O banks de Divinópolis, conhecido por Banks do Gafanhoto, localizado no Horto Florestal, celebrou, neste domingo, 16 de agosto, seus 38 anos de idade. A confraternização foi organizada pelo veterano Rodrigo Pires de Lima, o Kiko, realizador do evento e skatista há mais de 40 anos, que conseguiu reunir uma banca pesada de skatistas de todas as gerações.

A ideia apareceu quase por acaso, quando Kiko se deu conta da data. “Cara, um mês atrás, eu vi que a pista faria 38 anos. E a gente tá andando aqui direto, movimentando a cena, e surgiu a ideia de comemorar o aniversário da pista de 38 anos. Reunir a galera, a molecada nova pra gente poder movimentar o Gafanhoto. E deu certo, tamo aí, a festa aconteceu.”

O evento foi realizado seguindo a filosofia do skate raiz: faça você mesmo. Há mais de 10 anos, os skatistas cuidam do local com recursos próprios. Embora, nesta edição, a Prefeitura tenha se apresentado como realizadora do evento, o que foi oferecido pelo poder público se resumiu apenas a dois banheiros químicos, um gradil em torno da pista (que não tinha necessidade) e água para os competidores.

rodrigues pires de lima, o “kiko”

“Tivemos muita dificuldade na realização desse evento. Toda a infraestrutura foi feita por nós, skatistas. Tanto a capina em volta da pista, a reforma com nossos recursos, a conservação… A gente cuida dessa pista há mais de 10 anos. Não tem prefeitura; na verdade, essa é a primeira vez que a prefeitura tá dando uma força. Ela ofereceu o banheiro químico, os gradil, água, mas já é um começo”, contou Kiko.

A relação com o poder público, no entanto, também passa pela necessidade de ocupar os espaços institucionais. Alexandre Dota, mineiro de Belo Horizonte, skatista desde 1977, pai de três filhos skatistas e com uma vida inteira dedicada à cultura do carrinho, vê essa aproximação como uma etapa necessária para a organização da cena.

“Hoje os skatistas tem que tá ao lado do poder público, porque são eles que têm o alvará pra gente fazer os eventos. Então, hoje já temos essa cabeça mais aberta com poder público, de ser parceiro, e é lá que o dinheiro da gente está. O nosso dinheiro, da população, tá todo lá, então eles têm que usar com a gente. Nós estamos correndo atrás disso, entendeu?”

O apoio desta edição, porém, ficou longe de corresponder ao status de “realizadora” assumido pela Prefeitura. Os itens oferecidos não representam nem um terço do que foi necessário para fazer o evento acontecer. Além disso, por motivos que ninguém consegue decifrar, a Prefeitura decidiu criar outro banner de divulgação, totalmente fora da identidade visual escolhida pelos skatistas – os verdadeiros realizadores. A Prefeitura pegou os elementos presentes no banner original – cadeira, churrasco e skate –, símbolos reais do Banks do Gafanhoto, usou um banco de imagem qualquer e pronto: a fubanguice estava feita. Isso sem contar que ignoraram a paleta de cores escolhida para o evento. Enfim, bom gosto não se dá em árvore.

Também estava prevista a apresentação de bandas, mas a programação foi interrompida por uma falha técnica ocorrida no gerador de energia. É sério que nem isso a Prefeitura foi capaz de providenciar? Ainda assim, o evento seguiu animado, mesmo sem uma parte da programação destinada exclusivamente à música.

As categorias disputadas foram Feminino, Iniciante, Amador, Master e Legend. A competição teve pódio, mas não contou com premiação, mostrando que o mercado do skate não está em sua melhor fase. A ausência de prêmio também ajudou a deixar o clima longe daquela pilha de campeonato em que a colocação vira o objetivo central.

Para Kiko, essa era justamente a proposta. “Esse evento representa o skate. Eu acho que é pra divertir e não pra competir. Essa é a verdadeira essência do skate, todo mundo brincar, sem competição, e foda-se a premiação. E é isso aí. Essa competição é mais pra confraternizar mesmo e não pra criar rivalidade.”

Cláudio Prado, presidente da Associação Divinopolitana de Skate (ADS) e skatista desde 1991, fez uma leitura parecida. “A premiação é importante para incentivar e tudo. Mas o campeonato sem premiação também é skate. É mais verdadeiro porque vem quem quer e quem gosta, quem curte o rolê e se diverte. Aqui não é quem quer premiação, quem quer levar no sentido só de competição. Isso acaba afastando essa galera aí, e fica até mais legal, pois só vem quem gosta mesmo.”

Inclusive, um dos campeões reconheceu, talvez modestamente, que o segundo colocado merecia ter vencido – situação que, em eventos com premiações, geralmente acontece justamente ao contrário. A disputa existiu dentro da pista, mas não tomou conta da confraternização.

