“Quem não tem cão, caça com gato!”, o ditado popular que fala sobre criatividade, sobre não deixar de fazer algo apenas por não dispor dos recursos ideais. Essa sabedoria parece estar no cerne do skate, especialmente entre skatistas sem apoio, vindos de cidades mais afastadas e com menos acesso em comparação com as grandes metrópoles. A produção audiovisual na cultura do skate de rua é um elemento levado a sério e, muitas vezes, os próprios skatistas precisam se virar como podem para criar seus próprios meios de acesso e contribuir com a cena, fazendo muito com praticamente nada.

Em Nova Serrana, uma pequena cidade no interior de Minas Gerais, encontramos um excelente exemplo dessa realidade. Victor Charlles e Benedito Mariano (Bené), ambos naturais de Capelinha/MG, lançaram recentemente Recurso Mínimo, um projeto realizado praticamente sem nenhum recurso. Os skatistas percorreram mais de 400 quilômetros em busca de melhores condições para continuar fazendo o que amam: andar de skate. No entanto, mesmo na nova cidade, enfrentaram muitos percalços. Com muito trabalho e determinação para se manterem focados no objetivo, conseguiram superar as dificuldades e concluir seu primeiro vídeo de skate de rua — e esperamos que seja o primeiro de muitos.

Em 2024, Victor Charlles apresentou à Rataria sua ideia para o projeto. Por estar totalmente alinhada com os nossos objetivos, não pensamos duas vezes antes de nos oferecer para colaborar e contribuir para que a ideia saísse do papel e se tornasse realidade. No dia 30 de abril de 2025, realizamos juntos a première de lançamento do vídeo Recurso Mínimo. Durante o evento, além das conversas que surgiram em torno do vídeo e da prática do skate de rua, os discursos de Victor Charlles e Bené também se destacaram na noite. Suas palavras, um tanto inspiradoras, certamente contagiaram muitos dos skatistas presentes.

Somos muito gratos por essa parceria e, por isso, decidimos compartilhar um pouco mais sobre o processo de construção do vídeo e sobre a trajetória que levou Victor Charlles e Bené até Nova Serrana.

Brenndel Ferreira: Para começar, quero voltar um pouco no tempo. O que motivou vocês a saírem de Capelinha?

Victor Charlles: A motivação foi totalmente voltada ao skate. Por estarmos perto de uma capital, acreditamos que haveria mais skatistas, mais recursos. Talvez nem tantos assim, mas o suficiente. Achamos que seria mais fácil tentar fazer algo com aquilo que a gente ama por aqui!

O skate, então, teve um papel fundamental na sua decisão de mudar de cidade, né? E como foi o processo de adaptação em Nova Serrana, em relação aos movimentos de skate?

Sim, foi só pelo skate mesmo. A relação com a galera local foi bem tranquila. A gente já se conhecia de algumas vindas anteriores, só de passagem. Mas o pessoal daqui era mais focado em andar em pista, então acabou sendo meio difícil pra gente.

Como era a cena do skate em Capelinha? A galera era mais unida, tinha eventos, como era o movimento?

A cena do skate por lá sempre existiu, mas nunca de forma muito intensa, tanto em número de skatistas quanto em campeonatos, eventos e afins. Por ser uma cidade bem pequena e com poucos skatistas, sempre existiu uma união bonita entre a galera. Pela pouca quantidade de pessoas que viviam ali respirando skate, era como se todos fossem um só.

Comparando com Capelinha, a arquitetura e os espaços urbanos de Nova Serrana favorecem mais a prática do skate de rua, ou não?

Sim, aqui tem mais praças, mais lojas, ou seja, mais picos. É gigante se comparado a Capelinha. 

Nova Serrana é maior, mas ainda é considerada uma cidade pequena. Produzir um vídeo de skate de rua nesse tipo de cidade traz quais desafios? Há preconceito ou resistência por parte da população local?

