Foda-se a performance, vamos falar sobre as invasões urbanas e o nosso mercado

Este ano comemoramos o 21º Go Skateboarding Day. Para alguns skatistas, no entanto, uma data comemorativa como essa apenas aproxima ainda mais o skate da cultura popular. Primeiro, porque não precisamos de um dia específico para sair e andar de skate; segundo, porque uma data “especial”, colocada ao lado de outras como o Dia dos Namorados ou o Natal, acaba evocando a ideia de mais um feriado performático e irritante. Entretanto, diante de tudo o que o skate — e, mais ainda, o mercado do skate — tem enfrentado nos últimos tempos, vale resgatar o espírito original dessa data como um possível alerta para o futuro. 

O Go Skateboarding Day foi criado em 2004 pela Associação Internacional de Empresas de Skate (IASC). Ainda que a motivação inicial tivesse um caráter lúdico, como simplesmente sair pelas ruas e andar de skate, o objetivo também era promover a prática e torná-la mais acessível entre as massas. A ideia era divulgar o carrinho, atrair mais pessoas para o skate e, com isso, impulsionar o mercado.

A escolha da data não foi aleatória. Em Nova York, o dia 21 de junho é conhecido como Manhattanhenge — o solstício de verão —, o dia mais longo do ano. Nada melhor para comemorar o Dia do Skate do que um dia longo como esse. Mesmo assim, apesar de esse fenômeno ser exclusivo de Nova York, boa parte do mundo aderiu à data, o que fez com que o dia fosse reconhecido como o International Skate Day. 

Mas vale lembrar: embora sua criação oficial tenha vindo de empresários, a origem do Go Skateboarding Day é, na verdade, um pouco mais subversiva. Em 2002 e em 2003, um evento semelhante aconteceu nas ruas de Nova York: o All City Skate Jam, idealizado por Kerel Roach e Bryan Chin. Esse evento era totalmente orgânico, ao contrário do Go Skateboarding Day. Organizado por skatistas e voltado para skatistas, seu propósito era simples e direto: tomar as ruas e andar de skate. Nada de trabalho, escola ou obrigações. Naqueles dias (a primeira edição em 14 de junho de 2002 e a segunda em 24 de agosto de 2003), a única prioridade era se divertir andando de skate, e que se foda os compromissos.

Uma curiosidade: aqui no Brasil, o Dia do Skate foi oficialmente reconhecido por lei em 1995. A data escolhida em São Paulo era 03 de agosto, proposta pelo vereador Alberto Hiar (o Turco Loco), aprovada pela Câmara Municipal e sancionada como Lei nº 11.812 pelo então prefeito Paulo Salim Maluf. Interessante notar que, ainda que o skate tenha nascido nos Estados Unidos, fomos pioneiros na criação de uma data oficial para celebrar esse estilo de vida — com a mesma proposta, diga-se de passagem. No entanto, a data não se popularizou o suficiente para se manter como tradição. Com o tempo, os brasileiros acabaram aderindo ao 21 de junho, tendo sua primeira edição do Go Skate Day realizada por aqui em 2010.

Voltando ao Go Skateboarding Day: no início, sua grande repercussão chamou a atenção de publicitários e marcas. A Nike, por exemplo, tentou associar seu nome ao 21 de junho com a campanha “Skate Every Damn Day”. Todavia, sabemos que a “laia” do skatista não é exatamente inocente. O movimento acabou sendo sequestrado pelos próprios skatistas, depois que os organizadores perderam o controle sobre a data. Hoje, é possível ver o Go Skateboarding Day sendo celebrado em diversos cantos do mundo, e nem sempre com o envolvimento de grandes marcas, embora elas ainda estejam por perto. 

No Brasil, o Go Skateboarding Day nem sempre acontece no dia 21, o que deixa um pouco a desejar, já que o objetivo da data é, justamente, abandonar os compromissos e sair para andar de skate. Em alguns lugares, o evento é ajustado para o final de semana mais próximo, para que os skatistas estejam “livres” para comemorar. Outro ponto que vem crescendo — e que também foge da proposta original — é a realização dos eventos em skateparks, em vez da tomada das ruas centrais das cidades. A invasão das ruas é fundamental para dar visibilidade à cena local e mostrar que a cultura resiste.

Dito tudo isso, cabe agora um alerta: se conseguimos retomar a data para os skatistas e mostrar que não é fácil controlar o que é nosso, talvez seja hora de ampliar ainda mais essa postura e proteger, de forma ativa, o nosso mercado. Não é segredo para ninguém que o mercado do skate brasileiro está em crise. Não vou entrar em questões políticas por não ter conhecimento suficiente para isso, mas é certo que, com a popularidade do skate em alta, muitas marcas de fora, como bancos, empresas de energético, multinacionais — e não vai demorar até surgirem casas de apostas também — já cresceram o olho e querem tirar uma lasquinha desse hype. 

