Se você é um skatista nascido antes dos anos 2000, sabe que esse estilo de vida causava repulsa na sociedade, sobretudo entre os mais velhos e conservadores. Se você tinha amigos que não andavam de skate, certamente era considerado uma má influência pelos pais deles. A sociedade, de forma geral, fazia tudo o que era possível para te isolar, afastar e criminalizar. Em 1988, por exemplo, a prefeitura de São Paulo, sob o governo do então prefeito Jânio Quadros, criminalizou e proibiu o skate nas ruas da cidade, o que fez surgir o famigerado movimento SKATE NÃO É CRIME.

“Skatista é tudo maconheiro!”, afirmavam. “Skatistas são maloqueiros!” Saudades dessa. “São todos vândalos!” Respeitar as regras era visto como cafonice. “Skatistas são um bando de baderneiros!” Está correto, não? Vivíamos em uma espécie de guerra fria com a sociedade dita “normal” — e era justamente nesse embate que encontrávamos liberdade. Liberdade para sermos quem realmente éramos, sem nos preocupar com o julgamento hipócrita de quem jamais entenderia o que fazíamos.

Em algum momento dessa história, o skatista começou a ser cobiçado por sua estética contestadora e contracultural. Depois disso, sua popularidade cresceu exponencialmente e, cada vez mais, foi cuidadosamente introduzido em comerciais e programas televisivos. Processo bastante comum, no qual o capitalismo se apodera da contracultura — que tem por finalidade confrontá-lo — e a transforma em um produto lucrativo. Foi assim com o movimento hippie, com o punk, o hip hop, etc. A estética, então, foi amplamente apropriada por lojas de departamento, bebidas energéticas, cereais, achocolatados e também por novelas e filmes que retratam o skatista de forma estereotipada. O skatista, que durante muito tempo foi rotulado, passou a ser o próprio rótulo.

Hoje o skate não só é considerado um esporte como já virou até modalidade olímpica. Empresários milionários ganham fortunas com o skate, e o número de pistas aumentou consideravelmente pelo mundo afora. Grifes — de moda ou de outros nichos — cada vez mais se associam ao skate. Inúmeros políticos “descolados” agora incluem o skate em suas promessas. Porém, parte do resultado desse boom é que o verdadeiro skatista, aquele naturalmente inconformado e desobediente, foi (e continua sendo!) apagado. Para que fosse aceito pela sociedade, foi preciso eliminar esse perfil original e criar um novo modelo em seu lugar. A imagem que o mainstream transmite é a de um skate homogeneizado, de skatistas dedicados à carreira de atleta, com estilos de vida saudáveis e discursos de coach. Quase não há espaço para a criatividade nesse ambiente: tudo é padronizado, repetitivo; todos são obedientes e excessivamente comportados.

Entretanto, sempre haverá pessoas que encontrarão formas de resistir a essa higienização, dobrando a aposta e reafirmando a identidade original do skate dos anos 90 e 2000. Earl Sweatshirt, skatista e rapper californiano do grupo Odd Future, é um ótimo exemplo dessa influência da cultura marginal do skate. Em 2010, o rapper lançou um clipe com apenas 2 minutos e 31 segundos no canal do grupo no YouTube, com o nome Earl. O clipe se assemelha muito a um vídeo de skate, desde a estética da filmagem — com imagens registradas por uma câmera VX e lente fisheye — até as zoeiras e os entorpecentes muito comuns nesses vídeos. Sem contar, é claro, com o próprio skate.

O clipe é profano e retrata jovens adolescentes como uma ameaça à sociedade. Com versos polêmicos como “Mandado à Terra para enfiar serrotes no ânus dos católicos / E derramar cinzas de baseado nas sepulturas deles”, a música expressa total desprezo pelo caminho da obediência e dos bons costumes que passou a ser associado ao skate. Escalando ainda mais pela mente depravada de Earl, nos deparamos com “Coloca as partes de corpos em decomposição em plástico / Coloca tudo numa panela e mistura com fezes / Depois engole”. A maneira com que o rapper se expressa, para muitos, é repugnante. Para outros, no entanto, é libertadora — especialmente quando levamos em conta esse novo modelo de skatista que precisa seguir tantas normas sociais para ser minimamente aceito.

A atitude do jovem skatista, ainda no início de sua carreira como músico, nos encoraja a reacender a chama transgressora do skate, elemento essencial para que o movimento chegasse até aqui. A tentativa de domesticar essa cultura — por vezes bem-sucedida — tem invisibilizado o skate que conhecemos e impedido que skatistas se identifiquem com a contracultura.

Por outro lado, a postura, um tanto provocativa, que Earl adota ao se expressar também funciona como um repelente de posers. Em certa época, por exemplo, para ser aceito no movimento era preciso conquistar o respeito dos skatistas — que, assim como Earl, eram jovens rebeldes e esquisitos. Já hoje, é comum ver crianças chegando aos skateparks acompanhadas dos pais, muitas vezes com arrogância e desrespeitando os skatistas locais. Evidenciando o quanto o movimento se distanciou de suas raízes.

Voltando à parte estética do clipe, é interessante notar que o ponto alto da crítica é justamente o quão apelativo ele é, e como Earl, junto com seus amigos, reforça todas as loucuras descabidas que as pessoas imaginavam sobre o universo do skate. No clipe, eles são retratados como delinquentes, inconsequentes, maníacos e extremamente esquisitos. O uso de imagens cruas, sem efeitos especiais, aliado ao beat sombrio, cria uma atmosfera perturbadora. O momento em que eles abusam de substâncias tóxicas e saem para andar de skate na rua parece até ter sido roteirizado por qualquer pessoa medíocre — pois é exatamente assim que enxergavam o skatista e imaginavam suas vidas. Depois disso, com as alucinações causadas pela bebida — que mais parece um veneno do que qualquer outra coisa — vemos os jovens muito loucos, perdendo dentes, cabelo, unhas, tendo convulsões… tudo isso com interpretações cruas, tal como em um clássico vídeo de skate.

Para muitos skatistas, é uma lástima o skate ter se tornado o queridinho da sociedade. Isso não só o descaracterizou ao ponto de se tornar praticamente outra coisa, como também impediu a livre expressão do skatista, que antes podia ser esquisito (e quanto mais esquisito, melhor!), e agora precisa viver sob a aceitação social. Após ter contato com esse universo nebuloso dentro do clipe de Earl — que para o skatista não é nenhuma novidade, já que carrega todos os elementos de um vídeo clássico de skate — levantam-se questões sobre o nosso comportamento e até onde nos permitimos ser moldados pela cultura social.

Afinal de contas, se você é mal visto por aquilo que considera o próprio mal, só pode ser um bom sinal. Significa que o skatista ainda preza por seu caráter.

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