SKATE VENEZUELANO NA CONTRAMÃO DO MAINSTREAM

Na esfera geopolítica, o laranjão atua como um imperador histérico que se acha dono do mundo e segue invadindo países com menos poder militar do que o seu, de maneira totalmente arbitrária. No plano social, discute-se a legitimidade ética de os Estados Unidos recorrerem ao já conhecido modus operandi de “depor um ditador” como pretexto para o controle de recursos estratégicos, em especial o petróleo, produzindo como consequência direta a punição coletiva de toda a nação venezuelana. Faz sentido?

Em meio a esses e tantos outros conflitos, os skatistas venezuelanos seguem fazendo aquilo que sabem fazer de melhor: ocupar as ruas para filmar e andar de skate junto aos amigos. E, de quebra, confrontar outras narrativas predominantes na cultura, que tentam fixar na imagem do skatista o mesmo imaginário do jogador de futebol ou do atleta de sucesso. Para muitos, essa visão é tratada como regra, e não como exceção, tampouco como sorte, descolando tais exemplos de qualquer relação direta com mérito ou dedicação. O skate underground, contudo, insiste em expor essas contradições e reafirma sua identidade à margem desse ideal de sucesso performático e esteticamente cafona.

“Señor, Ten Piedad” é um full video da Sticky Sunday Sale, skateshop localizada em Caracas, Venezuela, dirigido por Rafael Catamo e filmado por Erick Ornelas. O vídeo é bastante cru, não tem efeitos visuais nem transições elaboradas. São cortes secos, música de fundo, além de introdução e créditos com B-rolls e tombos, espaços tradicionalmente dedicados a esse tipo de imagem. O vídeo também não utiliza imagens em fisheye, o que torna a experiência do telespectador um pouco mais distante da obra, já que além de seu simbolismo dentro da cultura, a fisheye também funciona para aproximar o espectador do vídeo (por acompanhar o skatista colado nele), conferindo um movimento mais fluido ao projeto.

360 kickflip frontside 50-50, Rafael Catamo

Neste caso, porém, por se tratar de um vídeo com espírito DIY levado muito a sério, a ausência desses elementos não interfere negativamente, pelo contrário. A falta deles adiciona um tempero extra e intensifica a originalidade da obra, ao mostrar seu caráter mais orgânico e artesanal. A construção do projeto, ademais, foi feita à medida em que Rafael e Erick aprendiam a manusear os equipamentos. Soma-se a isso a busca constante por referências e o trabalho de pesquisa que acompanhou todo o processo. “Señor, Ten Piedad” levou dois anos para ser concluído, o que mostra a disposição dos skatistas em não se acomodar em produções pequenas. Ainda que o aprendizado da filmagem tenha sido trabalhoso ao longo do caminho, eles persistiram na realização de um full video de 40 minutos para contribuir com a cultura.

Em entrevista exclusiva para a Jenkem Magazine, o fundador da Sticky Sunday Sale fala sobre sua visão do skate e sobre como ela foi o motor de construção de “Señor, Ten Piedad”. Nela, ele utiliza como exemplo o skatista venezuelano Jerwin Garrido, descrito como um jovem que ainda não sabe ler nem escrever e é praticamente sem-teto, não por não ter onde morar, mas por preferir estar nas ruas. Ainda assim, é uma referência para os locais: “ele consegue fazer manobras em qualquer borda, escada, corrimão. Ele tem talento nato.” afirma Sticky. A partir desse exemplo, ele explica como o skate nas Olimpíadas não faz questão de lidar com pessoas como Garrido, tampouco de fortalecê-las, concentrando-se majoritariamente em atletas competitivos e no próprio espetáculo da competição.

Vamos falar de Garrido, então. Sua parte se destaca imediatamente pelo nível técnico das manobras. É fácil reconhecer um talento latente quando se observa a forma como ele anda de skate, executa seus movimentos e uma leitura do que é possível fazer na rua que só se constrói na prática. É impressionante como skatistas tão jovens conseguem atingir um nível tão alto apenas andando de skate sem, necessariamente, consumir conteúdos teóricos ou análises técnicas sobre a cultura. O corpo aprende antes da linguagem, e o skate sempre foi, historicamente, um território onde o saber se transmite pela vivência. 

A cultura do skate sempre incluiu sujeitos politicamente à margem da sociedade, independentemente de classe social, raça ou escolaridade. As competições espetacularizadas, no entanto, tendem a admitir apenas aquilo que pode ser controlado, normatizado e ajustado aos seus próprios interesses. Nesse contexto midiático, a dificuldade de leitura e escrita pode se transformar em mais um fator de exclusão, expondo como essas estruturas seletivas operam para definir quem terá acesso à visibilidade e às oportunidades.

Isso ajuda a entender por que trajetórias como a de Jerwin Garrido dificilmente terão as mesmas oportunidades que, por exemplo, Rayssa Leal teve ao acessar estruturas institucionais, midiáticas e olímpicas. Esse contraste evidencia que não há meritocracia nesse processo. Garrido — assim como tantos outros skatistas com perfil semelhante — tende a permanecer à margem dos benefícios que o skate passou a usufruir com sua recente popularização. E isso acontece apesar de pessoas como ele contribuírem, muitas vezes de forma muito mais profunda, tanto para a cultura quanto para a evolução técnica do skate. É possível afirmar que as olimpíadas segue a lógica que recompensa a adequação de certos valores; por outro lado, o skate, por essência, sempre valorizou a transgressão dos mesmos. Por isso, embora ocupem hoje o mesmo espaço discursivo em certos momentos, skate e Olimpíadas seguem caminhos completamente distintos. Skate de um lado. Olimpíadas do outro, bem distante…

Backside Five-o, Jerwin Garrido

Na mesma fala, o fundador da Sticky Sunday Sale ainda complementa, em tradução livre: “Nosso foco é estar nas ruas com os amigos, unindo as pessoas. O skate não é sobre competição; vai muito além disso. E é por isso que esta entrevista é importante para nós, porque muitos dos skatistas neste vídeo acreditavam que a única maneira de serem notados era vencendo uma competição.”

A Venezuela, sobretudo no Brasil, costuma ser tratada como um país hostil, pobre e como exemplo do que nenhuma outra nação deveria seguir. Neste projeto, contudo, o skate desloca essa narrativa e propõe um novo olhar sobre a cultura dos hermanos. À primeira vista, o urbanismo venezuelano parece convidativo à prática do skate; no entanto, a recorrência de imagens em que guardas reprimem os skatistas deixa claro que a atividade não é bem-vinda no espaço público (assim como no Brasil, onde os skatistas enfrentam os mesmos tipos de repressão). Paradoxalmente, é justamente essa resistência que levou muitos de nós a se apaixonarem pela cultura do skate e a se tornarem parte dela. A essência do skate é transgressora, e os venezuelanos demonstram que, ainda hoje, mantêm essas raízes vivas.

Em um momento em que a cafonice imperialista invade e tenta deturpar a cultura por meio de uma enxurrada de regrinhas e vestimentas duvidosas que associam o skatista à figura do atleta (e sabemos que o intuito é promover uma “limpeza” de imagem e separar os competidores daqueles que estão nas ruas), projetos como “Señor, Ten Piedad” preservam o estilo autêntico do skate, confrontando a baranguice estética que se tenta impor como imagem única dos skatistas.

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