Um outro olhar sobre o vídeo

“No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho.” Todo brasileiro, em algum momento, já se deparou com esses versos do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade. Neles, o poeta faz com que a primeira parte do verso se repita na última, enquanto a segunda se reflete no encontro com a terceira, criando um efeito de espelhamento que reforça a ideia central do poema. Tudo isso é feito de maneira intencional.

Muitos skatistas utilizam linhas espelhadas em vídeos, uma prática frequente e relativamente comum. Embora seja uma ideia criativa, muitas vezes ela se esgota no próprio conceito de espelhamento, não se estendendo para além disto. O skate, porém, como uma forma de expressão, possui a capacidade de se comunicar além do explícito. É possível, por exemplo, trabalhar conceitos sutis, introduzindo elementos de outras artes e estabelecendo intertextualidades.

Mark Suciu é um skatista profissional californiano, formado em Escrita Criativa e Literatura pela Temple University. Em 2019, ele publicou, em parceria com Justin Albert (diretor), um dos vídeos de skate mais inteligentes já produzidos, tanto em conceito quanto em execução. Intitulado Verso, o projeto reflete diretamente a formação acadêmica de Suciu, que a utiliza para elevar o skate a uma dimensão reflexiva e estruturalmente sofisticada.

A partir do minuto 9:40 de Verso – recorte ao qual me restringirei nesta análise –, Suciu realiza uma série de linhas espelhadas e aparentemente aleatórias. Entretanto, o modesto frontside 50-50 indica que há algo a mais para ser compreendido.

Antes de iniciar a análise, é útil entender, pelas próprias palavras de Mark Suciu, a concepção das linhas finais de Verso. Em entrevista à 032c, Suciu explica que o vídeo começa como uma parte clássica de skate, semelhante às produzidas por grandes marcas nos anos 2000, mas culmina em uma seção onde todas as manobras se espelham, interagindo de forma quase geométrica. Segundo ele, a ideia segue a lógica do quiasmo, cuja forma básica é ABBA.

No contexto do skate, uma série de manobras é chamada de linha, e quando uma linha é espelhada, o skatista realiza uma manobra de “base regular” seguida da mesma manobra em “switch”, ou seja, uma versão invertida de si mesma. Embora essa prática seja comum, Suciu elaborou uma estrutura mais complexa, composta por 14 unidades – sete linhas de duas manobras cada – aplicando o esquema ABBA de forma expandida: A, B, C, D, E, F, G, F, E, D, C, B, A. Essa configuração cria um efeito de simetria quase quadrantal, evidenciando o caráter meticuloso e conceitual do vídeo, mesmo que, nas palavras do próprio Suciu, o detalhamento técnico possa parecer excessivo.

Com isso exposto, é necessário elucidar o que é o quiasmo, uma figura da retórica clássica amplamente utilizada na linguagem poética. O termo “quiasmo” deriva do grego chiázo, que significa “formar como a letra X”. Em retórica, refere-se à inversão simétrica de elementos (ABBA) de modo que a segunda metade da estrutura reflita, em ordem inversa, a primeira. Essa forma cria uma tensão e uma resolução internas, produzindo um efeito de completude e harmonia.

O quiasmo é muito utilizado para destacar temas complexos, enfatizar conceitos incomuns ou dar foco a uma mensagem específica. Nesse contexto, evidencia-se o quão brilhante foi a aplicação desse recurso por Mark Suciu. Todo skatista familiarizado com seu estilo sabe da complexidade de suas manobras, em muitas partes, é necessário rever os movimentos uma, duas ou até três vezes para compreender como ele contorce o corpo enquanto executa sequências de wallies e 180s tão rápidas que o espectador mal percebe o que aconteceu. Se a intenção do quiasmo foi enfatizar essa complexidade e, ao mesmo tempo, lançar luz sobre essas manobras – mesmo que tal efeito se manifeste apenas no ritmo do vídeo –, é preciso reconhecer que Mark Suciu, junto a Justin Albert, trabalhou seriamente nesse projeto.

Em Verso, o quiasmo é aplicado tanto de forma estrutural quanto técnica. Nos minutos finais do vídeo, a sequência é composta por 14 manobras, organizadas em sete pares: (A–G) e suas correspondentes inversas (G–A). Cada par se constrói por meio da inversão de direção (frontside/backside) e variações de postura (nollie/fakie/ollie/switch), estabelecendo correspondência e contraste entre os dois lados do eixo central.

