O skate nordestino tem um charme próprio. Não é exagero dizer isso quando temos como exemplo: Og de Souza, Fabrizio Santos, Felipe Oliveira, Adelmo Jr… Já deu para perceber que ali é uma mina de skatistas raros, né? É uma região que ostenta o skate artístico, criativo e altamente técnico. Se dermos um zoom no mapa do Brasil, mais precisamente em Sergipe, encontraremos Cinderela, a vídeo parte de um dos skatistas mais inovadores da contemporaneidade: Alison Rosendo, mais conhecido como Kbessa. A produção é da produtora independente alagoana Estúdio Lost.

Alison é um artista e dançarino, e consegue expressar isso de forma brilhante, tanto pela ginga quanto pela maneira original com que anda de skate. Ele transgride a própria noção de transgressão dentro do skate. É um agressor da mesmice. Seja você skatista ou não, é bem provável que já tenha se deparado com algum vídeo de filosofiakbssa na sua timeline e provavelmente sabe de quem estamos falando. Ele também produz vídeos de skate independente, como a série “Filosofia Skate Roots“, que conta com a participação de skatistas fodas da cena local e excelentes trilhas sonoras que valorizam nossa brasilidade.
Cinderela foi lançada simbolicamente no dia 2 de fevereiro, dia de Iemanjá, um dos orixás mais populares das religiões afro-brasileiras. Dirigido e estrelado por Kbessa, esse projeto é uma obra que harmoniza de forma primorosa a dança com o skate de rua. Muito diferente de assistir um vídeo de skate convencional, com o qual a maioria dos skatistas está familiarizado, Cinderela se distingue por por sua abordagem insubordinada às tendências, não apela para exageros de zooms e câmeras lentas, não utiliza imagens estabilizadas ou em tripés e traz uma nova perspectiva de enquadramento que valoriza tanto Alison quanto o skate, considerando que ambos estão em movimentos coreografados.
De modo geral, um vídeo de skate, independentemente do estilo, se assemelha a um clipe de música. Em Cinderela, por ser uma produção com grande ênfase na parte estética e artística, esse aspecto ganha um potencial muito maior. A valsa entre Alison e o skate nos prende à tela e, mesmo assistindo várias e várias vezes ou até colocando em slow motion para tentar entender, não ousamos nem arriscar o nome daqueles diversos no-complys. É uma obra de arte feita para ser apreciada com calma, deixando a complexidade técnica em segundo plano.
A trilha responsável pela atmosfera do vídeo é a canção “Cinderela“, de Adelino Moreira, interpretada pela magnífica Ângela Maria. Ouvi-la cantar “aquele amor que sonhei / virá, que eu sei / é só esperar” elimina qualquer ansiedade que possa surgir durante o vídeo, contribuindo para a imersão completa. A canção suave te transporta delicadamente nessa viagem, enquanto Kbessa usa e abusa do mobiliário urbano. A filmagem e a edição ficaram a cargo de Sullindo, que fez um excelente trabalho, amarrando de forma impecável todos os elementos presentes no vídeo.
O vídeo também conta com as participações de Vinicius Costa, Sullindo e Manuel Medeiros, todos de origem nordestina e com estilos autênticos. Projetos como esse mostram a força que o skate, enquanto expressão artística, possui. Cinderela de Alison, nesse caso, é uma verdadeira pérola do skate brasileiro, que valoriza as raízes nacionais e se afasta do padrão gringo amplamente replicado no mainstream. É o skate real em sua mais pura essência.

O skate é criatividade, movimento, dança, música, estilo… E nesse ponto Cinderela brilha. Assistimos uma, duas, três vezes, e a cada vez, nos sentimos mais motivados a criar, a ir para a rua e andar de skate. Esse é o tipo de contribuição que impactam positivamente nossa cultura, além de nos fazer enxergar o verdadeiro skateboard.
Agora, coloque seu celular de lado, desative as notificações, acomode-se confortavelmente em sua poltrona e aproveite essa belíssima viagem.


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