Em grandes metrópoles, o pixo já está consolidado há muito tempo como um movimento de contestação e intervenção urbana, conhecido por sua estética crua, suja e marginal. No entanto, em cidades pequenas e interioranas, onde o ritmo é mais calmo e a exposição a movimentos urbanos é limitada, o pixo encontra muitos outros desafios: falta de identificação, preconceito (até mesmo de outros movimentos que são igualmente marginalizados), repressão violenta, etc. Em Divinópolis não é diferente. Se você costuma perambular pelas ruas, certamente já viu “SONO” pixado em algum muro. 

A grife, composta por 3 pixadores, é um exemplo e tanto de resistência nesse contexto. Em uma cidade de interior, onde as fronteiras entre arte, vandalismo e ativismo são muito sutis, eles têm encontrado formas de manter vivo o espírito do pixo há anos, ao mesmo tempo que lidam com questões de segurança, preconceito e a constante tensão entre o legal e o ilegal. A relevância da SONO em Divinópolis é tanta que, além dos três integrantes originais, outras pessoas começaram a adotá-la voluntariamente, ampliando sua presença pela cidade. De qualquer forma, eles deixaram claro que não se importam com esse “roubo”. 

Mesmo com a exposição crescente vinda das redes sociais e da popularização de documentários e demais obras que mostram a essência transgressora do pixo, ele continua sendo incompreendido e discriminado por quem está de fora.

Conversamos com os integrantes e mergulhamos na história da SONO, explorando como o pixo se desenvolve em um ambiente onde a transgressão ganha outras camadas de significado.

Salve! Vamos começar com a clássica: por que SONO?
SONO 1: Eu tava com sono. Continuo.
SONO 2: SONO foi a síntese do nosso sentimento em relação ao sistema. Observávamos uma letargia social, com poucos movimentos culturais, a política sempre mais do mesmo, e as pessoas cegas quando se tratava da comunidade.
SONO 3: É um estado de dormência e desconexão, uma crítica à falta de consciência e engajamento social.

Quando e como surgiu a ideia?
SONO 1: Quando eu tava com sono, mas, apesar de estar com sono, não fui dormir, fui pixar uma grife. A grife existe desde 2014.
SONO 2: Um de nós teve um momento de despertar por volta de 2015, e os demais despertaram a partir daí, na tentativa de alertar sobre o sono que pairava e ainda continua por aí.

Qual foi a razão para consolidar as tags sob uma única grife, em vez de seguirem com trabalhos individuais?
SONO 1: A gente sempre andou junto, não poderia ser diferente essa união.
SONO 2: A união entre os amigos era tão forte que não fazia sentido fazer tags diferentes. Além disso, trazia mais visibilidade e impacto.
SONO 3: Uma das principais intenções ao unificar o pixo foi ganhar território, representatividade e visibilidade, tendo como grife a La Quadrilha, mas mantendo as assinaturas individuais de cada membro nas pixações.

Desde o surgimento do pixo existem debates que tentam defini-lo como arte, mesmo que atualmente seja considerado crime. Embora não haja uma resposta definitiva — e provavelmente nunca teremos, pois é nessa subjetividade que mora o fascínio —, o pixo continua a incomodar, escancarando a hipocrisia de uma sociedade que aceita tranquilamente propagandas de jogos de azar e prostituição, mas não consegue tolerar tinta preta em uma parede qualquer. O pixo, por sua natureza, é agressivo, aparece em locais indesejados e ultrapassa limites e demarcações que só fazem sentido para quem já teve a mente corrompida pelo neoliberalismo. Essa dualidade entre aceitação e repúdio revela muito sobre os valores vigentes (infelizmente) da nossa sociedade. Enquanto os anúncios comerciais inundam o espaço urbano, independente do local, horário ou teor, promovendo produtos e serviços muitas vezes questionáveis, o pixo se destaca como uma forma de resistência, um grito de descontentamento que desafia a estética homogênea imposta pelo consumismo. 

Por que o pixo e não o grafite?
SONO 1: É muito difícil começar pelo grafite, mas considero ambos esteticamente agradáveis.
SONO 2: A estética. É algo como um descarrego, sem se importar com cores, sombras, luzes ou design. Quem está com sono não pensa muito.
SONO 3: Pixo pelo estilo, pelo impacto urbano agressivo, pela adrenalina; é direto, cru.

Como vocês veem o pixo em relação a outros movimentos urbanos? O que o torna especial para vocês?
SONO 1: É a chance de explorar diferentes jeitos de pensar os territórios, seja andando de skate ou com uma lata de spray na mão.
SONO 2: O pixo é o grito dos silenciosos, daqueles que querem ser vistos por uma sociedade que os ignora.
SONO 3: O pixo é uma forma de reivindicar o espaço público e declarar presença. É rebelde, não pede permissão.

Qual é a percepção de vocês sobre o impacto e a recepção do pixo em cidades menores?
SONO 1: Eu sou o mais conservador. Sempre quis impactar de uma forma justa, sem prejudicar os membros da cidade, mas sim mostrar que já estive naquele lugar e tenho história ali.
SONO 2: A recepção quase sempre é negativa, pois as pessoas que estão com sono focam apenas nas letras em uma parede, como se fosse sujeira.
SONO 3: Em cidades menores, a recepção do pixo pode ser polarizada; alguns veem como arte, outros como vandalismo.

