É noite em Goiânia. A festa ainda ecoa ao longe, mas ele está na rua, sozinho, sobre uma moto emprestada, percorrendo sem destino uma cidade que mal conhece. Álcool no sangue, a cabeça em outro lugar e o corpo exausto depois de um dia inteiro de skate, muito sol e alguns excessos. Ele ainda não sabe, mas está prestes a viver um momento que mudaria sua vida e seus hábitos. Uma perda de controle, o asfalto se aproximando rápido demais. Boom. Um ponto de virada.
O que começou ainda na infância como uma brincadeira hoje ocupa o centro da vida de João Freitas, o Jhoninho da Baixada. O skate entrou em sua vida aos quatro anos, como presente do pai, e nunca mais saiu. A cena descrita acima aconteceu durante uma de suas viagens para filmar aquele que talvez seja o vídeo de skate mais aguardado dos últimos tempos: Beats 2, dirigido por Alexandre Cotinz.
João foi escolhido para fechar o vídeo. Uma responsabilidade que, por si só, dá a dimensão do peso que ele precisava carregar. Beats 2 ocupa um lugar importante no imaginário e na cultura do skate brasileiro. Não por acaso, quem desempenhou esse mesmo papel na produção de 2011, com uma parte que se tornou icônica, foi Daniel Marques.
Depois de perceber que a vida havia lhe dado uma “lição”, João, porém, saiu por cima. O resultado fez justiça à escolha do diretor. Falando em nome da Rataria, vimos no repeat e consideramos uma das melhores partes dos últimos tempos. A música, por sua vez, é tão emblemática que já virou hino. Depois de uma experiência desse nível, era de se esperar que a obra refletisse, na mesma proporção, o momento vivido por ele.
Confessamos que demoramos a procurar Jhoninho para falar sobre Beats 2. Mas uma parte como essa foi feita para vencer o tempo, e não é exagero presumir que sua relevância será atemporal.

Brenndel Ferreira: Salve, João! Vou começar perguntando sobre sua origem no skate. Você falou em alguma entrevista que conheceu o skate através do seu pai. Como foi esse começo?
Eu ganhei um skate quando era bem novo. Com uns quatro anos de idade já tinha um skate. Meu coroa não chegou a andar de skate, porém os parceiros dele da época eram meio que desse rolê. E aí ele comprou um skate e deixou lá em casa jogado. O skate faz parte da minha vida desde as primeiras lembranças. Na minha rua tinha uma molecada que andava de skate, então, casou perfeito. Meu coroa me lançou o skatezinho, e eu ficava na rua brincando. Em um certo momento, ao invés de brincar com outros bagulhos que rolavam, eu brincava de skate. Teve um tempo que eu jogava bola pra caralho, e o skate ficava lá em casa guardado. Até uns sete anos mais ou menos eu usei o skate mais como um brinquedo, pelo que me lembro.
Brenndel: Minha próxima pergunta é sobre sua origem no punk. Pra saber se você conheceu o punk antes ou depois do skate. Mas como você começou a andar bem novinho, como teve contato com punk?
Conheci o punk através do skate. E depois de ter conhecido, me aprofundado um pouco, conhecido o ideal, percebi que eu já era punk antes de conhecer a parada, sabe? Toda a realidade de onde eu vim, a correria, todas essas questões. O punk veio através do skate, com bastante influência de amigos e do centro de São Paulo. Porque até então, na Baixada, não tive contato com o movimento. O Davi foi uma forte influência também. Quando o conheci ele estava bem inserido no rolê. Aí já era: começamos a colar junto nos picos onde os punks se reúnem. Então, sim, o skatão veio primeiro.

