Lançado em dezembro, Refúgio marca um novo capítulo da Cavepool ao fundir vídeo de skate e álbum musical em uma mesma obra
Direção: Vitor Miranda e Jeey Pi
Produção: Cave Recordz
Lançamento: 17 de dezembro de 2025
Skate e música são indissociáveis, uma afirmação que poucos contestam. Nem mesmo PJ Ladd, com a emblemática part “Silence Is Golden”, pela Flip Skateboards, não conseguiu separar essa relação. Vídeos de skate sem música só se sustentam – e ainda assim de forma específica – quando se tratam de raw files ou algo do gênero; fora desse contexto, o silêncio tende a criar um vácuo estético na obra, ainda que consideremos o barulho do skate – principalmente pelo microfone da VX1000 – uma música para os ouvidos.
O skatista, ao se envolver na produção de um vídeo, busca torná-lo memorável. Nada cumpre melhor esse papel do que a música, que tem o poder de transportar o sujeito de um tempo a outro, ativando memória e afeto. Está claro, portanto, que a música é um elemento central para o skatista e, sobretudo, para a video part. Há, inclusive, paralelos muito próximos entre a construção de uma video part e a produção de um álbum musical. Em ambos os casos, há um processo intenso de pesquisa, acúmulo de referências e escolhas estéticas conscientes. E é bem provável que, ao longo desse percurso, surjam conflitos entre skatistas, editores e produtores, assim como acontece entre músicos e seus colaboradores. Todo processo criativo envolve tensão; é quase esperado que isso aconteça quando se está produzindo uma obra artística. Em muitos casos, esse conflito é parte fundamental para que o resultado final alcance o nível desejado.


De dentro do ecossistema da Cavepool, que parece ter captado muito bem esse sentimento, nasceu uma das obras capazes de sintetizar as conexões entre essas duas culturas e, a partir disso, produzir algo que renova o olhar e torna essas semelhanças ainda mais próximas. Em dezembro de 2025, por meio do selo Cave Recordz, o coletivo desenvolveu um trabalho no qual skate e música protagonizam, lado a lado, uma mesma obra. O resultado é um belo curta-metragem, dirigido por Vitor Miranda e Jeey Pi, que dá vida a um disco produzido pelo DJ EB.
A Flip Skateboards, marca supracitada, experimentou uma ideia um pouco parecida com essa em 2009 – mas sem explorar a parte do videoclipe –, no seu full video Extremely Sorry. O projeto foi produzido por Ewan Bowman, e toda a trilha sonora é assinada pelo produtor musical Baron. Na época, foram lançados tanto o DVD do vídeo completo quanto um CD exclusivo com a soundtrack de Baron, mostrando como esses dois universos – skate e música – são, historicamente, unidos por propósitos semelhantes.


Antes de continuar, uma observação interessante – apenas no campo da interpretação e sem a intenção de invalidar outras iniciativas – é que, diferentemente de vídeos produzidos em parceria com marcas de energéticos, que podem sugerir a ideia de desempenho ampliado a partir do consumo do produto, tornando o skatista mais competitivo, a parceria aqui se dá com uma cerveja. Essa escolha evoca outra ideia: o da celebração, do encontro e da confraternização.
Vale lembrar que a interpretação apresentada no parágrafo acima é circunstancial e serve apenas para ilustrar, ainda que de forma semiótica, a comparação entre dois símbolos distintos: energético e cerveja. A cerveja, de modo geral, não é associada ao desempenho. Sua presença costuma estar ligada a momentos de lazer, celebração, encontro e descontração. Já o energético carrega uma narrativa oposta: a de estímulo, rendimento e produtividade, frequentemente associada aos esportes radicais e à ideia de performance elevada, incentivando a competitividade e a superação constante de limites. A comparação proposta não busca validar ou deslegitimar nenhum desses produtos, mas apenas evidenciar como diferentes símbolos em nossa sociedade podem influenciar a interpretação de uma obra cultural.
Considerações feitas, voltemos ao vídeo. A obra se inicia ao som de Akira Presidente, em parceria com ÒGGI, na faixa “Se eu quiser viver”. Logo nos primeiros versos, Akira sentencia: “A cena tá sem graça, põe minhas rimas pra temperar”. Já se abre com uma provocação e, ao mesmo tempo, com a apresentação de uma nova proposta. Se está sem graça, a obra se coloca como resposta. A fusão entre o videoclipe e a video part coexistindo dentro da mesma obra, estabelece uma aliança entre potências culturais. Essa união amplia o alcance de valores e práticas coletivistas, cada vez mais raros na cena contemporânea. Tanto no rap quanto no skate, observa-se, nos últimos anos, a crescente presença de discursos individualistas, alinhados a uma lógica neoliberal, frequentemente sustentados por uma noção falseada de meritocracia. Esse modelo promove uma competitividade vazia, desnecessária e, muitas vezes, nociva, na qual todos são tratados como rivais.