O objetivo do evento foi comemorar a história de uma pista que representa um grande legado para a cidade. Dennys Assaf, considerado pelos skatistas de divinopolitanos o pai do banks, protagonista da inauguração da pista em 1988 e fundador da Animal Skate Shop, primeira skateshop da cidade, prestigiou de perto a celebração.

“São 38 anos de história, e estamos comemorando a construção dessa pista.”

no canto da direita, dennys assaf, o pai do banks do gafanhoto

A história do Banks do Gafanhoto também nasceu de um problema muito concreto para quem andava de skate na cidade naquele período. Sem pista, a rua e as praças eram praticamente as únicas opções. Dennys lembra dos conflitos com lojistas e com a polícia, das rampinhas improvisadas que eram quebradas e das sessões na Praça da Catedral.

Depois do abaixo-assinado, a Prefeitura entrou com o local, brita e mão de obra. Dennys correu atrás do restante. A Central Beton forneceu concreto, enquanto areia e quase 200 sacos de cimento foram conseguidos com apoio de empresas e gente da própria cidade. A construção levou cerca de três anos.

“Cara, “o pai” eu não digo, mas assim… muita gente me ajudou, é uma coisa muito legal, eu tive a colaboração de muita gente e tal. Eu fui na rádio pedir. Foi difícil, demorou uns três anos para ficar pronto e tá aí até hoje.”

Aos 38 anos, o banks recebeu no mesmo domingo gente que anda de skate desde a década de 1970 e skatistas que começaram muito depois da construção da pista. Elton de Oliveira Filho, o Rato, veterano de 66 anos e skatista desde 1976, acompanha essa passagem de gerações de dentro.

rato, 66 anos, 50 de skate

“O que me motiva a andar de skate é estar sempre em eventos como esse aqui e ver a evolução dos coroa e da molecada nova. Cada um com estilos diferentes, rolês diferentes, manobras diferentes. Então acaba que isso é minha maior motivação. Eu, hoje com meus 66, ainda tô tentando aprender um pouco mais sobre o skate. Porque a gente nunca sabe tudo sobre o que é o skate. É só vivendo ele, convivendo com outras gerações e aprendendo junto com a evolução do movimento.”

Rato segue competindo e já se prepara para participar, em Curitiba, de um campeonato brasileiro Old School homologado pela CBSK. Com 50 anos de skate, ele compete na categoria Sexagenária, destinada aos skatistas acima dos 60.

Para quem veio de cidades menores, uma pista como a do Horto também carrega outro peso. Thiago Reis, o Padaria, skatista de Cláudio (MG), tem 37 anos de idade, 26 de skate e competiu na categoria Master. Durante muito tempo, andar em um banks daquele tipo nem fazia parte da rotina dele.

“Eu confesso que é por causa do desafio. Por morar no interior, a gente teve contato com pistas bem depois. Tipo, a gente andava na pracinha com o chão ruinzaço. Tinha degraus, cimento com cerâmica, a gente passava vela até doer as mãos, e fomos ver pista mesmo só depois de sete anos de rolê.”

thiago reis, o padaria e o rato

A máxima de 29 °C, incomum no inverno, não foi um problema. O ambiente estava fresco, rodeado de árvores e de vários piqueniques ao redor do banks. Muitos skatistas aproveitaram para passar o dia com a família, celebrando os 38 anos de história da pista.

no entorno do banks

Para Thony Willer, de 32 anos, voltar ao mesmo banks onde começou a andar cerca de duas décadas atrás também colocou a própria história em perspectiva. Thony conta que nasceu com uma deficiência e encontrou no skate um caminho para desenvolver autoconfiança, disciplina e vontade de continuar tentando. Depois de passar cerca de cinco anos afastado para se dedicar ao trabalho e aos estudos, voltou a andar.

“O Parque do Gafanhoto, que hoje faz 38 anos, foi o primeiro banks que eu andei, há sei lá, 20 anos atrás, e hoje eu venho aqui, tenho mais energia do que a da primeira vez. Só de estar vivendo isso, tendo essa troca, essa reciprocidade com a galera, já me motiva.”

thony willer

Ao final do evento, ficou evidente mais uma vez quanto da existência da pista ainda depende diretamente dos skatistas. A manutenção, a reforma e boa parte da estrutura da festa saíram de quem frequenta o Horto. Kiko puxou a organização, enquanto o banner oficial foi desenvolvido por Robson Tavares, o Carneiro, a partir da identidade construída pelos locais.

Quando a pista foi construída, Dennys contou ao prefeito da época que ela duraria 250 anos. Trinta e oito anos depois, a obra continua ali, ocupada por skatistas e mantida por quem ainda faz questão de andar nele.

skatistas que fizeram – e ainda fazem – história
loló e o kiko

Uma resposta para “BANKS DO GAFANHOTO COMPLETA 38 ANOS; SKATISTAS SE REÚNEM PARA CELEBRAR O LEGADO”

  1. Avatar de Madson Campos

    MATERIA CIRURGICA EM RELAÇÃO A TUDO, principalmente sobre a “larapiagem” da realização do evento

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