Brenndel: E o apelido Jhoninho da Baixada (risos). Como você ganhou ele?
Isso aí é mó mula, na real. Zoeira dos parceiros. Estava viajando com a molecada da Cucaracha e eles ficavam tirando onda comigo e eu sempre falava: “Sou da Baixada, não fica me tirando não”, (risos). Aí pegou o Jhoninho da Baixada.
Waldir Anthony: Você é de São Vicente, né? Pra montar essa pauta eu procurei sobre e descobri que tinha um campeonato famoso na Toca Skate Plaza, onde você chegou a pegar pódio na categoria iniciante em 2017. Antes de se dedicar aos vídeos de rua, você viveu bastante essa fase de “campeonateiro” na Baixada Santista?
Querendo ou não, essas eram as referências que estavam mais próximas de mim na Baixada. Quando eu descobri a Toca, já tinha uns moleques que se destacavam, como o João Formiguinha e ele já estava na TV Tribuna. Tinha uma banca de outros manos que hoje em dia nem andam mais de skate. Naquela época, o skate pra mim era só campeonatos. Lá tinha muitos eventos, eram quatro etapas do circuito da Toca no ano, mais três do circuito do Vicentinho. Então era o ano inteiro de eventos. Então, sim, comecei por esse caminho. Conheci as pistas que eram mais próximas da minha casa e depois de um tempo, virei praticamente local na Toca. E lá é bem forte essa cultura dos eventos. Na Baixada, a molecadinha sempre começa por esse caminho. Nessa época corri evento pra caralho.
Anthony: Em algum momento você sentiu que precisava sair da pista para encontrar sua própria identidade no skate?
Sim. Teve um tempo que eu estava ficando meio desgostoso dos campeonatos. Tava tudo sem graça. A partir daí, comecei a me desencantar um pouco do skate. Isso aconteceu por volta de 2019, nem faz tanto tempo assim. Tava ficando muito chato esse corre dos eventos, e eu fiquei meio bitolado com isso. Não tava curtindo andar de skate assim. Eu estudava, fazia um trampo numa adega e andava de skate nas pistas pra conseguir dar um rolê da hora nos eventos. E é o retorno que a família curte, chegar em casa com as premiações de evento. Lembro que eu via no Instagram uns bagulhos do Cotinz, antes de conhecer ele, bastante coisa do Nano, uns clipes soltos. E eu sempre falava com meus amigos: “Temos que andar de skate na rua”. Descolamos uma Go Pro e começamos a filmar os bagulhos na rua. Fui muito influenciado pela galera de São Paulo que eu não conhecia ainda, mas que eu já acompanhava pelas redes sociais. O Akira [Shiroma] principalmente, não posso esquecer disso. Akira foi uma grande influência pra isso acontecer. Porque vi ele andando em Palmares uma vez, e pensei: “Caralho, quem é esse maluco?”. Ele é sinistro! Depois fui pesquisar no YouTube e fiquei louco com o rolê dele.

Brenndel: Por falar em influência, você é um cara que consegue mesclar o estilo punk mais agressivo, pulando gaps e andando em corrimãos, com um skate muito técnico, cheio de manuals e combos. Quais são suas referências?
Acho que é por causa da Praça Palmares em Santos. Lá tem desde palcos de chão até escadas e tudo mais de uma praça. Então, foi fluindo esse rolezinho, consegui juntar borda de chão alta, curbzinho, córner… enfim, essa foi a minha escola. Aprendi muita coisa lá.
Brenndel: Você acha que ainda existe espaço para um skatista desenvolver um estilo realmente original sem precisar se encaixar em uma estética vendável, na era das redes sociais?
Acho que ainda tem. Mas tem que tentar isso longe da internet, senão acaba sendo influenciado por toda essa parada da Supreme, dos kitzinhos e da touquinha na cara. É foda! Não sei dizer direito sobre isso, mas acredito que sim. Se souber buscar boas referências, acho que ainda tem como ter um estilo original.
Anthony: Você já fez parte da Cucaracha Tape, Asco Skateboards, Perfume, Beats 2. De onde vem essa aproximação com marcas e projetos que têm uma visão mais conceitual do skate? É algo que você busca conscientemente ou essas conexões foram acontecendo naturalmente através das pessoas que você conheceu no skate?
Foi natural. Na real, essa movimentação de vídeos aconteceu tudo muito rápido. Eu tava nessa pira com meus amigos de filmar na rua e, após esse momento da GoPro, eu conheci uma galera da Praia Grande. Já tinha uma Handycamzinha com aqueles disquinhos, e os moleques estavam metendo marcha na rua. E eles manjam muito de vídeo de skate e me apresentaram vários. Logo na sequência conheci o Cotinz, lá na Baixada, no lance da Perfume, quando eles foram pra lá filmar. O Cotinz foi o cara que eu mais fiz amizade entre todos. As outras paradas só foram acontecendo. Comecei a colar com o Cotinz, conheci um aqui, outro ali… fiz uma imagem com uns, bem naturalzão mesmo.


