chama acesa”. E isso foi bem na hora que estávamos na ação, lembro que deu até um arrepio, foi muito style.

Caralho, muito cabreiro, mano!

Foi daora. Esse momento marcou muito o projeto.

A trilha sonora do vídeo tem muita influência disso, né? Tipo, do Leozin, do Castilho… é uma parada bem autêntica da G7, né?

Sim, mano. É o que a gente sempre escutou. A ideia, o rap dos caras é muita informação, tá ligado? É um bagulho de sabedoria. Tipo, você escuta o som deles e já quer pesquisar as paradas, sabe? É um som que te influencia a querer algo, entende? Então, o som é daora, e a gente acha uma honra poder repassar essa visão pra galera poder entender também. E mano, o segundo volume do Memórias é muito doido, porque eu fiz ele no set do Omoloko do Boiler Room, na festa 1010, que é uma festa daqui de BH. Aí, peguei o set dele tocando no bailão (risos), encaixei no vídeo e ficou muito foda.

Que style!

E como você sabe, sempre que a gente trombava com ele no rolê, a gente dava um salve.

Sim. Vocês estão sempre buscando referências da nossa região.

Com certeza. E, no caso do Omoloko, ele é techno, né, mano? Mas ele faz parte da cena underground daqui de BH.

Foda! Agora vamos falar sobre os aspectos técnicos da produção. Quero saber um pouco mais sobre os desafios que vocês enfrentaram durante a produção do vídeo, em relação ao equipamento, à edição e como foi essa etapa do processo?

Então, mano, antes do Memórias, eu tinha uma câmera que comprei do MTS. Essa câmera tem história, já passou por várias mãos de videomakers de BH. Por exemplo, já foi do Rodriguinho, do MTS… Eu sempre filmava com ela. Ela é uma mini DV, mas acabou estragando, e eu fiquei só com a fisheye da Century. Já tava apaixonado por filmar skate, mano. Sempre gostei de filmar, e quando morei lá no QG, tinha vários computadores, câmera do Leozin, câmera do Filipe, os caras sempre deixavam com a gente pra filmar e também passavam a visão de como editar, filmar e tals. Depois que a mini DV estragou, o Black fortaleceu com a câmera dele, e essa câmera tem uma estética muito daora. Ela é 4×3, quadradona, tá ligado? No estilo da Sony VX. E é a estética que eu curto. Esse é o estilo de imagem que me prende, é um bagulho diferente.

Quanto tempo você gastou pra produzir cada vídeo, mano?

No Memórias Vol.1, a gente tinha imagens guardadas de mais ou menos 1 ano. Não foi um período tão longo, mas foram as questões que trouxeram o lance do Memórias, tipo a câmera antiga do Black, a fisheye que passou na mão de todo mundo, tá ligado? Então, o primeiro volume levou praticamente 1 ano, mano. E o segundo volume, a gente já tinha algumas imagens guardadas, e durante o tempo que estávamos editando o volume 1, também estávamos filmando pro volume 2. Lançamos ele em novembro. Acho que foram uns 6 meses no segundo volume.

E durante todo esse processo, qual foi o maior desafio pra você?

Mano… Como eu posso dizer isso… É a questão da infraestrutura, né? A economia do Brasa tá zoada. E eu acredito que no mundo inteiro também. Então, todo mundo trabalha muito. Aí só tromba à noite, mas também quer fazer imagens durante o dia. Aí tromba nos finais de semana, só que é aquele corre, né, mano? Trabalha a semana inteira e chega no final já tá desgastado. E, mesmo trampando o tanto que a gente trampa, não conseguimos fazer dinheiro suficiente pra investir no skate. O skate é muito caro. Por isso, muita gente não tem acesso aos materiais. Agora, depois do volume 2, fizemos algumas reuniões e produzimos nosso shape G7 de teste. São de maple e a galera tá testando eles. Pra você ver, mano, quando você busca as coisas, você também atrai elas. O bagulho vem até você, é muito louco.

Quando você coloca a energia no projeto, as coisas vão acontecendo, né?

Sim, mano, cê tá ligado. Foi muito foda isso. A galera tava acreditando, então pensamos que deveríamos acreditar também. Fizemos a première do volume 2, que foi foda! Colou a molecada da Milplifs, colou o Robertinho, colou o Pandão, colou uma galera, mano.

Caralho, colou a cena do skate em peso.

Sim, mano. A Palomita colou, uma DJ das antigas. O Sek estava discotecando, o Fumaça também. O bagulho foi foda, mano. E o bagulho é pra isso mesmo, pra acender a chama do skateboard. Porque BH tem uma cena daora, mas aí você vê o Spot Culture fechando, o Afro Pub também fechou… Várias outras paradas fecharam. Aí você vê que o underground mesmo não consegue se manter. Não sei se é a galera que não consegue consumir ou se só consome quando a parada tá lá em cima, tá ligado? A galera vai muito pela moda e não pela substância que tem no verdadeiro underground.

Que é o que realmente fomenta a cultura, né mano?

É, mano. Até nas músicas dos vídeos, um bagulho muito foda, e são poucas pessoas que conhecem os caras… Tanto que, a trilha do vídeo Memórias Vol. 2, do Omoloko, depois desse vídeo ele foi pro Boiler Room e começou a viajar a Europa inteira através da música porque a galera viu que ele era foda.

Muito louco, mano.

