Para muitos, o skate ainda é sinônimo de liberdade. Para Guilherme Ribeiro, que teve seu primeiro contato com o carrinho em 2013, na cidade de Oliveira, interior de Minas Gerais, o skate é isso e ainda mais. Para ele, o skate é uma ferramenta para canalizar a criatividade e reinventar o lugar onde mora, superando as dificuldades impostas pela falta de infraestrutura. A ausência de pistas tornou-se um combustível para que Gui desenvolvesse um estilo único.
“Underground até a morte” é como Guilherme Ribeiro vive o skate. Motivado por influências do rap e do rock e com o incentivo de amigos locais, Gui começou a escrever alguns versos em 2017. A maneira como ele vê a cidade contribuiu para que encontrasse esses dois mundos, que estão separados apenas por ruas.
Envolvido desde cedo nos meios urbanos, o ambiente caótico das ruas moldou seu estilo tanto como skatista quanto como MC. Seja compondo músicas e selecionando os melhores versos ou criando uma vídeo parte com manobras criativas, ele se reinventa e busca inovar sempre.
Em conversa com a RTRSM, ele conta como alimenta a sua criatividade, os desafios de andar de skate no interior e como isso pode ser usado como combustível.

E aí mano, suave? Conta pra gente quando e como foi seu primeiro contato com o skate.
E aí mano! Foi por volta de 2013. Meu mano Álvaro Santos, vulgo Paranga, estava dando um rolê na área de lazer, um pico clássico de Oliveira, e foi através dele que tive meu primeiro contato com o skate e decidi comprar um. Lembro que meu primeiro board foi um skate da Twister.
O que você fazia antes de ser skatista? O que te levou para o skate?
Eu jogava futebol. O que mais me atraiu no skate é a liberdade que ele proporciona. Você é livre para fazer e tentar o que quiser com ele; criatividade é tudo!
No futebol você não se sentia dessa forma?
No futebol, você precisa seguir um padrão; no skate, é exatamente o contrário: quanto menos padronizado, mais da hora é o rolê. Posso ser quem sou no skate, e não o que a indústria quer que eu seja.
Você é de Belo Horizonte e foi para o interior, certo? Como é andar de skate em um lugar com pouca infraestrutura? A falta de locais apropriados para o skate te influenciou em algo?
A gente que mora no interior e anda de skate tem que “correr dobrado”. Sempre falo isso com meus camaradas: tudo será mais difícil e o preconceito será maior devido à falta de visão da população. Mas, na minha opinião, isso ajudou a moldar meu rolê; a gente é rua mesmo. A criatividade aflora muito devido à falta de picos, mas acredito que nós, que andamos no chão cascudo, quando vamos para uma cidade maior e temos acesso a uma pista boa com chão liso, aí sim vemos a diferença; as tricks saem com mais facilidade.
Posso ser quem sou no skate, e não o que a indústria quer que eu seja.

Eu te conheci no skatepark da Ilha, em Divinópolis. Quando vi você andando, não imaginei que morava numa cidade com pouca infraestrutura. Seu rolê era tão natural, e logo que nos conhecemos, gravamos uma vídeo parte juntos. Como sua visão sobre o que é skate mudou desde então? Quão importante você considera fazer conexões com skatistas de outras cidades?
Mudou tudo, mano, tudo mesmo. Te agradeço muito. Vocês foram e são inspiração desde sempre, me ajudaram muito em várias questões. Essa parada de que, se você conseguir mandar a trick para valer e cair em cima, mesmo sem acertar, foi com você que peguei essa visão. Só força, mano, agradeço de coração. Essas conexões só nos fortalecem mais e mais. A mistura de estilos é o que faz um vídeo de skate encantar, é uma grande doideira (risos). E também, às vezes, você está ali no rolê em outra cidade, vira inspiração para alguém e nem sabe. Sempre vai ter alguém te admirando e te tomando como exemplo. Somos o que somos e é isso.
O que o skate significa para você?
Liberdade. É o que define.
No que você pensa enquanto anda de skate? Como você decide qual manobra mandar nos pico de rua?
Sempre penso em uma frase quando estou no rolê: “eu quero, eu posso, eu consigo”. Aplico isso à vida, não apenas aos rolês de skate. Cada caso é um caso e cada pico é um pico (risos). Sempre dou uma estudada primeiro antes de começar a tentar a trick, mas depois que eu jogo a primeira e consigo ficar em cima, aí sim destravo a mente e vou pra valer.
Quais são suas referências fora do skate e como elas influenciam no seu estilo de andar?
Sempre curti rap e rock; meus estilos sempre foram uma mistura, nunca centrados em apenas um. Minhas principais referências são meus amigos, sempre foram. Lembro do Ameba, apelido do meu mano Thiago Fontes, que tem o flip mais sinistro que já vi. Aprendi a andar na funbox da pista por causa dele! Só força, Ameba!

