Nos dias 4, 5 e 6 de abril (sexta, sábado e domingo), aconteceu a segunda etapa do Circuito Mineiro de Street Skate na cidade de Lagoa da Prata – MG. A Rataria marcou presença e trouxemos nossa experiência nessa resenha. Antes de mais nada, vale lembrar que os campeonatos regionais — sobretudo em cidades do interior — são fundamentais para difundir a cultura e movimentar a cena. É justamente por essa ótica que vamos pontuar nossas impressões, sempre priorizando os interesses dos skatistas, que são quem realmente fomentam a cultura e protagoniza esses eventos. 

Boa parte dos skatistas, assim como nós, chegou à cidade no dia 4 (sexta-feira). A programação previa a apresentação de um DJ, das 20h às 00h, mas ela não aconteceu. No anúncio, dizia-se que o cronograma estava sujeito a alterações sem aviso prévio — o que nos pareceu curioso, já que realmente não houve aviso, tampouco uma justificativa após o ocorrido. 

A previsão do tempo já alertava para uma grande possibilidade de chuva durante os dias do evento. Ainda assim, a estrutura oferecida, embora cumprisse as exigências necessárias, não era adequada para lidar com esse tipo de situação. Mesmo sendo um fenômeno natural, hoje temos tecnologias e recursos suficientes para nos antecipar e evitar que esses percalços prejudiquem a experiência do público. 

Vários skatistas que chegaram antes, com a intenção de reconhecer a pista e aproveitar os dias para andar de skate, acabaram frustrados. Na madrugada de sexta para sábado, os que acampavam ao lado da pista não mediram esforços para tentar secar o skatepark. Esforços que, enquanto estivemos no local, mostraram-se em vão — a chuva simplesmente não deu trégua. 

No segundo dia do festival, estava previsto o início do circuito com as categorias de base — mirim, feminino e masculino, e iniciante feminino e masculino — além da presença de alguns DJs para animar o local. Entretanto, a chuva voltou a ser um problema. Chegamos ao local depois das 16h e o evento já havia sido interrompido por conta do tempo.

Como o tempo não colaborou, a organização precisou alterar a logística do evento, o que, infelizmente, prejudicou muitos skatistas — que acabaram dependendo apenas de suas voltas iniciais para pontuar. Além disso, mais uma vez, a estrutura debilitada e despreparada para uma situação que já estava prevista fez com que a cerimônia de premiação acontecesse praticamente sem público presente.

No terceiro e último dia, acompanhamos o evento do início ao fim. A partir daqui, conseguimos desenvolver melhor nossas impressões — assim como as dos skatistas presentes, com quem conversamos ao longo do dia. Vale lembrar que, para que um evento participe do Circuito Mineiro, ele deve cumprir uma série de exigências estabelecidas pela Federação Estadual de Skate de Minas Gerais (FESKT-MG). Além disso, cabe à própria federação garantir que tudo esteja em conformidade para que o evento aconteça de forma adequada. Para conhecer essas exigências, caro leitor, basta clicar AQUI.

A chuva finalmente deu uma trégua no domingo, o que permitiu que o cronograma seguisse sem maiores problemas. Esse é o dia que carrega a “cereja do bolo” do evento: as categorias principais — Amador (feminino e masculino) e Master. O primeiro ponto que vale muito destacar é o tratamento dado aos skatistas. Em eventos como esse, o mínimo que se espera é um local com sombra, água mineral e, se possível, frutas — para que os participantes possam descansar, se hidratar e consumir alimentos saudáveis, garantindo um melhor desempenho na hora de se apresentarem.

Infelizmente, esse não foi o tratamento oferecido aos protagonistas do evento — os skatistas. Mesmo com uma inscrição no valor de R$70,00, o que estava disponível para eles era apenas uma tenda, compartilhada com os equipamentos de som, posicionada em frente à pista. Essa tenda acabou sendo usada como único refúgio contra o sol. Não havia água gratuita — nem mineral, nem mesmo de bebedouros por perto — e, muito menos, frutas, que embora não sejam prioridade, são comuns em campeonatos desse porte.