Anthony: Você foi escolhido para fechar o Beats 2. Você já sabia disso ou só descobriu quando o vídeo já estava quase terminado?
Eu nem sabia que ia ter uma parte. Chegou um momento em que já tinha filmado bastante imagem e o Cotinz me fez o convite pra fazer uma parte. Respondi que sim, lógico. E a gente continuou filmando, não sabia de início quem ia fechar, nem quem ia abrir. Mas, no decorrer do projeto, ele montou uma prévia e mostrou pra gente. Foi aí que eu percebi que estava no final da timeline. Uma surpresa muito foda.
Brenndel: Baita responsa, né?
Responsa, mano. Isso foi bem louco, parando pra pensar.
Brenndel: No quadro de perguntas da mídia Quarto Mundo, o Cotinz falou sobre os processos do Beats 2 e citou seu acidente de moto em Goiânia como uma das situações mais marcantes do vídeo. Como aconteceu o acidente? Quanto tempo levou para você voltar a andar de skate depois do acidente?
Foi muito cabuloso esse bagulho. Foi uma parada que mudou a minha vida, me fez acordar. A gente estava em Goiânia, tinha ido passar uma semana lá. Era aniversário da Ambiente Skate Shop de 15 anos. Ia rolar uma festa lá e a gente pensou que seria daora aproveitar pra ir filmar. E tava muito massa. Fomos de carro, chegamos numa noite e no dia seguinte fizemos uns corres de cogumelos e depois fomos pra sessão, o dia inteiro. Água, cogumelo e skate, tudo na maior sintonia, muito massa. E a noite a gente foi pra festa da Ambiente, e começamos a beber horrores. E eu pegava a motinha de um camarada pra ir na adega toda hora buscar o goró. E, em uma dessas idas não sei o que me deu, mas não tava curtindo o rolê. Peguei a motinha e fiquei dando umas voltas por Goiânia. E nessa, perdi o controle e bati de cara no chão. Fiquei todo fudido, trinquei o crânio, quebrei os dentes, tive que refazer todos. Fiquei internado em Goiânia, bem zoado. Achei que ia morrer. Eu tava muito louco. Foi tipo um alerta da vida pra eu acordar. Os manos não podiam me visitar, fiquei internado uma cota e voltei direto pra Baixada. Isso aconteceu no primeiro dia da trip.


Brenndel: E você falou que esse tombo marcou a sua vida, marcou de que maneira?
Mudei muito. Nessa época eu estava sem expectativa. Saía pra rua bebendo corote, usando droga pra caralho. Eu estava bem desgostoso, querendo dar uma brecada, mas não conseguia mudar. Numa dessas fui pra Florianópolis, Curitiba, sem celular, depois São Paulo e Goiânia na loucura, perdido total na vida. Esse bagulho me fez dar mais valor pra vida. Me fez entender que eu estava jogando fora o que eu mais gosto de fazer. Tudo o que eu fazia de melhor, que me dava satisfação, eu tava fudendo com isso. O pior foi o pós-acidente, que aí eu fiquei em casa mó tempão antes de conseguir voltar a andar de skate. Na mesma semana que eu voltei, todo troncho, torci o pé. Fiquei mais um tempão. Entrei no modo deprê e percebi que se eu quisesse me recuperar, teria que me cuidar. Depois disso, parei de usar droga, bebo bem menos álcool hoje em dia, tenho muito mais disposição pra andar de skate. Tenho mais foco nas minhas caminhadas, nos meus projetos, tanto no skate quanto na vida, sou mais presente com a minha família e tals. Não precisava ter sido do jeito que foi, mas foi necessário.
Anthony: É importante ter esse momento. Todo skatista passa por isso em algum momento. Às vezes, a gente acha que é imortal. Você vai fazendo vários bagulhos fodas, e, do nada, a vida mostra que você é um ser humano comum, que tem que ter o pé no chão se não desanda.
Isso é muito sinistro. Esse acontecimento me fez perceber o quanto a vida é frágil.
Anthony: Voltando pro Beats 2: a música da sua parte é muito foda, icônica. A escolha foi sua ou do Cotinz? Como é participar de um projeto dirigido pelo Cotinz?
Ideia do Cotinz! Ele sempre mostra as músicas, pergunta o que achamos e tals. Por mais que seja ele que está dirigindo, se você falar que não gostou, ele não vai colocar. Pra falar a real, no começo, quando escutei a música pela primeira vez, pensei que ele estivesse brisando nesse som, queria que ele escolhesse uma pauleira. Mas com o tempo, fui ouvindo e vendo como estava ficando a montagem e, no final, eu já estava ouvindo a música em casa sem parar. Foi assim que eu percebi que o som é bom mesmo.
Anthony: E teve alguma manobra no vídeo ou momento das sessões que te marcou e que você gostaria de compartilhar com nós?
O Fifty em Curitiba na Praça 29. Esse dia foi memorável pra mim. Tudo foi feito meio que no improviso. Eu tinha falado do pico um dia antes, bêbado, andando no monolito com a rapaziada da Filmerd. Estava muito bêbado e chamei os caras pra voltar lá no dia seguinte. Acordei na maior ressaca no outro dia e os caras me cobraram para ir lá. Foi foda porque não tinha ninguém pra filmar e, do nada, apareceram dois manos pra filmar e dois pra tirar foto. Teve a fotinha que saiu na revista impressa, minha primeira fotinha da vida. Isso me marcou muito, principalmente pelos caras terem botado fé em mim, por algo que falei da boca pra fora.

