Em 2020, dois velhos amigos criaram o Skate Shop Day para celebrar esses adoráveis centros culturais alicerces da cena do skate. O mês escolhido foi fevereiro, mais especificamente o terceiro sábado do mês, por razões climáticas. Em boa parte do mundo, esse período coincide com o inverno, estação que impacta diretamente as vendas das skate shops. O evento surge, então, como uma forma de amenizar esse prejuízo, promovendo ações de incentivo que motivam os skatistas a frequentarem e apoiarem essas lojas, tão importantes para a cultura.
No Brasil, porém, a justificativa da estação não se aplica da mesma forma. Não vivemos um inverno no mês de fevereiro e, em muitas regiões do país, é possível afirmar que ele praticamente não existe em nenhuma época do ano. Ainda assim, aderir a esse movimento continua pertinente no cenário brasileiro, especialmente considerando que as skate shops atravessam diversas crises de mercado, e muitas dessas lojas, infelizmente, acabam perdendo sua identidade para conseguir sobreviver. O que não é legal para a cultura nem para os skatistas.
Dessa forma, apoiar o Skate Shop Day no Brasil vai muito além de um gesto simbólico. A data marca um momento importante de conscientização sobre o papel histórico exercido por esses espaços e sobre como a comunidade pode unir forças para garantir que essa estrutura fundamental da cultura do skate continue viva. Sendo assim, fevereiro ser ou não um bom mês para celebrar a data no Brasil é a menor das questões, já que, na prática, todo mês é um excelente momento para lembrar que as skate shops existem, e para reafirmar, continuamente, nosso apoio a elas.
Diante disso, este mês se mostra oportuno para resgatar o artigo “Fora sanguessugas: o valor das skate shops reais”, de Ivan Lopes, originalmente publicado em 2024, na Zine #01 da Rataria. O editorial desta edição, intitulado “O Manifesto”, era apontar algumas problemáticas identificadas dentro e fora da cultura do skate (dentro de um contexto de cidade do interior, que foi onde a zine circulou). E este artigo em questão, discute questões relacionadas as skate shops reais em oposição às sanguessugas por uma perspectiva crítica e combativa.
Mas antes de iniciar a leitura, uma breve definição desses dois conceitos chaves, tal como os entendemos: o que é uma skate shop real e o que é uma sanguessuga, isto é, empreendimentos que tentam se passar por skate shop.
Uma skate shop real pode ser reconhecida por um conjunto de práticas e relações construídas ao longo do tempo. Em geral, é administrada por um skatista que convive com a cena local, é acessível e participa ativamente do cotidiano dos skatistas da cidade. Apoia ativamente skatistas locais, seja por meio de materiais, ajuda de custo para viagens ou na conexão direta com marcas e/ou distribuidoras. A skate shop real também compreende a importância da produção audiovisual para a cultura do skate, incentivando e colaborando com a realização de vídeos e full videos. Além disso, está presente nas discussões públicas relacionadas ao skate, contribui com projetos, cobra melhorias junto ao poder público e promove eventos, campeonatos e iniciativas independentes que fortalecem a cena local.
Já as sanguessugas podem não apresentar nenhuma das características de uma skate shop real ou, em alguns casos, se apropriar parcialmente delas de forma distorcida, confundindo skatistas menos atentos. Em geral, são identificadas quando o proprietário não é skatista ou mantém apenas uma relação superficial com a cena; quando não há apoio real aos skatistas locais, ou quando esse apoio se resume a ações convenientes e desiguais (como oferecer descontos em produtos em forma de patrocínio); quando a cultura do skate, sua história e sua produção audiovisual não são valorizadas; quando não há envolvimento com discussões públicas, projetos ou demandas da cena local; e quando eventos e campeonatos são promovidos sem compromisso com a qualidade, a ética e o fortalecimento do skate na cidade.
Com as definições explanadas, vamos para o manifesto:

“Uma skate shop não é apenas uma loja, ela é um ponto de encontro dos skatistas.”
A partir desta fala do Geova (@giordanov), dita quando recebeu o prêmio de skate shop do ano representando a Yerbah Skateshop, em 2023, podemos afirmar que a skate shop na cidade carrega uma importância vital para o skate. Claro, isso se a loja for uma skate shop real, feita por e para skatistas de verdade, e não de sanguessugas. A importância está no fato da skate shop, por tradição, ser o local de encontro dos skatistas e fonte de informação para a cena local.