Mas aqui em BH, ele tocava só sonzera underground pra galera que já era familiarizada mesmo, tá ligado? Mas seguiu, acreditou e o bagulho tá dando certo.

Mano, sobre o impacto e a recepção da galera, como você vê o papel do skate na cultura jovem e na sociedade como um todo? Qual a importância de projetos assim pra fomentar a cultura?

Acho que, tipo, da mesma forma que fomos moldados pelos caras antigos, a gente colava com os caras dos anos 90. Lembro de colar na casa dos manos pra assistir vídeos de skate e me arrepiava, tá ligado? Eu sentia o skate real. Mas agora é tanta informação, que a nova geração não consegue mais ter essa conexão. Acredito que agora somos nós, a geração que absorveu isso pra caralho, essa conexão com o skate real, que temos que passar pra nova geração o que é o skate, sabe? Colei na première da Simplesmente que teve aqui em BH e os moleques me abordaram dizendo que o Memórias ficou foda e que querem participar. Essa é a nossa missão. Inserir os skatistas da nova geração na cultura, alimentar a vontade deles de estar na rua, filmando skate e fazendo arte, não só no esporte, mas sentir o lifestyle do skate. Por exemplo, mano, você vai até o pico, e ele tá lá parado, não é nada, aí você vai fazer uma obra de arte em cima dele, vai registrar sua manobra, isso é muito foda. Eu penso, ‘caralho, mano, o skate é muito sobre arte’, tá ligado? Então, pra concluir, acho que somos nós mesmos que temos que passar isso pros mais novos. Porque se a gente não fizer isso, eles vão procurar suas próprias fontes e o que tem disponível pra eles é Instagram, TikTok…

Aproveitando que você tocou nesse assunto, como você acha que a cultura do skate mudou nos últimos anos? E de que forma ela influenciou no seu projeto? Porque, de certa forma, você tá indo contra essa parada que tá rolando no skate atual.

Eu gosto do vídeo bem cru, tá ligado? A estética sujão. Porque eu curto vídeos clássicos, consumo até hoje vídeos antigos, acho daora assistir mais de uma vez. 

Hoje os vídeos estão muito efêmeros, né?

Sim. Hoje, os moleques têm muita informação fácil, e os bagulhos vão passando rápido e eles não conseguem absorver tanto. Tipo, a gente que filma, vê o vídeo, vê a manobra, depois pega e volta a ver o vídeo e, tipo assim, quero ver como o cara tá filmando, tá ligado? Tem hora que eu assisto o vídeo e fico brisando só no movimento da câmera. Tipo os movimentos que o Bruno Rocha faz, subindo o tail e descendo, por exemplo. Tem muita coisa pra você absorver… Acho que a galera tem que ter calma e deixar fluir. E essa geração nova, acredito que ela não tem essa fluidez. Tem a questão do tempo também. Na nossa época, o tempo passava mais devagar. Agora, muito por causa da hiperinformação, o tempo passa muito rápido. São tantas coisas que eles consomem que, tipo assim, fica difícil armazenar as informações.

Pra finalizar então, mano, gostaria de saber quais são os próximos passos do projeto. Você pretende expandir o Memórias pra uma série? 

Mano, eu quero dar sequência aos volumes, o próximo vai ser o terceiro. Mas estamos com uma vontade grande de fazer um Full Length, tá ligado? Talvez esse terceiro possa ser um Full Length, ou o terceiro possa ser os rejects do Full Length, (risos). Por agora, estamos mais focados nesse Full Length mesmo. Tentar fazer um vídeo maior, com a CREW e os agregados, como por exemplo, você precisa ter uma parte nesse projeto. Pretendo filmar uns 16 candangos em 2025, fazer um bagulho divertido, pra todo mundo curtir. Colar nos bairros todos, BH é sinistro de picos, mano. Se você explorar, vai encontrar muita coisa, mano, ladeira boa com asfalto bom, tá ligado? A ideia mesmo é esse Full Length, mas se rolar um bagulho daora que dê pra fazer o terceiro volume, a gente solta. Com certeza, vamos dar seguimento.

Muito style, mano. Fique à vontade pra falar mais alguma coisa.

Mano, quero agradecer a vocês pela vontade de fazer essa parada! Acredito que o que vocês estão fazendo vai ser um marco na nossa cultura de Minas Gerais. Passar a informação, isso é daora demais. Lembro que, nas antigas, eu era pequenininho, tinha um site do Nova Zoo, e eu entrava todo dia pra acompanhar as notícias, era muito foda. Rolava os Oscars do skate, não lembro quem fazia. Quero agradecer o Brenndel e você, só força mesmo, mano. Curti pra caralho, fico felizão de ver os manos, que são camaradas nossos de milianos, na mesma frequência, querendo passar a informação, querendo fazer os bagulhos de skate. É isso mesmo, vamo que vamo, vamos seguir, que juntos somos muito mais fortes. Daora mesmo, obrigado!

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2 respostas a “Memórias da Rua: Raphael Alves, G7 Crew e a cena contracultural do skate de BH”

  1. Avatar de Humberto Sousa
    Humberto Sousa

    skateboard real! vida longa G7 crew!!

  2. […] É muito underground, mano. Por isso que eu achei foda você ter feito aquela entrevista [Memórias da Rua] e ressaltar aquela coisa da cultura underground. Porque, mano, até os vídeos que me […]

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