Medianeras é o filme de estreia do nosso vizinho argentino Gustavo Taretto, de 2011. Nele acompanhamos a história de Martin e de Mariana e, como plano de fundo, conhecemos a exuberante e conturbada Buenos Aires. Esses dois personagens, que nunca se encontram, parecem estar em uma busca contínua por algo que eles mesmo não sabem bem o que é.
O filme em si é um mar de metáforas (como a curiosa comparação entre prédios e pessoas). Logo de início é possível entrever que a conexão virtual contrasta com a desconexão física dos personagens. Na era da informação instantânea, celulares, telas de toque e internet sem fio, estamos nos distanciando do humano em si, vivendo de modo cada vez mais automático e solitário sem nos darmos conta que de repente tudo passa a ser extremamente superficial, resultando em corpos doentes, apáticos, com toda sorte de mal estar físico e psicológico.
A história conquista pelo simples e pelos detalhes, que são contados de uma forma diferente de tudo que eu já tinha visto. É um filme sobre amor e busca de sentido? Sim, mas aqui fugimos totalmente de um gênero desgastado e de clichês. Um dos pontos fortes dessa obra é com certeza a introdução sobre as Medianeras. O sentido literal da palavra e da metáfora acerca da mesma me fizeram viajar muito… As Medianeras, ou paredes cegas, representam barreiras físicas e emocionais do Martin e da Mariana. Essas paredes, sem janelas ou ornamentos, simbolizam a incapacidade de conexão numa cidade densa, onde as pessoas vivem próximas mas emocionalmente distantes.
“Tantos quilômetros de cabos servem para nos unir ou nos manter afastados?” A medida que a estrutura urbana de Buenos Aires nos vai sendo apresentada (os edifícios verticais, arranha-céus e monumentos que me deixaram cheia de vontade de conhecer pessoalmente), vemos o urbanismo caótico e a desintegração social como resultado da falta de planejamento das cidades, com espaços públicos que limitam a interação social, confinando as pessoas a viverem em bolhas individuais, como apartamentos e smartphones.
Outra questão abordada é como a mobilidade sufocante, principalmente nas metrópoles, com ruas congestionadas, transportes públicos ineficientes, o que reflete a estagnação emocional dos personagens. Os cortes incessantes da câmera, evocam um ritmo acelerado, simbolizando a sobrecarga sensorial e a impossibilidade de pausa na vida moderna. Contudo, a beleza destes espaços também não é negada, mas é apresentada de maneira complexa e contraditória. É possível perceber uma oscilação entre a crítica a desordem da cidade e a descoberta de uma estética singular. A beleza não está na cidade idealizada, mas naquilo que emerge apesar, ou por causa, das contradições urbanas. É uma beleza que exige um olhar atento capaz de encontrar poesia na decadência e significado no que é instável.

O longa insiste em nos dizer nas entrelinhas que existe um certo tipo de elegância na imperfeição do cotidiano. Por exemplo, mesmo podendo tecer uma crítica aos prédios enormes que bloqueiam a luz e criando um ambiente sombrio e melancólico, há também algo de belo em observar os jogos de luz em prédios antigos, texturas de paredes desgastadas ou reflexos em vitrines, mostrando que nem sempre o que é bonito precisa ser grandioso. Outros exemplos são os grafites, cartazes colados em muros, ou objetos esquecidos que são como testemunhas de existências anônimas. A natureza intrusiva, plantas que brotam em frestas de prédios ou no chão, são lampejos de beleza orgânica em meio ao concreto. A própria Mariana, usa a beleza como resistência ao caos ao projetar espaços mínimos e funcionais, buscando extrair harmonia em ambientes claustrofóbicos, é como se fosse uma tentativa de “curar” a cidade através do design ao acreditar na capacidade da arquitetura de humanizar o urbano.
Há também o paradoxo de Wally, se é difícil encontrar uma pessoa conhecida em meio a multidão, como encontrar alguém sendo que você nem sabe o que procura?! É muito inteligente a forma como o diretor decide usar essa metáfora do Wally durante as cenas, uma vez que os dois personagens estão sempre a 1 segundo de se esbarrarem, sugerindo que a beleza urbana reside também na possibilidade de encontros não planejados, mesmo que não se concretizem.
Por fim, o filme explora a ideia de que superfícies escondem realidades internas. As Medianeras, assim como as redes sociais, por exemplo, ocultam histórias pessoais tornando os indivíduos invisíveis em meio a multidão. E também me fez refletir que a cidade não é apenas um cenário, mas um organismo vivo com a capacidade de espelhar a complexidade da condição humana. Buenos Aires, assim como as metrópoles pelo mundo, torna-se um personagem que molda a solidão, mas também deixa brechas para a esperança.


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