O maior desafio, além de conseguir o mínimo necessário para filmar, foi convencer a galera a tentar produzir alguma coisa. Preconceito e resistência são coisas que a gente sonha que acabem um dia, mas durante o processo de filmagem isso ainda rolou, fazer o quê, né? (risos) Mas é isso, no fim das contas nem ligamos, seguimos em frente!

O nome do vídeo, Recurso Mínimo, já diz muita coisa por si só. Mas queria ouvir de você: a escassez de recursos moldou a identidade do projeto? Como foi fazer um vídeo praticamente na raça, sem apoio?

Sim, mano, eu via todo mundo fazendo vídeos com super câmeras, P2, VX, vários acessórios e, olhando pra minha DSLR de entrada, sem mais nada em mãos, foi daí que veio o nome. Não vamos dizer que foi difícil, porque isso seria desmotivante, e essa não é a ideia. É possível fazer, mesmo com o que há de mais simples em tecnologia. O que importa vai muito além do audiovisual e da estética. E eu sei que muita gente vai entender isso.

Quando vocês começaram o projeto, já tinham uma ideia clara do que queriam? Qual era a visão inicial?

Não, a gente nunca planejou nada. Só saíamos pra filmar e nos divertir, sem saber exatamente o que queríamos. A ideia mesmo só surgiu no final, quando já tínhamos acumulado bastante imagem filmada (risos).

Durante o processo, rolou alguma frustração por não conseguir reunir a galera pra filmar? Por que vocês acham que muitos skatistas ainda resistem ao skate de rua, mesmo ele sendo a essência? Na sua opinião, o que atrai tanta gente só para as pistas?

Sim, essa sempre foi a maior dificuldade. Talvez, a falta de tempo de cada um, sei lá. Acho que a galera curte mais andar em pista por ser algo mais simples, mais prático… meio que uma zona de conforto, diferente da rua, que exige mais. Mas eu espero que isso mude!

Nos créditos do vídeo, aparece um acidente de moto em que o motorista do carro não presta socorro. A rua é cheia de imprevistos, vocês acham que isso contribui para o skatista de rua ser mais atento, mais ligado no que está acontecendo ao redor?

Sim, mano, motorista cuzão. E muita coisa acontece: mano chapado, gente querendo tretar, e ainda tem quem resista ao skate de rua. Tudo isso rola direto. 

No discurso da première, vocês falaram sobre a importância de “fazer por si mesmo”. Me pareceu quase um manifesto, um chamado pra que os próprios skatistas valorizem e produzam seus vídeos sem esperar de ninguém. O que exatamente vocês quiseram dizer ali?

Sim, cara, é isso. Ficar sentado esperando que algum videomaker apareça para filmar skatistas sem muitos recursos, morando em cidades do interior como a nossa, é impossível. Então, o melhor é se contentar e agir: faça você mesmo, pela amizade, pela união e pela inspiração dos próximos.

E agora que Recurso Mínimo está lançado. Sei também que estão com equipamentos melhores, já tem algo novo engatilhado? Conta pra nois!

Sim, talvez com um recurso mediano agora (risos). Tenho algumas ideias, mas nada definido por enquanto.

Pra fechar: fiquem à vontade pra deixar um salve, falar o que ficou de fora ou mandar um recado pra quem vive o skate como vocês. O espaço é de vocês.

Obrigado a todos que estão desde o início. Desculpa a quem magoamos, de verdade. Aos amigos que, infelizmente, não estiveram durante o processo do vídeo, a rapaziada de Capelinha, tamo junto, obrigado a todos. O mais importante nisso tudo é ser inspirador. Reúna sua turma, seja com celular, câmera de fita, handycam, qualquer coisa. Ande de skate, se divirta, aproveite e registre cada momento. No fim, o que fica são as boas lembranças. O simples também é lembrado! Valeu, Rataria, pelo espaço.

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