O skatecore tem enfrentado um apagão na atualidade. Com tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, quem não estiver bem informado corre o risco de deixar passar diante dos olhos tudo o que tem de substancial no skateboard. Nessa realidade moldada pelos algoritmos, a alienação é um obstáculo praticamente inevitável. O skate, claro, não sairia ileso, ainda que em sua origem, o espírito rebelde intrínseco ao skatista o tornasse mais independente. 

Hoje, o skate se mistura às demais culturas populares da sociedade, e um dos pilares desse suposto triunfo é a espetacularização promovida por grandes empresas – que não são do skate. Não é por acaso que bancos, grifes de roupas, marcas de carros e motos importados, energéticos, celulares e outros produtos estão investindo tanto no skate. Essa ofensiva dos endinheirados direciona o movimento para conteúdos rasos e decadentes, e por isso é tão importante acompanhar aqueles que, mesmo diante de todas essas mudanças, ainda fazem por amor. 

Para contornar esses problemas modernos, o melhor é recorrer àqueles que estavam aqui antes do dinheiro chegar e transformar tudo. Quando falamos sobre a cena do skate independente no Brasil, é impossível não falar do coletivo Simplesmente. Nascido em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, em meados de 2006, o grupo se tornou um dos maiores referenciais do skatecore no país.

Na raiz do coletivo, a essência do skate de rua é valorizada e preservada, sendo transmitida em todos os projetos e ações desenvolvidos. Muito antes do Instagram, o coletivo já estava em movimento produzindo Full Videos em DVD. Uma fase saudosa, em que era muito comum assistir aos vídeos repetidas vezes, até decorar as partes e ter uma favorita para assistir todos os dias antes da sessão. Descobrir quais eram as músicas também era uma atividade divertida; inclusive, quem não conhece a sensação de andar de skate ouvindo uma música da sua parte preferida, deveria experimentar.  

Um dos diferenciais mais marcantes do coletivo é o cuidado e o respeito pela première, afinal, é através dela que cultuamos o nosso estilo de vida. É o momento mais esperado pelos skatistas de rua, a hora de mostrar o trabalho concluído, o ápice da expressão dessa contracultura. Para apresentar o lado original do skate, a família Simplesmente percorre todo o Brasil (e, por vezes, o exterior) de forma autônoma, com sua clássica tour de premières — que, vale ressaltar, inclui uma extensa lista de cidades. Essa celebração é a ponte para o universo do skate e, tratada com o respeito que merece, planta a semente para que as gerações futuras possam dar continuidade e preservar a cultura de rua.

João Paulo Romero, conhecido como JP Romero, é o responsável pelos projetos audiovisuais do coletivo e, até o início de 2025, já produziu seis Full Videos. Com mais de 18 anos de história, mantendo-se independentes, o coletivo conta com as seguintes produções: Promo 01 (2007), Continua… 02 (2008), Sintonia 03 (2011), Persistência 04 (2015), Ímpeto 05 (2019) e Legado 06 (2024). Este último, segundo o discurso de Gutiele Rodrigues na première realizada em Lisboa, em dezembro de 2024, foi anunciado como o último Full Video do coletivo. 

Legado é, sem dúvida, o melhor conceito para traduzir o brilhante trabalho realizado pela Simplesmente. São 57 minutos de vídeo, com 17 partes de skatistas, entre eles nomes de peso como Maurício Carvalho, Patrick Vidal, Carlos Iqui, Gutiele Rodrigues, Fábio Cristiano, entre muitos outros. O vídeo finaliza uma trajetória árdua de Continuidade, Sintonia, Persistência e Ímpeto. A obra conta com mais de 80 skatistas envolvidos, conectando gerações que vão de 8 a 52 anos de idade. Isso sem falar na interculturalidade, presente em todos os Full Videos, com skatistas de todas as partes do Brasil, sem deixar ninguém para trás, e uma criteriosa curadoria para as trilhas sonoras. 

Após 4 anos e meio construindo Legado, JP Romero refletiu em um post recente em seu perfil do Instagram: “Hoje em dia é muito difícil resistir, criando e produzindo uma cena independente. Temos 18 anos de história tendo praticamente só nós na linha de frente sem conseguir investir em anúncios e mídias, dependendo somente de quem tá disposto a chegar junto”.

Ainda sobre o discurso, Gutiele mencionou que o coletivo continuará seu trabalho, mas em um formato mais reduzido, com vídeos mais curtos. Se manter no underground tem um preço, e esse preço é alto demais para vidas adultas, que precisam arcar com outras responsas da vida, como família, trabalho, etc… Com um repertório desse peso, a Simplesmente é o que temos de mais valioso dentro do skatecore brasileiro, considerando que a crew devolveu tudo para o skate sem se vender para o dinheiro sujo. Tudo feito por amor e somando forças com os skatistas de todo o país.

Gutiele e Carlos Iqui

Em seu perfil, JP revelou algumas das principais dificuldades desse último Full Video: “Pra mim foi um grande desafio, alinhar meu momento pessoal e profissional com a finalização desse vídeo, muitas dificuldades aconteceram, na reta final queimou a placa de vídeo do meu pc, aí acabei ficando um mês e meio sem editar, e graças a ajuda de amigos, acabei criando uma vaquinha, onde muita gente chegou junto contribuindo para o conserto, isso me trouxe muita inspiração e a certeza que tudo ia dar certo. Tive apenas 25 dias para finalizar o vídeo, e foi exatamente no dia da Première de Porto Alegre que eu o terminei”.

Por parte do coletivo Simplesmente, seu trabalho está concretizado. Agora, é dever do skatista — agora e sempre — manter o seu legado e transmiti-lo às novas gerações. Um exemplo disso foi deixado pelo próprio coletivo, que nos presenteou com icônicas partes de skatistas da nova geração, autênticos em sua essência, como a parte de Thalles Silva e Felipe Munhoz, que começa ao som de Elo da Corrente. E também, mais recentemente, no vídeo Ímpeto, com Leonardo Adrian, um moleque cabuloso, de estilo único e mais tantos outros.


Nós, da Rataria Skate Media, temos muito orgulho de termos sido influenciados pela família Simplesmente. Deixamos aqui o nosso profundo agradecimento por todo o conhecimento proporcionado pelo verdadeiro espírito do skateboard. Obrigado, Simplesmente, por preservar o underground, levar adiante e colocar o nosso estilo de vida acima do dinheiro. Seu legado será eternamente lembrado pelos verdadeiros.

Gutieles Rodrigues e João Paulo Romero
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