Alguns detalhes, não menos importantes — como a presença de fotógrafos e videomakers — também ficaram de fora do evento. Quem acabou assumindo esse papel foram as inúmeras telas de celulares dos próprios skatistas e amigos, que se encarregaram de registrar, por conta própria, suas participações. Até mesmo as fotos dos pódios foram feitas com celulares pelos próprios organizadores. É interessante lembrar que, em edições anteriores — inclusive em eventos que não eram homologados — havia uma atenção maior em relação à produção de fotos e vídeos. Um elemento que, vale ressaltar, é fundamental dentro da cultura do skateboarding.

Outro detalhe que pode parecer irrelevante, mas que contribui bastante para a experiência geral do evento, é a música. No domingo, não havia nenhum DJ responsável pelo som — ao menos não oficialmente. Por isso, o repertório deixou muito a desejar: músicas repetidas, de uma mesma banda ou grupo, e, em alguns momentos, ausência total de som durante a volta de certos participantes. Isso pode prejudicar tanto o desempenho dos skatistas quanto o envolvimento da plateia, já que um evento como esse depende do funcionamento pleno de todos os seus elementos para oferecer uma experiência completa. 

Alguns detalhes podem ter sido deixados de lado, talvez por serem vistos como meros caprichos. Por outro lado, a arbitragem e a locução — que contava com um auxiliar para manter a atenção do público e entretê-los nos intervalos — fizeram um trabalho altamente profissional. A equipe de juízes era composta por profissionais capacitados e os horários foram cumpridos conforme o planejado. 

Mas, como um campeonato de skate de qualidade não depende apenas de juízes e locutores, é preciso falar sobre a premiação. No Caderno de Encargos — que define as obrigatoriedades para que o evento seja homologado e que já está disponível neste texto — há a seguinte cláusula: “13) Comprometer-se com a melhor premiação possível para cada categoria do EVENTO, contendo produtos tais como shapes, trucks, rodas, tênis, roupas etc., a serem distribuídos pelo menos entre os 03 (três) primeiros colocados de cada categoria, com comprovação através de fotos”. 

O evento contou com nove patrocinadores, conforme indicado no cartaz de divulgação. O nível técnico dos skatistas estava altíssimo, o que torna ainda mais necessário que a premiação seja tratada com seriedade. No entanto, o vencedor da categoria que antecede a profissional — a Amador — recebeu, como prêmio, apenas um par de tênis. Isso dá a entender que as normas foram seguidas apenas no limite mínimo exigido, sem qualquer esforço extra para valorizar os skatistas.

A cerimônia de entrega das premiações foi realizada entre as caixas de som e com uma pressa que dava a impressão de que cumprir o horário era mais importante do que valorizar o espetáculo proporcionado pelos skatistas — que movimentaram a cena local durante todo o fim de semana. Um campeonato de skate não precisa ser luxuoso, mas o mínimo que se espera é respeito: com o skatista que passou o dia inteiro sob o sol, e, acima de tudo, com a cultura que ele representa. 

Nos últimos tempos, têm sido criadas normas e estratégias que visam “proteger” o skate profissional no país. Medidas como a proibição de que skatistas amadores recebam premiações em dinheiro — ou a obrigatoriedade de migração para a categoria profissional caso aceitem esse tipo de premiação — vêm sendo aplicadas, dividindo bastante a opinião entre os skatistas.

Nesse processo, contudo, após vivenciarmos a experiência de um campeonato homologado pela FESKT-MG, tivemos a impressão de que, se por um lado há um esforço para proteger os profissionais, por outro não houve o menor cuidado em respeitar os amadores. Não encontramos nenhuma justificativa plausível para tamanho descaso. 

A pré-avaliação por parte da FESKT-MG, assim como a mediação do evento pela própria federação, existe justamente para evitar os tipos de problemas que ocorreram nesta etapa. Se a cidade realmente estava capacitada para cumprir as exigências e proporcionar um evento à altura do que se espera de um circuito homologado, definitivamente não foi isso que vimos acontecer.

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