Nossa comunidade, inicialmente, prezava por ser mais fechada. Os skatistas viravam a cara para marcas de fora do nosso nicho e, da mesma forma, essas marcas também desprezavam a nossa cultura. O movimento era, portanto, bem mais restrito aos próprios skatistas, e isso, de certa forma, protegia o nosso mercado. Quem quisesse algo relacionado ao skate precisava ir até uma skate shop. A skate shop, por sua vez, comprava exclusivamente de marcas de skate, e o mercado se aquecia dessa forma. As marcas promoviam eventos, patrocinavam skatistas locais e fomentavam a cena em parceria com as lojas. Havia skatistas em todo o processo, e o respeito entre eles era a regra. Uns precisavam dos outros, e essa cadeia se alimentava de forma saudável.

Go Skateboarding Day BH. Foto de Diogo Andrade

Hoje, o cenário é outro. As portas da comunidade do skate estão escancaradas, e o que vemos é um entra e sai de empresas aleatórias que nada têm a ver com o skate. Essas empresas têm um único objetivo ao tentar fazer parte da cultura: lucro. Elas não vivem disso, não pagam as contas com isso e tampouco dependem disso, o skate é apenas mais uma oportunidade de faturar. É verdade que, em muitos casos, essas empresas conseguem oferecer coisas que as marcas de skate nunca conseguiram. Mas existe uma lógica por trás disso: elas têm fontes de renda fora do nosso universo e agora usam esse poder para transformar o skate em mais um espaço de exploração comercial. 

É cada vez mais comum ver skatistas sendo patrocinados por empresas de fora do universo do skate; eventos sem nenhuma marca de skate envolvida; skate shops vendendo marcas que não são de skate. Em outras palavras, o skate já não está mais sendo controlado pelos skatistas. A consequência disso é visível: cenas de skate nas margens do país estão morrendo; skate shops estão fechando; marcas de skate, principalmente as voltadas para peças, estão desaparecendo. Ao mesmo tempo, vemos o crescimento de “grifes” usando o nome do skate como estética, além da adaptação de marcas que antes eram autênticas, mas que agora se tornaram luxuosas e inacessíveis para os próprios skatistas.

Para ilustrar melhor esse manifesto, podemos repensar os próximos passos que o skate deve dar. Permitir que marcas de bancos e outras empresas aleatórias façam parte do nosso universo pode até parecer uma oportunidade momentânea, mas está longe de ser algo saudável para o nosso mercado. Na melhor das hipóteses, meia dúzia de skatistas se beneficiarão desse afrouxamento. Contudo, isso compromete toda uma estrutura que levamos anos (e muito esforço) para construir: a de fomentar o nosso próprio mercado; de ampliar o acesso às marcas de skate em regiões periféricas; de exigir que marcas patrocinem skatistas locais; e de fortalecer skate shops que promovam eventos e mantêm viva a cultura nas bases.

Quando o hype em torno do skate passar — e ele vai passar — o único refúgio que restará para manter nossa cultura viva será o nosso mercado: nossas marcas de skate, nossas skate shops e nossas cenas locais. Nenhum banco está interessado na parte cultural do nosso movimento; no momento em que parar de gerar lucro, o apoio também desaparece. Cabe aos skatistas se conscientizarem e manterem os olhos bem abertos diante dessas supostas oportunidades. O pensamento individual pode até convencer de que é vantajoso inserir essas empresas no meio do skate, mas qual é o custo real dessa prática?

Neste 21º Go Skateboarding Day, então, que possamos refletir sobre isso: para onde está indo o nosso estilo de vida? Vamos valorizar quem realmente anda do nosso lado e quer o melhor para a nossa cultura. Talvez o controle do carrinho já não esteja mais nas mãos dos skatistas, mas a resistência ainda está e é ela que vai restar no fim das contas. Se nossa cultura chegou até aqui, foi graças ao empenho e à dedicação de skatistas que não mediram esforços para manter a chama acesa. Por isso, é essencial que os skatistas continuem tomando as decisões importantes. E, para que isso aconteça, precisamos olhar com mais criticidade para quem estamos permitindo entrar na nossa cultura, e qual o preço disso. 

Desejamos um ótimo Go Skateboarding Day a todos os skatistas e vida longa ao mercado do skate real.

Go Skateboarding Day BH. Foto de Diogo Andrade

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