Algum membro já foi pego? Como lidaram com isso?
SONO 1: Uma vez, a dupla dinâmica teve que desembolsar uns trocados para ganhar a liberdade.
SONO 2: Pixar é proibido por lei, e o risco faz parte da adrenalina. Se for policial, já era, mas com a população em geral cada um lida de um jeito.
SONO 3: Ser pego faz parte do risco associado ao pixo, e cada membro lida com isso de forma diferente.

A presença do pixo na cidade reflete seus desafios e incoerências. Desde seu surgimento no Brasil, durante o período da Ditadura Militar, o pixo tem uma relação tensa com a cidade, pois é uma forma de diálogo subversivo entre pixadores e sociedade. Apesar do esforço de acadêmicos e tilelês para encaixá-lo em um formato pronto de arte, não existe a mínima necessidade dessa definição. Ele é, ao mesmo tempo, uma expressão e um lembrete da presença de pessoas que vivem à margem e/ou excluídas em espaços que são negados a elas. Assim, a cidade — com seus muros, edifícios e espaços públicos — se torna o canal por meio do qual os pixadores contestam e reivindicam reconhecimento. Apesar da prática se apropriar da arquitetura urbana de maneira não convencional, pixar não é apenas um impulso destrutivo, mas um meio de desafiar as imposições do capitalismo e suas desigualdades em termos de falta de acesso a recursos, oportunidades e visibilidade.

Qual é a relação de vocês com a cidade e como ela influencia o trabalho que fazem?
SONO 1: Somos parte de quem quer radicalizar a cidade. A adrenalina de ser visto é o que a cidade nos proporciona.
SONO 2: Queríamos ocupar a cidade e encontramos no pixo uma maneira de fazer isso.
SONO 3: A cidade é tanto um palco quanto um parceiro no nosso trabalho.

Existe uma mensagem ou posicionamento político por trás das ações do grupo?
SONO 1: Para mim, é o enquadramento, ser um local abandonado ou público e a estética, porque gosto de coisas bonitas.
SONO 2: O posicionamento político seria alertar para o sono em que alguns se encontram. A tag é autoexplicativa.
SONO 3: Não.

Vocês têm alguma preocupação na hora de escolher os lugares para pixar? Se sim, quais são essas preocupações?
SONO 1: Para mim, o enquadramento e a estética são importantes, além de ser um local público ou abandonado.
SONO 2: Sim. No geral, olhamos para a visibilidade do lugar, o enquadramento, a estética, o risco e o tamanho.
SONO 3: Sim, temos várias preocupações, como visibilidade/impacto, segurança, risco de repressão, estética, propriedade e consentimento.

O grupo ainda está em atividade? Vocês têm intenção de trazer mais pessoas para a SONO?
SONO 1: É interessante dizer que alguns ainda estão, sinto que podemos transformar isso em algo como ‘V for Vendetta’.
SONO 2: Pixador nunca para, só dá um tempo. Não temos intenção de trazer mais pessoas, mas sabemos que outras já estão fazendo a tag.
SONO 3: Sim, mas não.

Quais são as perspectivas para o futuro da SONO?
SONO 1: Espero que as futuras gerações consigam trazer mais qualidade com consciência.
SONO 2: Acredito que as coisas sempre mudam e se adaptam, e nossa tag seguirá dessa forma.
SONO 3: O grupo vem passando por mudanças de posicionamento.

Caso queira discorrer sobre algum outro tema que não tenha sido perguntado fique a vontade.
SONO 1: Eu queria que nossa grife se espalhasse mais, para que os meninos (e meninas) pobres que pensam em delinquir entendessem que, na pixação, não se trata apenas da destruição de patrimônio alheio, mas de uma forma de refletir sobre as camadas mais pobres, com críticas políticas a uma cidade sonolenta — uma cidade que se preocupa em vender um sono melhor, mas não trata a raiz dos nossos problemas ao se deitar na cama. A realidade é que nenhum menino pobre vai pegar um spray para pixar, então sinto que o que penso é utópico. Mas, se for para falar de utopia, que esse ato criminoso de pintar uma parede que não é sua não seja motivo de tanta angústia. Falta um espaço para o Hip-Hop se expressar sem violência ou drogas. Muitas pessoas andam com o rei na barriga e falam sobre humildade, mas humildade é uma prática, não apenas uma ideia. Penso muito em como não incomodar as pessoas com a pixação, afinal, ninguém quer ter prejuízo. Gosto de brincar também com a grafia de SONO, que separando as sílabas se traduz em inglês para “Então não”, uma oposição a pixação, ou “NO, SO?” que seria “Não, e daí?”, ou “NO, SO.” que seria “Não, então.”, ou “S/N” de Sim ou Não, ou “S e N” que podem representar linhas retilíneas e senoidais, ou na gíria mineira “Sóó nóó” que significa o entendimento de algum assunto, ou revertendo a ordem “O NOS”, “ON OS”, “ONSO”, “SNOO”, “NSOO”…

SONO 2: Vejo hoje que o pixo em Divinópolis, assim como o grafite e o hip hop em geral, está mais presente do que quando começamos. A juventude tem despertado mais e está fazendo um belo trabalho. Torço para que esse movimento só cresça e que possamos ver uma cidade mais acordada, dinâmica e com espaço para as diversas expressões da juventude. A única maneira de fazer isso é destinando recursos para as coisas certas, algo que só um governante ou um bilionário pode fazer — e o primeiro nós podemos escolher. Um voto consciente será muito importante para que a cidade continue nesse caminho. Deixo aqui uma homenagem ao AK47, precursor do pixo divinopolitano e peça fundamental na construção da identidade da La Quadrilha, que influenciou muito a nossa tag e hoje está vendo tudo isso do outro lado da vida. Busquem conhecimento!

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