Em Refúgio, pelo contrário, a competitividade não encontra espaço. Ela pode, inclusive, ser entendida como a grande vilã – o motivo que levou a Cavepool a buscar “Refúgio” na arte e nas raízes da rua, elementos historicamente fundamentais tanto para o skate quanto para o rap. Essa intenção se manifesta na voz de Dow Raiz, na faixa “Só eu Sei”, quando ele canta: “Skatista não seja um robô, sorria”. É justamente nesse encontro entre a poesia do rap e a expressividade corporal do skate que se constrói, ainda que simbolicamente, uma mensagem clara de resistência. Uma postura política frente aos avanços que o sistema econômico impõe contra as culturas undergrounds, na tentativa de esvaziá-las de seu potencial crítico.
A obra é uma comemoração aos 11 anos de história da Cavepool. “É o primeiro disco musical que vai sair da Cave Recordz. Com isso, a gente decidiu transformar os videoclipes naquilo que a gente mais gosta: vídeo de skate”, afirma Jeey Pi, sobre o processo de criação da obra. Ele também comenta sobre o planejamento e os desafios que tiveram para realizar essa produção: “O processo de filmar um vídeo de skate começa muito antes da gente sair para a rua, na verdade. Existe um planejamento. A gente tem que pensar em cada lugar, para cada pessoa andar. Talvez os bancos sejam lindos para a Nick andar. Porque ela gosta de andar em banco, em caixote, andar no solo, fazer linhas. Porém, o Danilo já é mais coisa de impacto. Ele gosta de pular escada, ele gosta de pular gap, gosta de descer coisa rápida”.


Nick, produtora e skatista da Cavepool, também fala sobre a parte do skatista na construção do videoclipe. Nesse caso, não são meras atuações como em clipes de música tradicionais, são skatistas se dedicando e se jogando nas big pools e ruas de verdade: “E também tem o processo do skatista, né? Que é ter que, às vezes, voltar ao mesmo pico mais de uma vez. Pensar direito na manobra. Às vezes também não é o dia certo, mas aí a gente tem que fazer ser. É uma luta interna de cada um”.
O curta-metragem tem 21 minutos e 49 segundos de duração e propõe uma experiência inédita, tanto para quem quer assistir a um vídeo de skate quanto para quem quer ver um videoclipe. Vale destacar também a curadoria musical, assinada por DJ EB, que explicou o processo em entrevista ao TMDQA: “Chamei pessoas que, de alguma maneira, têm universos próximos, fazem shows nos mesmos lugares e compartilham pontos de ligação. Fiquei feliz com o resultado.”
Os 15 skatistas que participam da obra foram organizados por faixas: Danilo Ximenes, que abre o curta, e Gusthavo Santos assumem a responsa individualmente em “Se eu quiser viver” e “Peripécias”, respectivamente; Clara Lua e Nick Batista formam dupla em “Balanço” e fecham o vídeo; enquanto os demais skatistas compartilham, de forma coletiva, as trilhas “Caótico”, “Natural”, “Compras” e “Só eu sei”. O EP ainda conta com uma faixa exclusiva (Bonus Track), “Natural Jazz”, que não foi inserida no curta-metragem.

O projeto é ambicioso e, como costuma acontecer com obras desse fôlego, pode levar algum tempo até alcançar o público certo. No Spotify, os números de acessos já se encontram na casa das dezenas de milhares, enquanto o curta-metragem ainda caminha pelas centenas de visualizações. É evidente que a dinâmica dos algoritmos tem um papel relevante nessa discrepância, mas também vale observar como o fato de se tratar de rap — um gênero que historicamente constrói relações mais profundas e menos imediatistas com seu público — influencia a forma como a obra é consumida. Diferentemente de outros tipos de produção, projetos como Refúgio tendem a demandar escuta atenta e envolvimento, o que impacta diretamente a circulação de projetos audiovisuais mais densos.
Ainda assim, a Cavepool demonstra, com essa iniciativa, a astúcia necessária para sustentar a proposta. A visão apresentada é, em certa medida, inovadora, mas não se apoia na ruptura pela ruptura. Pelo contrário: ela preserva e valoriza a contracultura underground, fazendo dela não apenas pano de fundo, mas o verdadeiro motor da obra.
Nesse contexto, não por acaso, o curta se encerra ao som de “Balanço”, de Marina Peralta e Murica. A faixa funciona como síntese da experiência construída ao longo do vídeo e ainda deixa um convite final: “Vem vê como é que se equilibra toda essa responsa, sem perder o balanço nem o brilho”.


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