Anthony: Sinistro aquele pico. E como funcionavam as sessões na filmagem do Beats 2? Vocês saíam de sessão em busca dos picos, ou cada um ia num pico específico?
Um pouco dos dois. Quando tinha um pico em mente, a gente marcava e ia correndo; ou fazia com o Reginho, do Cucaracha Tapes, e pedia pra ele segurar a imagem pro Cotinz. Mas na maioria das sessões a gente se trombava em alguma estação e saía andando. Algumas vezes já tinha um pico em mente, mas o resto era tipo meio que sair explorando mesmo. As sessões que realmente foram pensadas foi quando a gente decidiu viajar pra terminar o vídeo. Mas, de resto, em São Paulo, na maioria das vezes a gente trombava em alguma estação de metrô e explorava a cidade.
Anthony: A galera do Cucaracha tem muito esse feeling. Pelos vídeos dá pra ver que são vários picos inéditos.
É, passa essa ideia mesmo. Nós sempre ficávamos caçando os picos. No apêzinho 64 onde nós morávamos, um moleque levou um mapa do metrô, aqueles do metrô de São Paulo, grandão, e colou na sala. A gente sempre ficava olhando pra ele antes de decidir onde íamos no dia. Também tem o aplicativo Shiner que mostra vários picos. Aí nós descia em tal estação, abria esse aplicativo e buscava os picos.
Anthony: Era só skatistas que moravam nesse apartamento?
Sim, e todo mundo na função da filmagem. Eu não cheguei a morar definitivamente, mas fiquei indo e voltando durante muito tempo. Era daora, a molecada se agilizava nos trampinhos que dava e andava de skate. Todo mundo unido no centro, arrumava qualquer trampinho, qualquer coisinha pra fazer e se manter, pra não ter que voltar pra sua cidade.
Brenndel: E agora, você está trabalhando em algum projeto novo?
Então, em relação à Chantel, tem alguns projetos pendentes. Tô trabalhando numa parte independente com o Régis, videomaker do Cucaracha Tapes, há uns dois anos. Logo menos vai sair.
Anthony: Chegamos ao fim da entrevista. Caso queira falar sobre algo que a gente não perguntou, o espaço é todo seu.
Quero agradecer mesmo o salve. Acho massa pra caralho esse movimento que vocês estão fazendo. Tamo juntão pra essas paradas. Vamos fazer a união e tentar mudar um pouco essa realidade que a gente tá vivendo agora. Esse momento que a gente tá passando no skate. É importante demais. Mas é isso, massa que vocês fazem um trampo desse e resistem. Mostra que tem um caminho certo a ser seguido.


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