Em La Haine, o espírito individualista e revolucionário, ao mesmo tempo, aliena três jovens parisienses.
A fragilidade da relação entre sociedade e poder é apresentada no início e justifica as 24h seguintes: Abdel está em coma, após ser espancado por um policial em uma manifestação. Seu amigo Vins está determinado a matar um policial e “nivelar” a balança, caso seu amigo não saia com vida do hospital. Vins tem uma arma carregada, muito ódio e um dia inteiro. Acompanhamos, então, 24h da vida de três amigos: o árabe Said, o negro Hupert e o judeu Vinz. Aqui, vale ressaltar que os nomes dos personagens são os mesmos dos atores que os interpretam (acredito até que essa anedota gera um ponto individualizante muito interessante na narrativa). Com os atritos constantes, estresse, humor dissimulado, tensão esmagadora e um certo tipo de desconforto, o longa une com precisão o roteiro e a cinematografia, utilizando do preto e branco para retratar uma Paris violenta, desigual e racista.
Ainda traçando uma perspectiva voltada para a brutalidade policial, o trio incisivamente nos apresenta à subcultura periférica dos banlieues (zonas habitacionais de alta densidade e baixo custo fora do centro de Paris): caracterizando-as por meio dos trajes, do dialeto, do graffiti como forma de expressão artística e do desprezo pelo falso moralismo, sendo os três personagens profundamente deslocados e desmotivados. É impressionante como a trama constrói uma narrativa possível mas que, ainda assim, nos deixa absurdamente surpresos. Um exemplo disso é a cena em que Vins, interpretado majestosamente pelo ator Vincent Cassel, faz referência a um trecho do clássico Taxi Driver, parodiando o icônico Travis Bickle ao ensaiar em frente do espelho como seria o momento do encontro com o seu inimigo, fazendo movimentos com a arma e repetindo “are you talking to me?”. É interessante pontuar que a semelhança desses dois personagens se encontra no fato de ambos estarem tomados pela ira e pelo impulso de fazer justiça com as próprias mãos.
Por mais que não fale abertamente sobre revolução, ele ainda é uma das melhores representações do ódio revolucionário em que consigo pensar: uma raiva ainda desorganizada, escorrendo pelos cantos, se moldando. É um retrato claro e cru do código das ruas, que escancara a criminalidade urbana e a consequente corrupção da juventude, uma vez que esses jovens são abandonados para viver à margem da sociedade, em situação de extrema vulnerabilidade e precarização, tendo seu acesso a recursos e oportunidades essenciais para uma vida digna limitado, para não dizer negado.
O diretor Kassovitz foi criticado por retratar a abordagem policial de forma “exagerada” e acusado de apropriação cultural, já que vem de família rica e com acesso à indústria do cinema. Entendo a necessidade de ouvirmos e contarmos histórias do ponto de vista real, sem fetichização, mas também compreendo que existem acontecimentos ao redor do mundo quase idênticos, em tempos diferentes, em lugares diferentes e com pontos de vistas diferentes, mas que são os mesmos eventos. Digo isso porque o processo de marginalização de uma comunidade é o mesmo em qualquer lugar do mundo: poderíamos, facilmente, transpor a história do filme para 3 amigos na favela da Caixa D’Água, ou no Morro do Papagaio, ou na Cidade de Deus, ou na Lajinha… Poderíamos dizer que essa história se passa no Brasil. Ou mesmo substituir por qualquer outro país, porque o processo é sempre o mesmo.
Aliado a isso, é importante compreendermos que o diretor usou sua posição privilegiada para representar a realidade das massas num cinema que se afasta dos filmes de entretenimento e se aproxima mais do que chamamos de cinema de arte. A denúncia que Kassovitz emprega é uma ferramenta poderosíssima, e é interessante que pessoas que poderíamos julgar alheias às realidades sociais que as cercam estejam conscientes e em movimento. Afinal, se nós, que estamos à margem, muitas vezes não podemos nos movimentar, é dever de quem pode se aliar a nós e criar condições para que nós possamos.
E terminamos a discussão com as frases do início do filme, para propor reflexão (e também um pouco de lucidez): “É a história de uma sociedade que cai, e durante sua queda continua a repetir para si mesma: ‘até aqui, tudo bem… até aqui, tudo bem… até aqui, tudo bem…’. Mas o importante não é a queda, é a aterrissagem.”


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