Underground até a morte!
Você já teve, ou ainda tem, o sonho de se tornar um skatista profissional?
Não. Se for para eu fechar com uma marca, que seja do meu estilo. Não vou fazer parte de uma entidade na qual vou ter que ficar me regrando. Mas é aquilo, né… underground até a morte.
Já tiveram marcas que fecharam com você?
Sim, já fechei com algumas marcas, mas hoje estou sem apoio. Curti porque foram marcas que combinavam com a minha identidade e eu não precisei mudar para fazer parte, então só tenho a agradecer. Mas, independente disso, a gente anda porque gosta e sempre vai ser assim. Independente de estar com as peças ferradas ou não, sempre damos um jeito; os amigos reais fortalecem e seguimos o fluxo.
Por que você começou a andar de skate na rua?
Meu primeiro contato com o skate foi na rua. Na época, já havia uma pista na cidade que morava (Oliveira) mas a pista estava toda ferrada, cheia de buracos e mal feita. O melhor mesmo era ir para a rua; a gente percebia que dava para evoluir muito mais nela.
Seu estilo é destacado pela criatividade nas manobras. Você tem algum ritual criativo que possa compartilhar?
A cidade onde cresci foi o principal fator na questão da criatividade. Quanto menos picos, mais criativo a gente precisa ser. Além disso, curto assistir a uma vídeo parte antes de dar um rolê e ouvir uma música; isso dá um gás legal pro rolê.
Quais são, na sua opinião, os pontos positivos e negativos das redes sociais e dos vídeos curtos (edit’s) para os skatistas mais criativos?
Como ponto positivo, acho legal porque o público não verá apenas um padrão de manobras iguais, como nas competições. É raro ver alguém mandando um boneless ou um no-comply; muitas tricks estão quase extintas, na minha opinião. Como ponto negativo, acho que o skate se volta demais para a questão da competição, o que acaba tirando a vibe e tornando tudo chato. Estamos vendo as pessoas torcendo para que os outros errem as tricks e se ferrem. Skate não é futebol e é isso que eles têm que entender.


Falando em redes sociais, já ouvi algumas de suas músicas no YouTube. Pode nos contar um pouco sobre sua experiência como MC Guinessy? O skate teve alguma influência na sua decisão de se tornar MC?
Já faz uma cota que não escrevo nada; estou parado mesmo na cena do rap, mas é assim, malandro nunca para, malandro dá um tempo (risos). Comecei a escrever por influência de um amigo, Igor Vieira, vulgo Cid22. Ele começou a me incentivar a escrever porque eu já estava inserido no meio da arte. O Cid tem um estúdio em Oliveira chamado Complexprodutora e, junto com uma galera, movimenta a cena. Eles estão até promovendo um movimento de batalhas chamado Batalha do Cerrado, que deu uma visibilidade legal para a molecada. E o skate influencia, sim, mano, sempre. O D’Assis está ligado nisso (risos).
Qual é a diferença entre criar versos para uma música e escolher manobras para uma vídeo parte?
No skate, a gente vai mais no impulso: pensa e tenta fazer. Na música, criamos e recriamos, sempre analisando e modificando para que fique da melhor forma.
Porque você decidiu viajar para andar de skate em outras cidades?
A gente sempre quer conhecer novos lugares; o skate nos força a sair da bolha né, mano (risos). Sempre que saio para outra cidade pra dar um rolê, sinto que alivia minha alma. Volto renovado e com gás. Eu sinto isso. Além disso, também curto ir para gravar as tricks; é sempre bom encontrar picos novos.
O que você encontrou de diferente entre as cidades que visitava e a que você morava?
Tudo (risos). Onde moro, é só pegar uma bike ou, se estiver disposto, dá para ir a pé onde quiser (risos). Já nas outras cidades, é preciso pegar ônibus, Uber, moto-táxi, etc., só para chegar aos picos. Nas cidades maiores, você vê de tudo e não tem só um padrão; as pessoas têm estilos variados. Muitas vezes, onde moro, me sinto um alienígena (risos) e é possível sentir o julgamento das pessoas apenas pelo olhar.
O skate nos força a sair da bolha
Já sofreu repressão durante alguma sessão de rua?
Sim, mano. Uma vez, eu e meu amigo Paranga estávamos velando uma borda na porta de uma loja e o dono chegou com a esposa dele. Começou a aloprar a gente, ficou descontrolado mesmo (risos), chamou a polícia e fomos presos. Quando o Paranga chegou de viatura em casa, a mãe dele já gritou: “Quem você matou, Álvaro?” Até hoje, dou risada disso. Quando cheguei em casa, os policiais começaram a falar com meus pais e eles ficaram bravos comigo. O clima ficou ruim, mas depois que eles foram embora, peguei o skate e saí para o rolê de novo. Na época, éramos menores de idade, então não aconteceu nada grave; fomos liberados (risos). Nem precisava disso, era só o dono da loja ter pedido pra gente não andar ali que a gente teria saído de boa. Ou não (risos).
Depois de suas viagens, você conseguiu aplicar o conhecimento adquirido nelas à cena do skate na sua cidade?
Sim, sempre que volto de uma viagem, volto com uma visão modificada, mais pilhado e tentando incentivar a galera também. É pique uma dádiva quando a inspiração bate.
Sempre tem aqueles cara de cú que só se importa com pódio
Pra finalizar nosso papo: uma vídeo parte ou um pódio em campeonato?
Vídeo parte, com certeza. Na minha opinião, a vídeo parte é muito mais sobre a rua. Mandar uma trick na rua exige o dobro de esforço em comparação com mandar em uma pista e o sentimento de gravar as manobras para uma parte, investir e ver tudo ganhando forma é extremamente gratificante. A essência do skate está na rua, pois foi lá que tudo começou. Vejo os campeonatos mais como uma confraternização, uma oportunidade para juntar e rever os amigos. Mas sempre tem aqueles caras de cu que só se importam com o pódio. Está cheio desses por aí, tirando onda sem humildade nenhuma e ainda ficam putinhos se algo atrapalha eles a mandarem a trick. Pra esses, é poucas ideias; eles ficam no canto deles e os reais seguem com os seus.


Fotografia: Wanderson Almeida


Deixe uma resposta