A skate shop, quando bem administrada, é administrada por skatistas. Se tomarmos Divinópolis como exemplo, podemos compreender a importância que as skate shops tiveram para a consolidação e o seu crescimento da cultura na cidade. A primeira skate shop da cidade foi a Animal Skateshop,fundada pelo skatista Dennys Assaf. Ela servia de ponto de encontro dos skatistas, onde eles se informavam sobre o universo do skate, assistiam vídeos e trocavam ideias. A skate shop também patrocinou e conectou skatistas diretamente com as distribuidoras, além de promover eventos para fomentar o skate da cidade. Continuando o legado da Animal Skateshop, o skatista Robson Tavares, conhecido pelo vulgo Carneiro, fundou a Libertas Skateshop. Skate shop real, ela também foi fundamental para a cultura na cidade. A Libertas era ponto de encontro para os skatistas, tinha uma equipe de skatistas patrocinados, promoveu incontáveis eventos na cidade durante a sua existência e participou ativamente para a concretização de skateparks, desenvolvendo projetos e mobilizando skatistas. Com esses exemplos, vemos que uma skate shop é mais do que apenas uma loja de materiais de skate: é um elo essencial para fomentar a cultura da região. Sendo assim, é importante que seu dono tenha compromisso com o movimento e, óbvio, seja um skatista.
Entretanto, a realidade que se vê em muitos lugares é bem diferente disso. O skate sempre sofreu com os sanguessugas querendo surfar no hype. Acontece que, com o aumento do uso de smartphones, a informação sobre o universo do skate deixou de ser exclusiva das skate shops e divide espaço com as redes sociais, o que acaba por enfraquecer sua influência local. Os skatistas desmobilizados podem não enxergar o verdadeiro valor da skate shop real, deixando brecha para que sanguessugas adentrem sorrateiramente. É justamente aí que surgem lojas sem comprometimento, sem identidade, querendo usar o mercado do skate se passando por verdadeiras, e que muitas vezes, devido à desinformação por parte da cultura, acabam conseguindo. Isso, no pior dos casos, representa a extinção ou quase fim das skate shops reais.
Visto a relevância que uma skate shop real tem para a cena local, os skatistas precisam unir forças para erguê-la: fomentar a cena, dividir esforços e trabalhar para o crescimento do skate na cidade. Os skatistas locais que colaborarem para esse crescimento, tão logo, poderão cobrar o retorno pelo seu esforço, seja através de eventos, projetos, patrocínios de skatistas locais, campeonatos, etc. Com essa parceria, todos saem ganhando e o skate tende a crescer cada vez mais culturalmente.
Por outro lado, lojas que se comportam como sanguessugas, não contribuem para o movimento e se limitam a explorar comercialmente o skate, acabam prejudicando diretamente a cena local e enfraquecendo o trabalho de quem realmente se dedica à cultura. Cabe ao skatista comprometido reconhecer esse tipo de prática e optar por não fortalecê-la, priorizando o apoio às skate shops reais. A conscientização coletiva e o direcionamento do consumo são ferramentas fundamentais para valorizar quem constrói o skate de forma legítima e evitar que iniciativas oportunistas ganhem espaço.
Com o Instagram, uma metralhadora de informação de todo canto do mundo, quem antes se informava através das skate shops, hoje se informa pelos smartphones. Paradoxalmente, apesar da quantidade de informação bombardeada o tempo todo, eles estão cada vez mais expostos à desinformação. Isso está rompendo um laço histórico e a troca de informação entre skate shops reais e skatistas, o que se reflete na nova geração de skatistas. Se não estão bem informados, podem limitar seu conhecimento apenas à rede social e, ao longo dos anos, se distanciarem da história e da tradição do skate. O ponto está em saber equilibrar e até onde usar. Temos como exemplo o Brian Anderson, que afirmou numa entrevista para a Black Media não consumir informações sobre o skate no Instagram. Ele ainda vai até às skate shops e lê revistas para se atualizar sobre o universo do skate. Entretanto, o Brian Anderson vive em Nova Iorque e muitos de nós vivemos no interior do Brasil, onde é difícil até mesmo encontrar alguém para trocar uma ideia sobre skate. Por isso, o problema não é o Instagram, mas sim o que é consumido e se essa é a única fonte pela qual o skatista se informa.
Sem o empenho do skatista em identificar os sanguessugas e o trabalho ativo para afastá-los de seu convívio, cidades do interior ficam bem mais vulneráveis e atraentes para que esses parasitas se proliferem. A informação é essencial para que o skatista local se mantenha ligado no que acontece em seu meio. Com a skate shop deixando de exercer esse papel esse problema pode se intensificar. A internet é uma ótima ferramenta para se atualizar sobre o skate global, mas é preciso não deixar de lado questões relacionadas ao skate que acontece dentro da sua cidade. Cidades do interior do país são as que mais necessitam de ações diretas por parte dos skatistas, tanto para promover o skate e o verdadeiro comércio dele, skate shops reais, quanto para impedir que sanguessugas ingressem no meio do skate e atrase o movimento. Isso porque, diferente das grandes metrópoles, cidades do interior têm mais controle sobre o que acontece na cena local, com a oportunidade de manter sua essência. Assim, os skatistas podem se mobilizar e construir o movimento através da colaboração com skate shops reais.


Deixe uma resposta