Imagine só: em 2016, você tem a ideia de organizar uma festa para celebrar a cultura do vinil e da discotecagem, arrecadando fundos para um movimento cultural. Quatro anos depois, é ninguém menos que o lendário KL Jay quem assume as pickups na sua festa.
Esse é um breve resumo do tamanho e da riqueza da Vitrolada. O projeto, que começou como uma simples festa, hoje tem outro significado: resgatar o valor e a essência do vinil e dar vida à cena alternativa e underground de Itaúna/MG. Nascida há 8 anos no coletivo Punho Cerrado, na antiga Casa de Cultura Abarcar, a festa começou como uma iniciativa de resistência cultural, com o objetivo de levar ao público uma experiência bem diferente da tradicional, guiada pela curadoria cuidadosa de seus organizadores, Max e Jr.
Ao longo dos últimos anos, a Vitrolada evoluiu sem perder sua identidade, passando a incorporar novos ritmos e abordagens e, consequentemente, atrair uma audiência cada vez mais diversa. Ela se tornou um ponto de encontro para diferentes gerações e tribos, unindo amantes do hip-hop, skatistas, punks e muitos outros públicos alternativos da região, um marco que reforça o respeito que a Vitrolada conquistou ao longo de suas edições. Com este olhar para o passado e o futuro, exploramos a origem, a evolução e o impacto desse evento na cena underground, mostrando como a Vitrolada se estabeleceu como um símbolo de resistência e inovação para a cidade e seus arredores. Em conversa com a RTRSM, Max e Jr. contam detalhes dessa trajetória de respeito!
Como surgiu a ideia da Vitrolada? O que inspirou a criação da festa?
Surgiu em 2016, com o coletivo Punho Cerrado, na Casa de Cultura Abarcar. Fazíamos eventos mensais para arrecadar dinheiro e manter a casa e suas intervenções e exposições culturais. Vários integrantes do coletivo tinham um apreço pela cultura do vinil, e em uma das reuniões do coletivo, tendo como pauta a necessidade de uma nova festa, a ideia surgiu. Já tinham acontecido algumas discotecagens em diferentes ocasiões, com os dois DJs membros do coletivo e mais tarde residentes da Vitrolada (Max e Jr.), e decidimos tornar mensal um rolê onde pudéssemos tocar/ouvir música exclusivamente dos nossos discos de vinil. Com o tempo a festa virou o “carro chefe” da casa, ficando cada vez mais reconhecida.


Qual era a visão inicial da festa? Ela mudou ao longo dos anos?
A festa surgiu para dar visibilidade à cultura do vinil, para difundir músicas de qualidade que nem sempre estão nas pistas e também para cultuar a real discotecagem. Músicas antigas sempre foram a ênfase da festa, mas ao longo dos anos fomos evoluindo na discotecagem e adentrando em novos gêneros musicais para abranger mais estilos e ritmos, logo, abrangemos um maior público. Implementamos a tecnologia time-code, trouxemos DJs que tocam em controladoras, tudo para dar mais pluralidade à festa, sem perder a identidade.
Como vocês enxergam o papel da Vitrolada na cena underground de Itaúna?
A Vitrolada é uma festa plural, que engloba todo tipo de estilo, gêneros e pessoas. Ela tem como essência a difusão da boa música, acho que esse é o principal ponto e importância no meio underground: tocamos as músicas que você gostaria de ouvir na pista, mas principalmente, tocamos as músicas que você não sabia que precisava ouvir e dançar na pista. Esse é o lance. Fomos pioneiros em muita coisa: trouxemos a primeira DJ mulher, primeira DJ LGBTQIAPN+, fizemos a primeira festa em colab com outra festa independente, primeira festa com público em sua maioria negro, entre muitas outras coisas importantes. Em resumo, fomos a primeira festa a trazer as marginais para ocupar o centro. Festa com preço justo, oferecendo o que há de melhor em som e iluminação, tudo isso alinhado à cultura hip-hop, um dos pilares da Vitrolada. Com isso a festa deu visibilidade na cena de discotecagem da região, dando acesso às pessoas a um evento de qualidade, mostrando novos sons e mesclando a identidade das pessoas.


Ao longo das edições, além dessa conexão entre diferentes públicos, a Vitrolada passou a unir gerações, especialmente após sair da Casa de Cultura Abarcar e migrar para casas de shows na região. A divulgação era feita no boca a boca, com os amigos dos organizadores incentivando seus próprios círculos a comparecerem, criando uma rede de apoio que crescia a cada edição. Essa visibilidade orgânica ampliou o alcance da festa, trazendo um público diverso em idade e estilo para compartilhar o amor pela música. A curadoria musical segue diferentes caminhos, com cada DJ e pesquisador explorando suas preferências e métodos pessoais na busca pelos discos. Uns focam em artistas ou gêneros específicos, outros buscam selos que representam ritmos alternativos. A essência da discotecagem em vinil não deixou de ser fundamental para a Vitrolada, transformando o ato de tocar em arte que desperta curiosidade e a admiração do público e enriquece a experiência na pista.
Quais são os desafios e recompensas de organizar um evento voltado à cultura do vinil?
Sendo produtores de uma festa de vinil, temos uma curadoria limitada. Nem sempre conseguimos DJs mulheres, nem sempre temos disponibilidade dos DJs que queremos. Por ser uma festa “popular”, nem sempre temos caixa para a próxima edição, temos que fazer todas as edições “do zero”. As recompensas estão no respeito ao antigo, que serve de referência para o novo, o reconhecimento de que a Vitrolada é sinônimo de boa música, mescla cultural e resistência geral. Somos mais que uma festa!
Em 2020, vocês levaram o KL Jay para uma edição da festa. Como aconteceu isso? Quais outros momentos marcantes vocês se lembram dentre todas as edições da Vitrolada?
O KL Jay sempre foi inspiração pra nós, e ao mesmo tempo um sonho distante. Depois de 2 edições consecutivas de sold out, decidimos que poderíamos tentar. Fizemos o contato e no primeiro momento achamos que era uma conversa com os seus produtores, mas em pouco tempo ele mandou um áudio no WhatsApp, confirmando que estávamos conversando com o próprio artista. Foi aí que a ficha caiu. Não tínhamos todo o dinheiro para pagar o cachê, e fizemos uma proposta. Ele analisou, confiou no movimento e no nosso trabalho como produtores e a partir daí começamos a planejar aquela noite histórica. Hip Hop é sobre isso. Já sobre os momentos marcantes, o principal, sem dúvidas, foi o KL Jay dando uma senhora aula de discotecagem, explicando os samples do Racionais e comentando sobre a pluralidade da festa: “tem de tudo aqui, branco, preto, rico, pobre… gostei disso!”. Teve também a querida DJ Kingdom dando show de conexão entre DJ e público, a emoção de fazer eventos com sold out e o B2B entre os residentes no dia mundial do rock.

Quais são as expectativas para o futuro da Vitrolada? Há planos de expansão ou mudança de formato?
A Vitrolada em 2025 completa 9 anos e em 2024 optamos por não fazer nenhuma edição. Vários fatores influenciam o êxito de um evento, toda cautela é pouca. É óbvio que queremos fazer mais edições da festa, porém a análise para esse próximo passo tem que ser bem-feita. Creio que haverá mudanças pontuais e a necessidade de uma maior abrangência, novas parcerias e uma “divulgação diferente”, mas tudo isso será analisado para, aí sim, termos a “Vitrolada 9 Anos!” e as demais nos anos seguintes.
Acompanhe a festa e os organizadores nas redes sociais: @festavitrolada / @madx_music / @jr.br_


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