A arte sempre carregou uma grande responsabilidade sobre o comportamento da sociedade em relação à mulher. Mesmo sendo usada como referência, musa ou parâmetro para diferentes obras, que vão de esculturas e desenhos até pinturas e escritos, a própria mulher foi impedida de se expressar através da arte por muito tempo, muitas vezes sendo obrigada a fingir ser homem para divulgar sua arte ou tendo seu nome completamente apagado da autoria dela.

Dentro do sistema de produção capitalista, a mulher é apresentada como recompensa. Sua função gira sempre em torno desse script: agradar, ser útil, lutar para que gostem e respeitem você, cuidar dos homens quando são mais novos, ajudar quando são adultos, dar conselhos e confortá-los… E claro, é bem comum vermos a arte reafirmando esse ideal, sempre diminuindo o valor da mulher enquanto ser humano e transformando-a num acessório para quem cai no conto da meritocracia. 

Em seu artigo de estreia no Oganpazan, entretanto, a rapper mineira Nabru, formada em Letras pela USP, analisa duas letras de música sob a perspectiva da literatura comparada, onde, em sua visão, os homens descrevem com mais fidelidade a mulher contemporânea, a musa não óbvia, retirando-a do papel de dona de casa ou aquele papel limitado à vida privada.

Para além da análise brilhante da Bruna, é interessante observar que ambas as letras analisadas, Todo Tempo do Mundo, de Thalin em Maria Esmeralda, e Meu Esquema, de Mundo Livre S/A (você pode conferir os detalhes no artigo original) fogem também daquilo que apresentado sobre e para a mulher no mainstream. Assim como no underground vale mais o que você recusa do que o tempo que está trabalhando em alguma obra específica (seja um vídeo, um som, enfim…), penso que é importante para nós, apreciadores, estender essa postura para nossa vivência, consumindo obras que refletem aquilo que queremos recusar. Não aceitamos mais o papel de domesticadas, logo, aceitar consumir obras que nos colocam nessa posição é ir contra o que lutamos tanto para sair. O próprio álbum de Nabru, Desenredo, lançado este ano é um exemplo de obra em que a artista, uma mulher preta repleta de bagagem de vida, se apresenta como um ser completo, com suas contradições, ideais e filosofias bem amarradas, consequência de muito estudo e coragem diante da vida. Uma mulher real trazendo problemas reais.

Sem tirar o mérito de mulheres que cantam o que a indústria quer (já que, para muitas delas, essa foi a forma que encontraram para sobreviver), é no underground que encontramos vivências verdadeiras que vão além do ideal de musa do mainstream, aquele que espera que sejamos um outro e novo tipo de super mulher, que só se preocupa em fazer dinheiro e conquistar coisas materiais como forma de ser dona de si. Sabemos que esse discurso, além de conveniente para quem nos explora, vende uma ideia que o dinheiro compra tudo, como se nossa verdadeira liberdade fosse algo pagável… uma ideia um tanto quanto neoliberal. Em contrapartida, há uma infinidade de pessoas produzindo músicas e arte no underground que vão além do que é esperado no que diz respeito à forma como uma mulher é vista e lida na sociedade. Se você está em busca de ampliar seus horizontes e quer conhecer algumas das mulheres que estão fazendo música de qualidade no underground brasileiro, adiantamos um pouquinho da sua pesquisa com uma playlist: mulher, brasileira, underground

Esse é um dos motivos pelos quais nos mantemos no underground. A arte tem o poder de transformar sua postura, tanto para o bem quanto para o mal. Por isso, valorizamos aquela que nos faz pensar e nos tira da zona de conforto.

Categories:

Deixe uma resposta

LEIA MAIS...