Dentro do universo do skate, há uma força quase magnética que impulsiona o skatista ao altruísmo. Existe algo no skate que desperta a vontade de fazer as coisas acontecerem, mesmo quando o lugar não oferece os recursos necessários. No momento em que a pessoa se reconhece como skatista de verdade, naturalmente surge o desejo de fazer algo pela cena. Se for de uma cidade pequena, esse impulso ganha ainda mais força.
Codó é uma pequena cidade do interior do Maranhão, com pouco menos de 120 mil habitantes (mas famosa por abrigar a maior concentração de religiões afro-brasileiras do Brasil). Foi lá que encontramos Wanderson Silva, de 19 anos e apenas três de skate – tempo suficiente para já ter se deixado seduzir pela vontade de contribuir para a cena local. Wanderson assumiu a responsa e movimenta o cenário da cidade, promovendo eventos, reformando a pista e até produzindo vídeos nas ruas, o que só confirma o potencial do skate para proporcionar autonomia.
Wanderson se uniu a outros skatistas e juntos formaram a crew “FullMassa”, uma conexão essencial para viabilizar recursos e dividir esforços na realização de projetos. Um desses projetos aconteceu recentemente: no início deste ano, com o apoio da crew, ele produziu uma videopart chamada “Inspiração Skateboard”. Esse trabalho o levou até a Rataria Skate Media e, o que inicialmente seria apenas uma divulgação simples, acabou se transformando, ao longo da conversa, em uma matéria não só sobre o vídeo de Wanderson, mas também sobre a cena do skate em Codó, que ele e os skatistas locais ajudam a movimentar.
O skatista é movido por uma vontade incontrolável de fazer acontecer, e histórias como a de Wanderson podem inspirar outros skatistas que vivem em lugares com pouca visibilidade e acessos. Nessa conversa, falamos sobre as dificuldades que Wanderson e os skatistas enfrentam na cidade, desde os preconceitos até a falta de infraestrutura. Também discutimos como a cultura local influencia suas identidades.

E aí mano! Conta pra gente por que você começou a andar de skate.
Comecei a andar de skate em 2 de março de 2022. Desde criança, sempre gostei de praticar esportes; jogava bola, vôlei, basquete, mas o que sempre me chamou atenção foi o skate. Sempre tive mais facilidade com o skate. Nos meus aniversários durante a infância, sempre ganhava skates de brinquedo, por isso sempre achei incrível e tive mais facilidade. Aos meus 15 para 16 anos, resolvi andar e, no meu primeiro rolê de skate, em Codó, fui abraçado e bem recebido.
O que você encontrou no skate que te fez gostar?
O principal de tudo foram os amigos e as lembranças incríveis que formamos durante essa trajetória no skate de Codó. Atualmente, para mim, o skate significa “viver”; é minha forma de viver e me sentir vivo. Durante muito tempo da minha vida, eu me sentia preso, em um quadrado que me bloqueava de conhecer a vida, sentir as boas sensações e me sentir vivo.
Como você começou a andar de skate na rua?
A rua sempre foi o melhor lugar para andar, a rua é a essência. O skate de Codó sempre foi real street, a rua nos abraçou para que o skateboard não morresse na nossa área. A influência de sempre estar na rua vem da galera, que sempre tem algo para mostrar ou fazer diferente nos picos em que costumamos andar. Na rua, sempre há uma inspiração por trás de cada manobra que nossa crew manda ou mostra.
Em Codó tem pistas de skate?
Temos uma pista de skate que, com falhas, se encontra sem luzes há mais de três anos e sem nenhuma reforma por parte da prefeitura de Codó. A pista sobrevive por conta dos skatistas locais que, conforme o tempo passa, a reformam e sempre a mantêm limpa para que possamos fazer nosso rolê durante o dia.

Quais dificuldades vocês encontram para andar de skate na sua cidade?
Além da falta de estrutura, como a pista inadequada e sem luzes, sofremos com a falta de incentivo e verbas para que nossos eventos possam acontecer. Temos nossa própria iniciativa (skatistas locais + FullMassa Crew) de realizar um evento anual de skate na nossa cidade. Corremos atrás e sempre conseguimos realizar esse evento pelo menos uma vez por ano para que nossa cultura não morra.
Fale um pouco sobre sua crew FullMassa.
A crewFullMassa surgiu inicialmente como uma forma de reviver e trazer uma nova visão do skate de Codó. Queríamos dar início à volta de tudo, reanimar a galera, gravar mais, mostrar mais o nosso skate, nosso rolê e nossa galera. A crewFullMassa é uma crew underground, e o nome veio da junção de “fumaça” e “massa”. Nossa galera é uma galera massa, e gostamos de fazer fumaça, por isso o nome da crew.

Quais são suas referências locais, aqueles que ajudaram a estabelecer o skate na cidade de Codó?
Queria citar aqui o meu grande amigo Santiago, que foi um dos pioneiros do skateboard de Codó e teve grande importância na cena, sempre ajudando desde o início de tudo. Eu costumo dizer que as pessoas ao meu redor me inspiram; toda a cena local próxima de mim me inspira. Um salve aqui para o Piauí e toda a galera do skateboard de lá, vocês são foda!
E quais características da sua região fazem parte da construção de suas identidades e personalidades como skatistas?
Nossa região e a cidade de Codó, no Maranhão, têm como principal cultura as religiões de matrizes africanas, sendo conhecida como a cidade com o maior número de terreiros dessas religiões. Nossa personalidade é baseada na nossa cultura. Os picos onde colamos são patrimônios históricos da nossa cidade, um pedaço importante do passado que, ao filmarmos nesses lugares, trazemos nossa essência e personalidade.
Como as pessoas da cidade enxergam o skate? Ainda existem preconceitos?
Ainda existe muito preconceito quando se fala em skate em Codó. Somos tratados como marginais, bandidos ou drogados, sem que enxerguem que trazemos cultura para nossa cidade e mantemos vivo o que amamos: o skate.
Tem skateshop na sua cidade?
Infelizmente, não temos skateshop na cidade de Codó, mas queria deixar minha menção à skateshop Segunda Casa, que fica em Caxias – MA, e que sempre nos ajudou quando se trata de peças e patrocínio. Já nos ajudaram em vários eventos e só temos a agradecer.
Conta um pouco do processo de produção do seu vídeo “Inspiração Skateboard”.
A videopart “Inspiração Skateboard” veio justamente da questão de eu estar sempre buscando inspirações para nunca me desanimar dos meus sonhos e planos. Tenho várias inspirações; toda a galera do Piauí e minha galera do Maranhão me inspiram. O skate nordestino é real, é real street.

Quais são seus objetivos futuros com o skate? Pretendem continuar filmando na rua?
A rua é nossa casa; sempre estaremos gravando nela. A rua é a essência. O que queremos para o futuro são mais lugares para conhecer, amizades, experiências incríveis com o nosso skateboard. Queremos colocar Codó no mapa.
Por fim, fique à vontade para deixar um recado.
A mensagem é real e sincera. O skate mudou minha vida; essa parada é real. As amizades, as sensações, as experiências, tudo é incrível. Skate é mais do que manobras e ganhar campeonato. Skate é você viver o momento e ser feliz.


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