Em meio ao caos e o cinza constante de Divinópolis, uma flor desabrocha. Aliás, uma não. Muitas. Em cada canto da cidade, já é fácil encontrar e identificar a flor que virou símbolo da resistência, da criatividade e da transformação que a arte urbana pode trazer. Jovem Ronx é o nome por trás dessa flor, artista divinopolitano que tem usado o graffiti para colorir as ruas.
Ronx desenha desde sempre. O papel foi seu primeiro refúgio, mas, com o tempo, surgiu o desejo de criar algo maior, algo que pudesse alcançar os olhos e os corações de muitos. Foi pelo rap e pelas batalhas de rima que o artista encontrou o caminho para o movimento hip-hop, e nele descobriu os elementos que moldariam sua trajetória artística. Hoje, ele é um dos artistas que dá cor às ruas de Divinópolis, plantando criatividade e beleza em cada parede que toca.
Enquanto artistas em centros urbanos têm maior facilidade de encontrar coletivos, financiadores ou mesmo público engajado, nos interiores é comum que o grafiteiro precise educar o público sobre sua arte antes de conseguir sustento com ela. Essa dinâmica exige persistência, criatividade e, muitas vezes, busca de visibilidade em outras cidades. Com Ronx, não foi diferente.
Em entrevista à Rataria Skate Media, ele fala sobre referências, trabalho, dificuldades e o peso do anonimato na arte de rua. Confira a conversa completa:

Salve Ronx, que bom falar com você, mano! Como você começou a se interessar pela arte urbana?
Eu entrei no movimento hip hop pelo rap, através das batalhas de rima. Acho que, por lá, pude conhecer mais os elementos da cultura e me interessar por toda arte que acontece nos centros urbanos.
O que o levou ao grafite e ao grapixo em particular?
Eu sempre desenhei. Com o tempo, senti o desejo de fazer coisas maiores e que mais pessoas pudessem ver. Os conteúdos de graffiti que eu via na internet me influenciaram muito a dar o primeiro passo.
O que a flor que você grafita representa para você e como ela se tornou o símbolo mais conhecido do seu trabalho?
É um símbolo que coloco nas minhas artes já faz tempo. Começou naturalmente e passou a ser meio que uma obsessão. Hoje, considero o símbolo que me representa e que representa a minha criatividade. À medida que fui usando esse símbolo, e por ele ter se tornado meu “persona” no graffiti, as pessoas acabam fazendo a ligação dessas flores ao meu trabalho.
Ronx sabe e sente na pele que o preconceito contra o grafite ainda persiste, como em qualquer lugar. Enquanto alguns reconhecem o valor da arte, outros ainda torcem o nariz. Mas, para ele, isso nem se compara à rejeição enfrentada pela pixação, por exemplo, já que diariamente as pessoas elogiam o trabalho dele enquanto criticam a pixação, muitas vezes sem entender as diferenças e propósitos entre as duas expressões. A distinção entre as duas práticas se tornou ainda mais evidente após a Lei 13.718, de 2017, que endureceu as penas para a pichação, enquanto o grafite passou a ser reconhecido legalmente como manifestação artística. Apesar disso, na prática, os desafios continuam. Ronx já enfrentou abordagens policiais, resistência de proprietários e comentários negativos. Ainda assim, ele segue pintando. Para ele, voltar à rua no dia seguinte e ocupar os espaços é a melhor forma de não se deixar abalar e reafirmar sua arte.

Como funciona seu processo criativo? As ideias surgem espontaneamente ou você planeja o conceito antes? O que te inspira?
Eu consumo arte/graffiti o tempo todo na internet. Fora isso, estou sempre rascunhando, na aula da faculdade, no trabalho ou no tempo livre em casa. Muitas ideias nascem daí, do hábito de rabiscar.
Quais artistas ou movimentos influenciaram sua trajetória? Existe alguma referência fora da arte urbana que impacta seu trabalho?
Vários artistas me influenciaram. Os artistas que já faziam aqui em Divinópolis, além de me influenciarem, me deram muito apoio (Pinguim, Rass, Aziza) e tiraram muitas das minhas dúvidas. Na internet, sempre acompanhei o Benson e o Imon Boy; acho a criatividade e o estilo deles muito marcantes. Fora da arte de rua, acredito que os rappers negros me influenciaram muito, mas principalmente o Tyler, não só por ele já ter usado a estética de Flower Boy, mas por eu considerá-lo muito livre para criar.
Você enxerga sua arte como uma forma de ativismo ou expressão social? Como vê o impacto do seu trabalho na cidade?
Eu enxergo, sim. Acho que o graffiti tem esse poder de causar impacto na sociedade. Se dependesse de algumas pessoas, não haveria arte nenhuma na rua. Fazer graffiti, seja autorizado ou não, é uma crítica a isso. Além disso, temos o direito de que nossa arte seja vista. Vejo um impacto muito positivo. Acho que meu trabalho já furou a bolha aqui na cidade, e isso me traz o sentimento de que fiz minha parte na divulgação do graffiti. Além disso, pode influenciar os mais novos a quererem fazer também.

Como é ser reconhecido em cidades próximas, mas ainda permanecer um pouco anônimo para muitos que conhecem sua arte?
Eu gosto muito. Gostaria, em algum momento, de ficar completamente anônimo. Muitos dos meus ídolos não mostram o rosto. Quero que todos saibam meu vulgo, conheçam minha arte, mas nem todos saibam quem eu sou.
Como você acha que seu estilo evoluiu ao longo dos anos? O que mudou em sua visão sobre o que é arte urbana?
No desenho, sempre busquei ter o meu próprio traço, mas, no graffiti, tinha muita dificuldade em transferir o que faço no papel para a parede. Com o tempo e a prática, isso foi sumindo. É também uma questão de confiança. Fui me encontrando e descobrindo qual estilo de letra gosto de fazer. Hoje, vejo a arte urbana como a vida presente na cidade, uma parte essencial dela.
Em sua opinião, existe um limite para a arte urbana? Como você equilibra liberdade de expressão e respeito por espaços públicos?
Eu não acho que existe limite, assim como não acho que existe meia liberdade. Procuro fazer em espaços onde há menos chance de “dar ruim” para mim (lotes vagos, lugares abandonados, etc.), mas quero ser visto. Se não houver esses espaços, com certeza faria em qualquer tipo de lugar público.
Se pudesse deixar uma mensagem para quem admira sua arte mas não conhece você, o que gostaria que elas soubessem sobre sua trajetória ou visão?
Eu só tenho a agradecer a quem admira e apoia meu trabalho. Eu sou daqui, e ser acolhido pela cidade onde nasci é uma das coisas que me motiva. Trazer as coisas que aprendo fora para cá é um dos meus objetivos. Tenham certeza de que eu e os outros artistas daqui queremos que, um dia, Divinópolis se torne um polo também na arte de rua.



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