Ainda que a popularização do skate tenha trazido dilemas, que vão da apropriação pela indústria ao risco de diluir sua essência de rua, também abriu espaço para histórias de transformação social. O boom de pistas após as Olimpíadas é um exemplo disso, mas em países da Ásia e da África o impacto da fama do skate assumiu outra dimensão: menos voltada ao espetáculo e muito mais contestadora e política.
É o que retrata a série Shred the Patriarchy, premiada no Sony World Photography Awards. As imagens da fotógrafa italiana Chantal Pinzi expõem o que mulheres que vivem e pesquisam a cena já conhecem: o skate não se limita a manobras ou lazer. Ele funciona como resistência, como estilo de vida e como forma de reconfigurar a relação com a cidade e com o próprio corpo.
Na Índia, jovens mulheres têm usado o skate como fuga da invisibilidade (World Skate). Em vilarejos como Janwaar, um skatepark se tornou motivo de um novo sonhar para meninas que antes seriam empurradas à força para o trabalho doméstico e a maternidade compulsória e hoje vêem no skate uma maneira de recusar os moldes de vida tradicionais do país. Sem instrutoras formais, elas aprendem entre si, construindo o conhecimento de forma intuitiva. Essa rede de apoio tem sido fundamental para o crescimento do skate feminino, fortalecendo não só a prática, mas também a ideia de que ocupar espaços é um direito compartilhado. Num contexto em que até estar na rua pode ser visto como transgressão, andar de skate é um ato político.
No Marrocos, por exemplo, a repressão se manifesta de outras formas, mas com a mesma intensidade. Andar de skate é comprar uma briga com a sociedade inteira. Pinzi relata em entrevista ao Global Focus/Xposure que muitas mulheres enfrentam punições familiares e sociais, além do assédio cotidiano, simplesmente por insistirem em praticar. O skate se torna, nesse caso, a afirmação do direito de decidir o que fazer com o próprio corpo e o próprio tempo.


Muitas pessoas resistem a chamar o skate de “esporte” justamente porque o aprendizado que vem dele ultrapassa a prática em si e se transforma em uma maneira de interpretar a cidade e o mundo. Para as mulheres, esse movimento é ainda mais intenso. Ser skatista significa também disputar um espaço historicamente hostil, enfrentando a repressão cotidiana, vinda tanto da polícia quanto da sociedade, e transformando a própria cidade em território de liberdade.
A série de Pinzi dialoga diretamente com a tradição visual que, por séculos, construiu e fixou estereótipos sobre a mulher. Ao registrar jovens em kurtis ou saris (vestimentas carregadas de identidade e tradição) em situações não previstas para elas, como andar de skate ou ocupar o espaço urbano de maneira afirmativa, Pinzi tensiona justamente a contradição entre representação e realidade. Em algumas imagens, vemos mulheres no instante da manobra; em outras, posando sozinhas ou em grupo, segurando o skate não só como objeto, mas como extensão de si, quase como um artefato de um ritual capaz de reescrever papéis sociais.

No fim, o que o trabalho de Pinzi reforça não é uma mensagem otimista ou romantizada, mas o fato de que em muitos lugares do mundo, andar de skate ainda é sinônimo de desafiar hierarquias sociais e familiares. Para as mulheres, esse gesto, aparentemente simples, continua sendo profundamente político.
O tempo como disputa
A cena das mulheres de Janwaar aprendendo a andar de skate mostra como a mudança sociocultural pode nascer de gestos mínimos. Em países ocidentais, a ideia de que uma mulher precise lutar pelo direito de andar de skate com as amigas soa absurda. Para milhões de indianas, no entanto, a realidade é que direitos básicos de convivência e expressão ainda são negados. Projetos como Shred The Patriarchy revelam que, mesmo em contextos de repressão, há fissuras que permitem questionar normas rígidas de gênero.
Enquanto pesquisava para escrever este artigo, me dei conta de uma questão que já havia surgido em conversas com amigas: a ausência de hobbies coletivos na vida das mulheres. Ter um hobby ainda é visto como algo supérfluo, que pode ser facilmente descartado diante de outras demandas. Mas quando falamos das mulheres, a situação é ainda mais grave. A elas, culturalmente, é atribuído o trabalho não remunerado do cuidado, que precisa ser conciliado com o trabalho formal e, muitas vezes, com a sobrecarga doméstica. O resultado é que sobra pouco ou nenhum tempo para si mesmas.

Não se trata apenas de “reorganizar a agenda”. O que está em jogo são estruturas sociais que colocam as mulheres constantemente à disposição dos outros e raramente de si mesmas. Nesse cenário, hobbies deixam de ser lazer e passam a ser uma forma de sobrevivência subjetiva. O skate, nesse sentido, rompe com a norma: cria um espaço coletivo em que mulheres podem se descobrir, trocar experiências e assumir o protagonismo de suas trajetórias. Compartilhar ideias, se organizar, ocupar o espaço público — tudo isso, além de ser constitutivo da cultura do skate, é também parte do processo de tomada de consciência sobre a condição feminina.
A realidade das meninas da Índia, do Marrocos e de outros países da Ásia e da África ainda está distante da nossa em termos de direitos garantidos. Mas isso não significa que aqui possamos “relaxar” como se tudo já estivesse resolvido. Como lembra Susan Faludi em Backlash, sempre que sociedades atravessam crises, os direitos das mulheres são os primeiros a ser questionados. O contraste serve como alerta e também como inspiração: mesmo diante de barreiras sociais muito mais rígidas, essas meninas insistem, porque acreditam no skate como ferramenta de transformação social.


O mundo não vai criar pausas espontâneas para que as mulheres usufruam de seu próprio tempo livre. É preciso disputar esse direito de forma consciente, garantindo momentos de escolha e de experimentação que não estejam sempre subordinados a expectativas externas. Ter tempo para si não é luxo: é condição para existir de forma plena.
O skate, ao oferecer essa possibilidade de encontro e descoberta coletiva, materializa esse direito. Talvez reste a pergunta: se em tantos lugares do mundo andar de skate ainda é profundamente político, o que estamos dispostas a fazer para que essa luta não seja interrompida?


Deixe uma resposta