O esquema estrutural pode ser representado da seguinte forma:

PosiçãoManobra Linha 1Manobra Linha 2 
AOllie frontside 50-50Ollie frontside 50-50
BNollie frontside heelflip → switch frontside nosegrind reverse (frontside)Nollie backside heelflip → switch frontside five-o reverse (backside)
CNollie backside crookedFakie backside crooked
DNollie frontside kickflip → switch backside five-o reverse (frontside)Switch backside kickflip → backside nosegrind reverse (backside)
EOllie backside nosegrind reverse (frontside)Ollie frontside nosegrind reverse (backside)
FFakie backside kickflip → frontside nosegrind reverse (frontside)Fakie kickflip → switch frontside five-o reverse (backside)
GNollie frontside 180 → switch frontside five-o reverse (frontside)Nollie backside 180 → switch backside nosegrind reverse (backside)

*Observa-se que os nomes das configurações das manobras podem apresentar pequenas imprecisões; no entanto, de modo geral, é possível apreendê-las de forma aproximada, conforme apresentado no quadro acima.

Para maior clareza, cabe ilustrar de forma ordenada e sequencial a estrutura arquitetônica construída por Suciu, permitindo uma visualização mais precisa. Além disso, é importante recorrer ao próprio vídeo para observar o que acontece enquanto ele costura as linhas. O esquema ilustrativo pode ser utilizado como suporte, auxiliando na análise.

Esquema Ilustrativo:

A – Ollie frontside 50-50

B – Nollie frontside heelflip to switch frontside nosegrind reverse (frontside)

C – Nollie backside crooked

D – Nollie frontside kickflip to switch backside five-o reverse (frontside)

E – Ollie backside nosegrind reverse (frontside)

F – Fakie backside kickflip to frontside nosegrind reverse (frontside)

G – Nollie frontside 180 to switch five-o reverse (frontside)

G –  Nollie backside 180 to switch backside nosegrind reverse (backside)

F – Fakie kickflip to switch frontside five-o reverse (backside)

E – Ollie frontside nosegrind reverse (backside)

D – Switch backside kickflip to backside nosegrind reverse (backside)

C – Fakie backside crooked

B – Nollie backside heelflip to switch frontside five-o reverse (backside)

A – Ollie frontside 50-50

Nas sete primeiras manobras, que compõem o corpo superior do esquema, Suciu prioriza o reverse para o lado frontside. No corpo inferior do esquema, por outro lado, ele cria contraste utilizando o reverse para o backside. É possível observar, ainda, que na linha C há um contraste de bases: enquanto na C superior ele executa um nollie, na C inferior a manobra é realizada em fakie. Suciu também explora configurações opostas em outras linhas, como na F, em que, no campo superior, realiza um nosegrind, e no inferior, um five-o.

Na linha G, situada no centro da estrutura, as manobras se contrapõem dentro de uma mesma sequência, funcionando como divisor do esquema, onde o espelhamento começa.

Suciu inclusive mantém algumas configurações de manobras equivalentes. Entre elas destacam-se: o nollie heelflip das linhas B, executado para lados diferentes; o ollie nosegrind das linhas E, também em direções opostas; os crooked das linhas C, sendo um executado em nollie e o outro em fakie; e, por fim, para fechar o arco, os ollie frontside 50-50, que se repete exatamente na primeira e na última linha.

À primeira vista, parece um verdadeiro caos, com muita complexidade, intenso contorcionismo que, além de desafiar a física, exige que o espectador reveja as manobras para compreendê-las de modo integral. Contudo, ao observar com mais atenção os detalhes, percebe-se uma obra completa, cuidadosamente articulada para aqueles que buscam algo mais profundo no skate. O contraste e as combinações entre as configurações de manobras realizadas por Suciu estabelecem uma simetria que dá a sensação de um caos ordenado. 

O vídeo cresce em complexidade até atingir seu ápice e retorna em harmonia, criando um arco visual comparável à estrutura de um poema, de uma sonata ou de uma composição arquitetônica simétrica. A aplicação do quiasmo pressupõe que cada manobra é simultaneamente autônoma e relacional: seu sentido pleno só se revela quando confrontada com sua inversa. Essa relação estabelece ritmo, coerência e sensação de fechamento, elementos raros em produções audiovisuais de skate.

Essa organização formal evidencia que a obra de Suciu não foi projetada para ser assistida como um vídeo de skate qualquer. Ainda que seja possível identificar nela unidades que a aproximam de outras produções, como a música e as manobras, sua estrutura revela um propósito mais elaborado. A partir dessa constatação, tornou-se pertinente sistematizar uma análise dos minutos finais de Verso, articulando conceitos da Teoria da Literatura, estudados no curso de Letras, com os recursos expressivos presentes na sequência. Tal aproximação demonstra que o skate, quando observado sob uma perspectiva teórica, revela-se uma prática simbólica e intencional, capaz de gerar discursos complexos sobre movimento, forma e criação. Trabalhos como o de Mark Suciu, portanto, reforçam a ideia – sustentada por muitos praticantes – de que o skate ultrapassa o status de mero brinquedo, configurando-se como uma forma legítima de expressão artística.

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2 responses to “O que Mark Suciu fez em “Verso”?”

  1. Avatar de Ivan
    Ivan

    vai tomando mark suciu

  2. Avatar de Humberto Sousa

    indin gastou mesmo nessa analise! 🖤

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